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Modelo eficiente

Valor Econômico, Especial, p. F1
06 de Jun de 2013

Modelo eficiente

Por Isabel Dias de Aguiar e Roberto Rockmann
Para o Valor, de São Paulo

Reconhecido internacionalmente pela competência na agricultura e pelo sucesso no agronegócio, o Brasil tem ainda obstáculos a superar para se habilitar a alimentar o mundo, que em duas décadas terá sua população acrescida em 3 bilhões de habitantes. Entre os desafios, está o de manter o crescimento acelerado da produção, poupando área e recursos naturais e, assim, se tornar, além de econômica e agrícola, uma potência ambiental, o que só será possível por meio das boas práticas no uso da terra. Foram esses alguns dos temas debatidos terça-feira durante o seminário "Agricultura como instrumento de desenvolvimento econômico", promovido pelo Valor com o patrocínio da Bayer AgroScience.
Com muitos elogios aos agricultores e à agricultura brasileira, os palestrantes recordaram os avanços alcançados no campo, com tecnologia própria, e a capacidade de vencer os obstáculos que insistem em atrapalhar as atividades, como os entraves da logística e a oferta insuficiente e mal distribuída do crédito rural. O agricultor brasileiro já comprovou sua eficiência ao alcançar elevado nível de profissionalização e se transformar em empresário agrícola, acredita o presidente da Bayer AgroScience, Marc Reichardt. Além da estruturação das propriedades agrícolas pelo modelo empresarial, o produtor rural inovou e vem buscando sustentabilidade.
O diretor de gestão territorial da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), órgão da Presidência da República, o engenheiro agrônomo Arnaldo Carneiro Filho, lamentou o fato de o governo não ter aproveitado para o próximo ano agrícola o estudo feito pelos técnicos do órgão que dirige, destinado a orientar o direcionamento dos recursos do crédito rural e, assim, evitar problemas com as demandas florestais, poupar área e recursos naturais. Para Carneiro Filho, a "chave" para a expansão da produção agrícola está na pecuária. "Este setor vive uma grande transformação, o que permite a outras áreas crescerem."
Por meio da evolução tecnológica, a pecuária cede cada vez mais espaço para as demais atividades, sem prejuízo da produção de carne. O agrônomo acredita ser essa a estratégia para dar prosseguimento à queda do desmantamento da Amazônia e do cerrado. A fórmula ideal, na sua opinião, é a integração lavoura, pecuária e floresta.
A intensificação da pecuária está contribuindo para liberar entre 70 e 80 milhões de hectares para a agricultura, diz Carneiro Filho. Para isso, segundo informa, basta avançar na concentração do gado de uma taxa média de 1,1 para 1,7 cabeças de boi por hectare. Representaria um acréscimo na produção de carne de 3,2 para 5 arrobas por hectare/ano em média.
Com medidas como essas, a "paisagem" no campo vai mudar. Haverá um grau maior de diversidade. Outra recomendação: "Um olhar mais carinhoso para os cerca de 15 milhões de pequenos agricultores que moram no campo". Para Carneiro Filho, esses trabalhadores rurais são um elo importante para o desenvolvimento. O diretor do SAE ressaltou a importância do censo agropecuário, saber exatamente para onde foi e para onde vai a atividade e poder enxergar as oportunidades.
O pesquisador Mateus Batistella, chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélite ressalta que essa e outras conquistas dependem do conhecimento profundo das características e das mudanças do território nacional. Para ele, a sustentabilidade rejeita hipóteses. É por meio do conhecimento que é possível identificar as oportunidades.
Batistella recomenda o acompanhamento das informações divulgadas em tempo real por meio do site Somabrasil, que é o Sistema de Observação e Monitoramento da Agricultura no Brasil, desenvolvido pela Embrapa.
Apesar do peso do setor agrícola no PIB, sua representatividade no mercado de capitais ainda é bastante baixa no Brasil. Estima-se que menos de 1% do valor total de empresas listadas na BMF&Bovespa esteja ligado ao agronegócio, afirmou Arlindo Moura, presidente da Vanguarda Agro (V-Agro), uma das principais empresas do setor. Em quase dez anos, período em que foram registradas mais de 100 aberturas de capital, apenas nove foram de empresas com foco em agricultura, o que corresponde a menos de 3% do volume total de recursos arrecadados com essas operações, segundo Moura. A V-Agro abriu capital em 2006. Sua estrutura acionária é pulverizada, com predominância majoritária de investidores brasileiros.
Ana Cristina Barros, da The Nature Conservancy (TNC), reconhece que não é nada fácil gerir espaços tão grandes quanto os explorados pela agricultura brasileira. Por isso, considera necessária a construção de uma base de informações para o acompanhamento das atividades no campo. Segundo informou, a TNC, por meio de parcerias, reúne informações de área em uma extensão de 40 milhões de hectares.
Ana Cristina recomenda uma mobilização nacional para que o país possa transpor gargalos logísticos. Sugere, por exemplo, a construção de uma nova rota para a soja, pela bacia hidrográfica do rio Tapajós. "Seria possível reduzir em até um terço o custo de transporte da soja." O uso de hidrovias no transporte de produtos agrícolas contribui para o desenvolvimento sustentável, afirma. "Aquela região corre sério risco ambiental", informa. Há por lá cerca de 50 mil garimpeiros, atraídos pelo que se considera uma das mais importantes reservas de ouro do país. Está sendo projetada ainda uma série de pequenas usinas hidrográficas, o que pode comprometer o sonho da navegação. "Essa é também uma das áreas nas quais mais cresce o uso da irrigação para as lavouras da região."

Valor Econômico, 06/06/2013, Especial, p. F1

http://www.valor.com.br/agro/3151328/modelo-eficiente

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