Zero Hora-Porto Alegre-RS
Autor: VIVIAN EICHLER
01 de Ago de 2002
Povos crescem a uma taxa de 4% ao ano
Sobreviventes às ofensivas colonizatórias, os povos indígenas crescem a uma taxa de 4% ao ano, o dobro da média brasileira.
O fenômeno é comparável a uma recuperação pós-guerra.
O salto populacional está ligado ao início da devolução dos territórios e reconhecimento dos povos indígenas como cidadãos brasileiros, a partir do final da década de 80. Para garantir a qualidade de vida dessas pessoas, o desafio é encontrar um modelo econômico próprio. O Rio Grande do Sul é o Estado que apresenta as condições mais adequadas para melhorar a vida dos indígenas. A avaliação é do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Artur Nobre Mendes. O Estado foi o único a reconhecer o erro histórico de fazer reforma agrária em terra indígena. Decidiu, ainda, indenizar e reassentar os colonos pelos lotes de terra devolvidos aos índios - cabe à Funai pagar pelas benfeitorias. O processo se iniciou ainda na administração anterior do governo estadual e foi intensificado na atual gestão.
- A ocupação foi um erro governamental, que loteou as reservas. Ocorreu da mesma forma no Paraná e em Santa Catarina - diz Mendes.
Somente na metade norte do Rio Grande do Sul, 37,7 mil hectares estão sendo devolvidos aos índios. No território, a visão de produtividade mudou. Culturalmente acostumados a plantar e a colher para subsistência, os indígenas passaram décadas alheios à capacitação tecnológica. Para o presidente da Funai, o modo agrícola indígena encontra problemas na hora de enfrentar o mercado e competir com a realidade branca.
Mesmo alocados em áreas com benfeitorias construídas pelos colonos, eles têm restrições no acesso ao crédito para trabalhar a terra, são descapitalizados e encontraram solos exauridos e florestas devastadas.
- Eles nunca serão produtores como os brancos, têm uma outra maneira de gerir a terra. Esperamos que, preservando a cultura indígena, eles incorporem tecnologias para resgatar o meio ambiente e garantir a subsistência - admite Mendes.
Em Planalto, o cacique José do Nascimento reconhece ser uma exceção. Ele e cinco irmãos conseguiram recursos para plantar em 90 hectares. Considera-se parte de uma minoria que consegue crédito. O filho é vereador em uma cidade vizinha e, assim, comprou calcário e sementes. A aldeia tem 18 máquinas, entre arados, carroção e trator. Mas, no plantio e na colheita, o cacique contrata Romildo Santa Catarina - por ironia, um ex-posseiro de terra indígena. O maior problema é a dificuldade na obtenção de crédito.
- Temos a terra, mas é como se estivéssemos acampados. Não vejo futuro bom sem que se consiga ter dinheiro para plantar - atesta.
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