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Mistérios da vida na última fronteira do país

O Globo, Ciência, p. 46
29 de jul de 2007

Mistérios da vida na última fronteira do país
Arquipélago de São Pedro e São Paulo, isolado no meio do Oceano Atlântico, ganha o primeiro censo da fauna

Letícia Lins

Desconhecido da grande maioria dos brasileiros, objeto de estudos de Charles Darwin no século XIX e inóspito, o
arquipélago de São Pedro e São Paulo acaba de ganhar o primeiro levantamento completo do seu acervo de vida. E o estudo revela que os rochedos do ponto mais avançado do Brasil no Atlântico Norte abrigam uma expressiva comunidade animal.

No conjunto de 15 ilhas e ilhotas pedregosas, cuja área total soma só 0,1 quilômetro quadrado, foram catalogadas 254 espécies de animais, inclusive 120 peixes, dos quais quatro só existem no local. Há ainda dois peixes demersais - que vivem em grandes profundidades - que são inéditos e encontram-se em estudo. Suas características são guardadas a sete chaves por pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco, autores do inventário, até que sejam encaminhadas para publicações científicas.

O livro "Arquipélago de São Pedro e São Paulo: histórico e recursos naturais" - com tiragem limitada de apenas 120 exemplares - registra também 49 espécies de moluscos, 15 de crustáceos, oito de cetáceos (entre golfinhos e baleias), sete de esponjas, três de tartarugas marinhas, três de lesmas marinhas, uma de equinodermo pepinodomar), quatro de corais, e seis de anêmonas, entre outros.

Já na parte terrestre, os pesquisadores catalogaram nove aves visitantes esporádicas, três residentes e três migrantes.
Também encontraram uma mosca, duas espécies de carrapatos, três de piolhos de aves, uma traça, uma centopéia, duas aranhas, dois besouros e até uma de barata.

Segundo uma das coordenadoras da edição, Rosângela Paula Lessa, a publicação não esgota os estudos no arquipélago, que conta com uma estação científica em funcionamento desde 1998, e na qual as equipes de pesquisadores se revezam a cada 15 dias. O trabalho recebe apoio do Programa de Ilhas Oceânicas do CNPq, que financia as investigações.

A importância da base, no entanto, não se limita apenas ao caráter científico. É também estratég i c a . S e ela não existisse, a área próxima ao arquipélago, a 1.010 quilômetros de Natal, poderia ser livremente explorada por barcos estrangeiros, o que representaria grande risco para a riqueza da fauna local. A Convenção das Nações Unidas para o Direito do Mar estabelece que "os rochedos, que por si próprios não se prestam à habitação humana ou à vida econômica , não devem ter zona econômica exclusiva nem plataforma continental".

Como as ilhas não estão desocupadas, o Brasil é soberano no que diz respeito à exploração e aproveitamento dos seus recursos pesqueiros, que foram exaustivamente explorados por barcos japoneses na década de 50.

O livro mostra que pelo menos 19 dos peixes que ocorrem na área são de grande importância comercial, alguns com cotas internacionais de captura. O local é abundante em atuns e tubarões (cujas barbatanas são extremamente cobiçadas pelo mercado asiático). Há, também, espécies disputadas pelo comércio de peixes ornamentais, como o borboleta-listrado ou boca-demoça (Chaetidib striatus linaeus).

Animais ameaçados de extinção vivem ali

Além de deter soberania do arquipélago, o Brasil também responde pela conservação e gestão dos recursos naturais da região, que, desde 1986, foi transformada em área de Proteção Ambiental juntamente om o Atol das Rocas e o Arquipélago de Fernando de Noronha.

Os rochedos de São Pedro e São Paulo abrigam animais ameaçados de extinção e internacionalmente protegidas. É o caso do tubarão-baleia. Considerado o maior peixe do mundo - pode atingir até 15 metros -, ele figura na lista de espécies ameaçadas da União Internacional de Conservação Para a Natureza. Apesar do tamanho, o Rhincodon typus Smithé dócil, chega a ter seu enorme corpo tocado por mergulhadores.

O Globo, 29/07/2007, Ciência, p. 46

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