CB, Brasil, p. 13
18 de Mar de 2005
A miséria de sempre
Levantamento da Unicef aponta que em 484 cidades do semi-árido, as crianças com menos de 2 anos estão correndo risco de morte por causa da desnutrição. Pais ainda não sabem usar os serviços de saúde pública
Paloma Oliveto
Da equipe do Correio
Na aridez de 484 municípios brasileiros, crianças com menos de 2 anos correm risco de morte por uma deficiência vergonhosa: a desnutrição. Relatório inédito do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apresentado ontem na 32ª Sessão do Comitê Permanente de Nutrição da ONU divulgou mapas do semi-árido que apontam a gravidade da miséria.
Em 34,3% das cidades que compõem a região, mais de 10% das crianças com até 2 anos estão muito vulneráveis, apresentando quadros de desnutrição aguda. O padrão da Organização Mundial de Saúde (OMS) considera aceitável um percentual de até 4%. Entre os municípios onde a falta de alimentos castiga a infância, está Guaribas, no Piauí, cidade em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou em 2003 o programa Fome Zero. Quase 18% dos meninos estão desnutridos.
Outro dado preocupante se refere à quantidade de consultas pré-natal realizadas pelas futuras mães: 75% das gestantes procuram o médico apenas quatro vezes em mais de 400 cidades. As consultas devem acontecer durante os nove meses de gravidez, e podem evitar, entre outros males, a desnutrição.
Desafio
A análise dos mapas permite concluir que o problema não está na falta de serviços de saúde. Tanto nos municípios onde há índices graves de nutrição quanto nos que as gestantes consultam-se poucas vezes, existem equipes dos programas Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e Saúde da Família (PSF). "O desafio é saber por que os moradores não utilizam esses serviços. Como são cidades miseráveis, muita gente nem sabe de seus direitos. Acha que só poderosos podem ir ao médico", observa Marie-Pierre Poirier, representante do
Unicef no Brasil.
Durante a reunião do comitê da ONU, representantes da sociedade civil e do governo discutiram formas de combater o problema. "O que acontece no semi-árido não é falta de recurso ou tecnologia. É falta de responsabilidade dos municípios", criticou Odorico Monteiro, secretário de Saúde de Fortaleza e presidente do Conselho Nacional dos Secretários Municipais de Saúde (Conasems). "O conselho e o Unicef estão realizando uma mobilização para os secretários que assumiram os cargos no dia 1o de janeiro. Temos que trabalhar a desnutrição numa perspectiva de atenção integral à saúde", defendeu Monteiro.
Iniciativa
A representante do Unicef no Brasil diz que os programas sociais brasileiros são bons, mas questiona a ausência de resultados positivos em muitos municípios. "As pessoas têm de cobrar por conquistas práticas, não adianta só apresentar indicadores e estatísticas", diz Poirier. Ela cita o exemplo do Ceará, estado onde a mortalidade infantil vem caindo nos últimos três anos, para afirmar que é possível transformar a realidade do semi-árido. "O Unicef estimula a troca de experiência entre municípios e estados. É preciso aproveitar as boas iniciativas."
Para o secretário de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, José Giácomo Baccarin, a estrutura miserável do semi-árido tem origens históricas. "O país enfocou seu desenvolvimento industrial no Centro-Sul, e o semi-árido, principalmente do Nordeste, ficou para trás. Mas a gente não tem como combater a seca, a gente precisa aprender a conviver com o semi-árido. Essa região tem condições de se desenvolver desde que as políticas sejam adequadas. Não há como fazer mágica. As coisas acontecem com o tempo", diz.
Baccarin anunciou que o governo federal vai investir R$ 180 milhões no semi-árido este ano. Só na construção de cisternas serão aplicados R$ 68 mil. O ministério espera contemplar 250 mil pessoas, que passariam a ter acesso à água. O custo de cada cisterna é baixo para o benefício que propicia: com R$ 1,5 mil, é possível armazenar 16 mil litros de água potável.
A CIDADE MAIS VULNERÁVEL
Em Santo Amaro do Maranhão 82,4% das gestantes fazem menos de quatro consultas pré-natal e 29,43% das crianças com até 2 anos de idade estão com desnutrição aguda
Realidade árida
O semi-árido brasileiro reúne cerca de 1,5 mil municípios dos nove estados do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, ocupando uma área de mais de 1,4 milhão de quilômetros quadrados.
Sua população é de 26,4 milhões de habitantes. Desses, 10,9 milhões têm de 0 a 17 anos, representando 41,3% da população da região.
A taxa de mortalidade infantil é superior à média nacional em 95% das cidades do semi-árido.
O percentual de crianças com menos de dois anos desnutridas é quatro vezes maior (8,3%) que na região Sul (2,3%).
Complicações perinatais, infecções respiratórias agudas e deficiências nutricionais respondem por 33,8% dos óbitos das crianças menores de 1 ano.
A desnutrição atinge mais de 10% das crianças com menos de 2 anos de idade em um terço dos municípios do semi-árido que são atendidos pelos programas Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e Saúde da Família (PSF).
Em 426 municípios da região, 75% das gestantes realizam menos de quatro consultas pré-natal.
75% das crianças sobrevivem em famílias com renda menor que ½ salário mínimo por pessoa.
Quase a metade dos meninos e meninas do semi-árido (42%) não tem acesso à rede geral de água, poço ou nascente.
Em 38,5% das casas em que vivem crianças e adolescentes, não há rede geral de esgoto, fossa séptica ou rudimentar.
Cerca de 350 mil crianças e adolescentes, entre 10 e 14 anos, estão fora da escola.
Mais de 390 mil adolescentes são analfabetos.
No semi-árido, os alunos demoram 11 anos para concluir o ensino fundamental.
Menos de 3% das famílias com crianças e/ou adolescentes têm acesso a computador.
Uma a cada seis crianças de 10 a 15 anos trabalha.
Fonte: Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)
CB, 18/03/2005, Brasil, p. 13
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