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Milhares quase escravos

O Globo, Razao Social, p.14
04 de jul de 2005

Siderúrgicas criam o Instituto Carvão Cidadão para acabar com trabalho ilegal no norte
Milhares quase escravos
A impunidade e a ausência do estado explica a existência de tantos trabalhadores vivendo ainda em regime análogo ao da escravidão no Brasil, segundo a coordenadora nacional do projeto de Combate ao Trabalho Escravo no Brasil pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), Patrícia Audi. Num dos painéis temáticos mais concorridos da Conferência Ethos - "Parcerias para o combate ao trabalho escravo" - os números mostram que ainda há muito o que fazer neste setor. De 1995 até este ano, segundo os registros da OIT, 15 mil brasileiros foram resgatados dos locais onde viviam como escravos. Acredita-se que ainda hoje haja 25 a 45 mil pessoas vivendo assim:
--- Os números são aproximados porque quando a equipe de fiscais chega numa fazenda, os gatos (homens que contratam os trabalhadores) ordenam que eles fujam para a mata. E aí não há como saber quantos são de verdade --- explicou Patrícia, anunciando que o Pacto Nacional contra o Trabalho Escravo, capitaneado pelo Instituto Ethos, já recebeu a adesão de 55 empresas.
Pará é o estado campeão desse tipo de crime. Para combatê-lo, surgiu em agosto do ano passado uma iniciativa em rede, chamada Instituto Carvão Cidadão (ICC), que congrega oito das 15 usinas siderúrgicas do Parque Siderúrgico dos Carajás. Foi assinada uma carta-compromisso pelo fim do trabalho escravo na produção do carvão vegetal e pela dignificação e modernização do trabalho em cadeia produtiva do setor siderúrgico.
--- Fizemos uma auditoria entre os 189 fornecedores das usinas que têm entre seus quadros 2.870 trabalhadores e constatamos que 1.998 são registradisregistrados e 872 não têm registro --- explicou Andre Câncio, do ICC.
Um dos problemas encontrados por eles é o subregistro de pagamento, ou seja, quando o trabalhador ganha R$300 na carteira mas tira muito mais por fora, ganhando por produção, o que não garante os direitos trabalhistas em cima do que recebe. A auditoria mostrou também que 47.28% dos trabalhadores têm carteira de dívidas (caderneta onde são anotados como dívida a alimentação do empregado, e que no fim do mês é tirado do salário dele). Cem por cento não têm salário-família e 72% vivem em locais com péssimas instalações sanitárias.
Temos dificuldades, como a falta de engajamento empresarial e a ausência de serviços públicos satisfatórios. Vocês não imaginam a dificuldade que é ajudar um trabalhador a tirar sua carteira de trabalho --- disse Andre.
O ICC engloba os estados de Maranhão, Pará e Tocantins, uma região com quase dois milhões de quilômetros quadrados.

O Globo, 04/07/2005, p. 14

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