CB, Brasil, p. 16
29 de Fev de 2004
Mexilhões causam prejuízo
Moluscos invadiram país a bordo de embarcações vindas da Ásia. Obstruindo canalizações de água potável e turbinas de usinas hidrelétricas, transformaram-se em grande problema na Região Sul
Em menos de cinco anos, eles conseguiram se multiplicar, obstruindo tubulações de algumas companhias de abastecimento de água potável e também entupindo filtros dos sistemas de empresas de energia. Os mexilhões dourados (limnoperna fortuneí), moluscos de cerca de três centímetros de comprimento, têm causado prejuízos ainda não calculados aos governos do Rio Grande do Sul, do Paraná, do Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso. Para controlar o problema, o governo criou uma força-tarefa, formada por sete ministérios e mais 13 entidades.
Em abril, serão lançadas campanhas alertando para a necessidade de evitar a expansão dos organismos. "É fundamental haver uma espécie de orientação geral porque há deslocamento constante das embarcações e nelas, muitas vezes, aparecem as mais diferentes espécies, inclusive de mexilhão dourado", afirmou Tarcísio Alves de Oliveira, da Secretaria Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos, do Ministério do Meio Ambiente. "As medidas definidas pela força-tarefa devem ser divulgadas em um esforço coletivo para evitar que o problema se tome ainda maior."
Os pesquisadores desconfiam que os moluscos chegaram ao Brasil por meio de embarcações vindas da Ásia. Os mexilhões invadem as tubulações e filtros com uma rapidez surpreendente, segundo os cientistas. São facilmente adaptáveis aos diferentes climas, assumindo características singulares e portanto surpreendentes.
Os mexilhões brasileiros ainda são objeto de pesquisa e mistério para os cientistas. "Já sabemos que não podem ser utilizados na alimentação porque alguns indivíduos adultos apresentaram a presença de salmonela", explicou Leonilda Corrêa dos Santos, do laboratório ambiental da hidrelétrica de Itaipu, referindo-se à identificação da bactéria que causa infecção intestinal.
A preocupação com os prejuízos causados pelos moluscos chegou até a Organização Marítima Internacional, a agência das Nações Unidas responsável pela segurança da navegação e prevenção da poluição marinha. A organização determinou que os navios troquem pelo menos três vezes a água de lastro (volume sólido ou líquido colocado em um navio para garantir a estabilidade e condições de flutuação) em alto mar, no mínimo a 200 milhas da costa e a 200 metros de profundidade.
A medida contribui muito pois permitirá o controle de entrada de espécies exóticos e patogênicos, que podem transmitir uma série de doenças", afirmou Robson José Calixto, oceanógrafo com mestrado em engenharia costeira, do Ministério do Meio Ambiente.
No caso das embarcações menores, utilizadas em pesca por exemplo, os especialistas sugerem o máximo de rigor na higienização. 0 ideal, segundo eles, é usar jatos de água morna na limpeza, garantindo a eliminação dos mexilhões, sem riscos de agressões ao meio ambiente. A sugestão vale também para as embarcações que estão paradas ou que ficam à espera de viagem por mais de dois dias.
Prejuízos econômicos
Os mexilhões podem se deslocar junto com a água de lastro (tanque do navio), principalmente incrustrados nos cascos das embarcações, em plantas, equipamentos de pesca, dentro de reservatórios de água e em iscas. Independentemente da forma como ocorre, a multiplicação deles começa a causar impacto na economia. Ao terem turbinas e filtros bloqueados, as empresas se vêem obrigadas a aumentar a freqüência da limpeza desses sistemas.
Um cálculo indireto pode ser feito com base nos números relativos ao comércio marítimo. 0 transporte por via aquática movimenta mais de 80% das merca
donas no mundo e transfere internacionalmente de três a cinco bilhões de toneladas de água de lastro a cada ano, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. Estima-se que um volume semelhante é transferido internamente no Brasil.
"A preocupação essencial é que ocorra um controle sobre a multiplicação do mexilhão, pois sabemos que é difícil cessar o problema de forma definitiva", definiu Calixto.
Itaipu luta contra contaminação
Maior hidrelétrica em funcionamento no mundo, Itaipu, cuja potência instalada é de 12.600 MW (megawatts), foi uma das primeiras empresas a buscar alternativas para controlar a invasão dos mexilhões dourados. Inicialmente, a direção aumentou a freqüência na manutenção das máquinas geradoras de energia, em vez de uma vez por ano, agora são feitas duas vistorias anuais.
Paralelamente às manutenções, a direção de Itaipu testa experimentalmente a injeção de cloro em baixas concentrações no sistema de resfriamento de uma unidade geradora. Para realizar as pesquisas, foram contratados dois especialistas Sidney Letichevsky e Daniel Cataldo.
Letichevsky e Cataldo coordenam também os trabalhos de monitoramento da freqüência e presença de larvas e adultos do molusco. Segundo a chefe do laboratório ambiental da empresa, Leonilda Corrêa dos Santos, o resultado dos esforços foi observado nas últimas análises, com a identificação de 184 mil mexilhões..
"Sabemos que a solução para o problema não é rápida e depende de uma série de pesquisas e muito trabalho", afirmou a pesquisadora. Ela contou que estão em análise o uso de filtros mecânicos para retenção dos moluscos e até ações de correntes elétricas. "Mas isso está em fase de testes."
Leonilda Santos ressaltou ainda que estão sendo realizadas pesquisas sobre supostas doenças causadas pelos mexilhões dourados, entre elas a esquistossomose, conhecida popularmente como barriga d'água, e dermatite dos nadadores, uma inflamação de pele.(RG)
Os números
7000 espécies aquáticas podem ser carregadas no lastro dos navios
80% das
mercadorias do mundo são transportadas por via marítima. Sete ministérios integram a força-tarefa do governo de controle do molusco
CB, 29/02/2004, Brasil, p.16
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