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Autor: Antonio Martins
18 de Out de 2016
O declínio das velhas formas de democracia pode abrir caminho para mais um fato novo. Concluído em San Cristóbal de las Casas (no estado de Chiapas), na última sexta-feira (14/10), o 5o Congresso Nacional Indígena (CNI) do México decidiu apresentar, às eleições presidenciais que serão realizadas em 2018, um candidata indígena.
Ela não está escolhida. Ao longo do congresso, que reuniu 33 povos, nações e tribos originárias do país, decidiu-se iniciar um processo heterodoxo. Consultas de nível local, que serão realizadas "em cada uma de nossas geografias, territórios e rumos" escolherão um Conselho Indígena de Governo. A este caberá indicar uma mulher, como candidata à presidência. Ela não se filiará a nenhum partido, nem tentará organizar um novo. Aproveitará a brecha aberta na legislação eleitoral, que permite pela primeira vez a apresentação de candidaturas independentes.
O Congresso Nacional Indígena foi criado por inspiração dos zapatistas em 1996, dois anos depois do levante liderado pelo então "subcomandante Marcos". Ele, por sinal, reapareceu na sexta-feira, depois de vários anos ausente dos espaços de visibilidade. Chama-se agora "subcomandante Galeano". Participou dos trabalhos como um ativista de base, sem discursar. Seu antigo papel parece ser ocupado agora pelo subcomandante Moises, que afirmou: "É tempo da dignidade rebelde, de construir uma nova nação por e para todos e todas, de fortalecer o poder anticapitalista, de baixo e à esquerda".
A iniciativa terá êxito? Por muitos anos, os zapatistas foram, em todo o mundo, o grande símbolo e inspiração para uma esquerda pós-"socialismo real". Levantaram-se em armas de forma totalmente inesperada em 1o de janeiro de 1994, questionando o principal instrumento do capitalismo globalizado: os acordos de "livre" comércio, que permitiram às grandes empresas livrar-se até mesmo das velhas legislações nacionais. Mas ao invés de adotar retórica militarista e mergulhar na luta pelo poder, como as guerrilhas dos anos 1960, dirigiram-se ao mundo em comunicados poéticos. Resistiram a repressão selvagem - do exército e, principalmente, dos paramilitares.
Em 2001, uma longa marcha pelo interior do país levou-os finalmente à Cidade do México. Marcos foi recebido por uma multidão, mas os zapatistas esbarraram na ausência de um projeto nacional. Como reorganizar uma sociedade complexa? Acabaram retornando à Chiapas e empregaram sua energia política na organização de pequenas comunidades, em Caracoles e Juntas de Buen Gobierno. Produziu-se, desde então, uma espécie de trégua tácita. A repressão é menos intensa: os zapatistas são tolerados, ainda que se mantenham em armas - mas nunca voltaram a ameaçar o poder central.
A decisão da última sexta-feira representará uma nova reviravolta? O país está em crise. A estagnação econômica de muitos anos, somada à "guerra às drogas", degenerou em violência generalizada, expansão dos para-exércitos do crime, sensação permanente de insegurança. Mas o México tem 126 milhões de habitantes (num território quatro vezes menor que o brasileiro), vastíssima diversidade cultural e étnica, economia complexa, PIB per capita equivalente ao do Brasil. As comunidades zapatistas e a mulher que elas escolherão para simbolizar seu projeto serão capazes de sinalizar os ventos da mudança?
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