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Metade do milho brasileiro pode ser transgênico em 2010

OESP, Vida, p. A24
15 de Nov de 2009

Metade do milho brasileiro pode ser transgênico em 2010
Consultoria Céleres estima que uso de sementes geneticamente modificadas ultrapassará 50% já no próximo plantio de inverno; agricultores relatam bons resultados na safra 2008-09

Herton Escobar

O milho que vai brotar no Brasil em 2010 terá algo de diferente. Especialmente para as lagartas. A expectativa é que mais da metade das plantas já serão geneticamente modificadas, com um gene embutido em seu DNA que as tornará resistentes ao ataque desses insetos. A safra de verão, que está sendo plantada agora, deverá ser 30% transgênica e a próxima, de inverno, 53%, segundo estimativas da consultoria Céleres.

Na safra anterior - primeira em que o milho transgênico pôde ser plantado legalmente no Brasil - a taxa de adoção foi de 19%. "A velocidade com que essa tecnologia está sendo adotada é surpreendente", avalia o economista José Maria da Silveira, professor da Universidade Estadual de Campinas e membro do Conselho de Informações sobre Biotecnologia, ONG ligada ao agronegócio.

"Quem plantou uma vez vai plantar de novo", diz o agricultor João Carlos Werlang, presidente institucional da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho). Ele mesmo conta que plantou 40 hectares com transgênicos na safra passada, "só para experimentar". Este ano, vai plantar 250 hectares - a fazenda inteira. "O rendimento foi muito melhor do que com o milho convencional", afirma Werlang. "E o manejo é muito mais simples. Dá uma tranquilidade danada."

Onze tipos de milho transgênico já foram aprovados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) desde 2007, mas só um tinha sementes disponíveis no mercado para a safra passada: o MON 810, da empresa Monsanto. Ele traz em seu DNA um gene da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), responsável pela síntese de uma proteína que é tóxica para certos tipos de lagarta que atacam a lavoura - porém inofensiva para o homem e outros animais. Assim, a planta produz seu próprio inseticida orgânico. Quando a larva tenta se alimentar do milho, ela morre, reduzindo a necessidade de pesticidas químicos.

"A semente transgênica é mais cara, mas acaba compensando porque você usa menos inseticida", diz Werlang, cuja fazenda fica nos arredores de Brasília. A média na região, segundo ele, é de seis a oito aplicações de inseticida por plantio. Com o milho transgênico, ele acha que pode chegar a zero. "No ano passado eu fiz uma aplicação só por desencargo de consciência, mas nem precisava. O transgênico daria conta sozinho."

Outros dois milhos transgênicos estão disponíveis para esta safra: o Bt 11, da Syngenta, e o Herculex, da DuPont/Dow. Também foi aprovado recentemente o milho Bt11xGA21, da Syngenta, o primeiro que combina dois genes em uma mesma planta: um de resistência a lagartas e outro, de tolerância ao herbicida glifosato. Isso permite que o produto seja aplicado sobre toda a lavoura para o controle de ervas daninhas, sem prejudicar o milho.

Nos Estados Unidos, 85% do milho plantado já é transgênico, com várias combinações de genes. Na Argentina, 60%.

No caso da soja, a previsão da Céleres é de que a porção de transgênicos na produção brasileira aumente de 65% na safra passada para 71%, na safra 2009-10. A soja transgênica é plantada legalmente no País desde 2003 e ilegalmente, desde o fim da década de 90, com sementes inicialmente contrabandeadas da Argentina.

A única tecnologia disponível é a Roundup Ready (RR), da Monsanto, cuja liberação comercial no País foi bloqueada durante cinco anos - entre 1998 e 2003 -, por causa de ações judiciais movidas por organizações ambientalistas e de defesa do consumidor. Outras quatro variedades estão sendo avaliadas pela CTNBio, incluindo uma desenvolvida em parceria pela Embrapa e a Basf.

A soja RR tem o gene de uma bactéria que a torna resistente ao glifosato. No Rio Grande do Sul, onde o problema com ervas daninhas é mais grave, a adesão aos transgênicos é de quase 100%. Já em Mato Grosso, a soja convencional ainda é a mais plantada. A parcela de transgênicos no Estado foi de 42% na safra passada e poderá chegar a 48% neste ano, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

A preferência deve-se a dois fatores, segundo o diretor executivo da Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Marcelo Monteiro. Um é a falta de variedades transgênicas bem adaptadas ao clima do Estado, onde a soja convencional é extremamente produtiva. Outro é a estratégia comercial de algumas empresas de produzir soja convencional para suprir nichos de mercado na Europa.

É o caso do Grupo André Maggi, que "reservou" uma rota de escoamento e uma região inteira no oeste do Estado só para a produção de soja convencional. A empresa faz parte da recém-criada Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange). "Não somos contra a tecnologia de forma alguma, desde que se respeite o direito do produtor de plantar o que quiser e o do consumidor, de comprar o que quiser", diz o engenheiro agrônomo Ivan Paghi, diretor técnico da Abrange.

Inserção nos alimentos deve crescer
Milho é ingrediente de vários produtos; Maizena já foi rotulada

Herton Escobar

O aumento no uso de sementes geneticamente modificadas na produção de milho deve aumentar também a presença dos transgênicos na mesa do consumidor. Além de ser consumido diretamente na espiga ou em grãos, o milho fornece ingredientes básicos para muitos alimentos industrializados. "É muito mais presente na nossa comida do que a soja", diz o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), Edmundo Klotz

Uma das marcas mais tradicionais de amido de milho do País, a Maizena, já está rotulada como transgênica desde julho. A lei brasileira exige que produtos contendo mais de 1% de ingredientes de origem transgênica sejam rotulados com a letra "T" dentro de um triângulo amarelo, acompanhado da frase "transgênico", "contém transgênico" ou "produzido a partir de transgênico".

Procurada pelo Estado, a Unilever, dona da marca Maizena, disse que rotulou o produto "para cumprir a legislação". Isso apesar de a proporção de milho transgênico na safra 2008-2009 ainda ter sido pequena (cerca de 19%). Segundo fontes ligadas ao setor, a empresa optou pela rotulagem imediata como uma medida preventiva, já prevendo que seria muito difícil - e caro - manter o produto livre de transgênicos.

Os primeiros alimentos rotulados como de origem transgênica no País foram os óleos de soja, no fim de 2007. "O que não tiver rótulo é porque não tem 1% (de transgênicos)", garante Klotz. "O que era inevitável rotular já está rotulado."

Ele faz questão de ressaltar que não há diferença entre os óleos derivados de soja transgênica e convencional, já que nem o gene nem a proteína transgênica estão presentes no produto. O rótulo deve-se apenas ao fato de o óleo ter sido extraído de grãos modificados.

A Abia não se opõe à rotulagem, mas é extremamente crítica do triângulo amarelo, por entender que ele passa uma mensagem equivocada de "perigo". "É um símbolo universal de alerta, de atenção", afirma Klotz. "Não informa nada; só assusta e confunde o consumidor." A associação apoia um projeto de lei do deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), que eliminaria o triângulo e incluiria no rótulo apenas uma informação textual sobre o ingrediente transgênico do produto. Outra preocupação da indústria com relação ao milho é o fato de ele ser componente básico da ração de galinhas e porcos - o que não ocorre com a soja. A lei exige que a carne de animais alimentados com transgênicos também seja rotulada.

"Entre um produto transgênico e um não transgênico, a maioria das pessoas vai escolher o convencional", diz o diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange), Ricardo Tatesuzi de Sousa. É essa preferência que mantém nichos de mercado abertos para os produtores de grãos convencionais.

"A vantagem do Brasil é que na nossa agricultura tem espaço para tudo: transgênico, não transgênico, orgânico", diz Sousa. No caso da soja, quase 100% da produção dos EUA e da Argentina é transgênica, o que deixa o Brasil como único grande fornecedor do produto convencional. "Precisamos proteger esse mercado."

Conab tentará incluir tecnologia nas estatísticas

Herton Escobar

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) vai começar a monitorar a participação dos transgênicos na produção agrícola brasileira. A partir deste mês, os questionários levados a campo para elaboração dos relatórios de acompanhamento de safra incluirão uma pergunta sobre o uso de sementes geneticamente modificadas.

Até hoje o governo federal não tem estatísticas oficiais sobre o uso de transgênicos na agricultura nacional, apesar da tecnologia já ser usada legalmente nas lavouras de soja desde 2003. Os números usados como referência são produzidos por empresas e organizações ligadas ao setor.

A coleta de dados deve começar nesta semana, quando os técnicos da Conab forem a campo verificar o andamento da safra. "Tentaremos divulgar os resultados, se conseguirmos informações consistentes", disse o técnico Eledon Oliveira.

O Brasil foi o terceiro país com maior área plantada de transgênicos em 2008, com 15,8 milhões de hectares cultivados de soja, milho e algodão, segundo o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia. O primeiro foi os Estados Unidos, com 62,5 milhões de hectares, seguido da Argentina, com 21 milhões.

OESP, 15/11/2009, Vida, p. A24

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