JB, Pais, p.A10
21 de Mar de 2004
Mergulho profundo nas águas brasileiras
Casal de aviadores coleta amostras em rios e lagos de Norte a Sul do país
Adriana Freitas
Após cinco meses em expedição por rios, represas e lagos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o casal de aviadores Gérard e Margi Moss acumulou conhecimento de causa para avaliar se há motivos para festa no Dia Internacional da Água, celebrado amanhã. A julgar pelo que foi visto na viagem, a resposta é negativa. Problemas de assoreamento, poluição e desmatamento foram constantes durante o percurso, que se encerra no fim deste ano. De Norte a Sul do Brasil, foram coletadas mais de 400 amostras de água, que já receberam as primeiras análises.
Encerrado um roteiro de 100 mil quilômetros e feitas coletas em mil pontos, haverá uma comparação para formar uma espécie de index das águas. Os resultados são preocupantes. No Pantanal, por exemplo, metade das coletas apresentou alta concentração de nutrientes, o que pode gerar desequilíbrio ambiental no futuro.
Com a companhia inseparável de Margi, o engenheiro Gérard sobrevoa o país num ultraleve Sea Max anfíbio, equipado com uma sonda - para analisar ph, salinidade, oxigênio dissolvido - e um sistema de busca de informações hídricas, que capta inclusive microorganismos e sedimentos. O projeto, que recebeu o nome de Brasil das Águas, é fruto de uma parceria entre a Agência Nacional das Águas (ANA) e a Embrapa, contando com patrocínio da Embratel e da Petrobras.
- Além de analisar a saúde de nossas águas doces, identificamos ambientes que nunca foram contaminados para que possam ser conservados. São lugares onde a água nunca foi analisada - comenta Gérard, acostumado a aventuras. Ao lado de Margi, ele já deu uma volta ao mundo num monomotor e outra num motoplanador.
Apaixonado por expedições radicais, Gérard optou, desta vez, por uma aventura de cunho científico. Na bagagem, recolheu descobertas e surpresas, como as águas limpas do RioTietê, em Araçatuba, no interior de São Paulo.
- Descobrimos que a maioria dos municípios da região trata seus esgotos. Além disso, o Tietê tem uma capacidade de recuperação que faz a água se limpar pouco a pouco - ensina.
O aviador também conta que, na Região Sul, viu rios secarem devido ao uso excessivo de suas águas para plantações de arroz. A poluição, por sua vez, foi um choque.
- Em Criciúma, região industrial de Santa Catarina, vi o Rio Mãe Luisa mudar de cor quatro vezes: azul, vermelho, laranja e pardo, tudo por causa da grande concentração de algas e carvão. Neste rio, identificamos ph abaixo de 3, quando o normal é 7. Isso revela água extremamente ácida.
Para Gérard, o objetivo do projeto é preservar locais onde há água limpa e recuperar áreas com grandes impurezas:
- O Brasil não pode chegar ao patamar da China, onde 80% dos rios e lagos são poluídos e quase não há mais vida.
Donato Seji, professor do Instituto Internacional de Ecologia, em São Carlos (SP), coordena a análise das águas e engrossa o coro das críticas:
- A análise das águas no Pantanal nos surpreendeu. O nível elevado de nutrientes é resultado do lançamento de esgoto doméstico não tratado e do uso de fertilizantes em larga escala nas plantações de soja.
Em junho, o casal Moss chega à Amazônia, na esperança de encontrar um quadro mais animador.
JB, 21/03/2004, p. A10
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