Valor Econômico, Empresas, p. B2
17 de Dez de 2013
Mercado critica taxa de retorno de São Manoel
Por Claudia Facchini e Rodrigo Polito
De São Paulo e do Rio
Os investidores receberam mal a agressiva oferta feita pelo consórcio Terra Nova, formado pela Energias do Brasil (66,6%) e Furnas (33,3%), para a hidrelétrica de São Manoel, no Pará, leiloada na sexta-feira pelo governo federal. Grande parte dos relatórios de analistas de investimento e consultores dava como certa que a taxa interna de retorno do empreendimento ficaria abaixo de 6%. Esse patamar representa uma rentabilidade inferior à obtida nos títulos de longo prazo do governo brasileiro, que oferecem uma remuneração de 6,3% por ano aos investidores.
Segundo consultores, as baixas taxas de retorno fazem com que os empreendimentos só se tornem viáveis para estatais. No caso de Furnas, subsidiária da Eletrobras, analistas afirmam que a estatal está "queimando" as indenizações que recebeu da União, referentes às concessões cujos contratos foram renovados no fim do ano passado.
As ações da Energias do Brasil, subsidiária do grupo português EDP, fecharam ontem em baixa de 5,8%, a R$ 11,34, acumulando neste ano uma queda de 6,2%. As ações da Eletrobras PNB também caíram 1,37%, para R$ 10,04
A agressividade da EDP, que possui entre seus sócios a estatal chinesa China Three Gorges (CTG), causou preocupação entre os analistas. Procurada, a empresa não concedeu entrevista.
O consórcio Terra Nova ofereceu vender a energia de São Manoel por R$ 83,5 por MWh, com um deságio 22% sobre o preço máximo estabelecido pelo governo. O lance derrotou seus quatro concorrentes logo na primeira rodada do leilão.
Na avaliação do presidente do grupo francês GDF Suez no Brasil, Maurício Bähr, o preço-teto para São Manoel, de R$ 107 por MWh, já não refletia o aumento do custo de construção das hidrelétricas no Brasil. "Infelizmente, esses custos não são levados em consideração", disse o executivo, em entrevista recente ao Valor. Sobre as manifestações e paralisações nos canteiros de obras, Bähr afirmou que esse risco não estava no plano de negócios de nenhum investidor. "Agora, infelizmente, vai entrar".
As estimativas para a Taxa Interna de Retorno (TIR) que o consórcio Terra Nova terá com São Manoel variam de 3% a 6%, conforme a metodologia. De acordo com um consultor, a taxa será 6%.
Já os analistas do Citi calculam que a taxa real de retorno será de 5,7% (considerando a alavancagem financeira do empreendimento), mas sem levar em conta custos adicionais ou atrasos nas obras. Os analistas do Credit Suisse (CS) estimam que as taxas reais de retorno (com alavancagem) ficarão entre 3% e 5%. A hidrelétrica está orçada em R$ 2,7 bilhões.
"São Manoel parece ter sido um má decisão para a Energias do Brasil", escreveram Vinicius Canheu e Pedro Manfredini, do CS. Segundo eles, uma taxa "decente" de retorno seria de 10%. Mas os projetos deveriam considerar ao menos uma rentabilidade de 6,5%, que é o retorno oferecido pelos títulos de longo prazo do governo.
Os analista do Citi calculam que a hidrelétrica traz um impacto negativo de 0,8% no valor de mercado da Energias do Brasil. Para a Eletrobras, a perda estimada é de 0,3%. "É difícil encontrar um projeto que tenha sido lançado dentro do orçamento e dentro do prazo nos anos recentes", afirmam Marcelo Britto, Kaique Vasconcellos e Marcello Scarparo.
Segundo eles, é possível que o grupo chinês CTG assuma um terço do capital de São Manoel. "No entanto, não está claro se o acordo [entre a Energias do Brasil e a CTG] se aplica à usina de 700 MW", escrevem os analistas do Citi. Recentemente, a CTG comprou uma fatia direta de 50% em duas usinas em fase de construção da Energias do Brasil, Cachoeira Caldeirão e Jari.
Valor Econômico, 17/12/2013, Empresas, p. B2
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