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Menos frio e mais prejuízo

O Globo, Amanhã, p. 20-22
30 de Jul de 2013

Menos frio e mais prejuízo
Estudo revela que derretimento do Oceano Ártico pode custar mais de R$ 134 trilhões para a economia global por aumentar o nível dos oceanos, provocar desertificação e condições climáticas extremas

STEVE CONOR,
Do "Independent"

-LONDRES-

Com o derretimento do Ártico, a liberação repentina de grandes quantidades de metano - um gás de efeito estufa pelo menos 20 vezes mais potente do que o dióxido de carbono - é uma "bomba-relógio econômica", que pode explodir a um custo de US$ 60 trilhões (ou R$ 134 trilhões) para a economia global, segundo concluiu um estudo recente, publicado na "Nature".
A análise científica dos custos associados à liberação de metano do Ártico na atmosfera revelou que as consequências econômicas para o mundo seriam quase iguais à toda a produção econômica global em um ano. Segundo cientistas e economistas, a liberação do metano aprisionado por milhares de anos sob o permafrost (solo congelado) do Ártico é uma das mais perigosas consequências do rápido aquecimento da região, que assistiu ao derretimento de mais de um terço de seu gelo desde os anos 70.
Usando os mesmos modelos de computador utilizados pelo Relatório Stern sobre a Economia das Mudanças Climáticas de 2006, os pesquisadores descobriram que os efeitos sobre o clima global de uma liberação repentina de metano, ao longo de mais ou menos uma década, podem ser catastróficos em termos das consequências das secas sobre a agricultura, do aumento do nível do mar, das inundações de áreas costeiras e das condições meteorológicas extremas.
- O que temos é um conjunto convincente de dados que diz que o preço apenas destas consequências nos valores de hoje é de US$ 60 trilhões. Esta é uma bomba-relógio econômica, que até agora não foi reconhecida no cenário global - disse o principal autor do estudo publicado pela revista "Nature", o professor Gail Whiteman, da Universidade Erasmus, em Roterdã. - Os líderes mundiais, além do Fórum Econômico Mundial e do Fundo Monetário Internacional, precisam prestar mais atenção a esta bomba-relógio invisível. Os impactos aproximam-se do valor da economia mundial no ano de 2012, de US$ 70 trilhões.
O estudo utilizou um modelo econômico com os efeitos das mudanças climáticas para avaliar os custos das emissões de gases do efeito estufa extras no nível do mar, na temperatura, no risco de inundação, na saúde e nas condições meteorológicas extremas. Os pesquisadores fizeram as contas por meio do modelo 10 mil vezes e chegaram ao prejuízo médio de US$ 60 trilhões, a ser abatido durante os próximos cem anos.
As estimativas de quanto metano seria liberado foram baseadas em expedições russoamericanas no Mar da Sibéria Oriental, onde os cientistas mediram bolhas de metano na superfície, vindas de depósitos armazenados sob o permafrost do leito oceânico, onde a plataforma continental é relativamente rasa.
Cientistas russos calculam que pode haver até 50 bilhões de toneladas de metano presos sob o permafrost do Mar da Sibéria Oriental. O metano é mais ou menos 23 vezes mais potente do que o dióxido de carbono ao longo de um período de 100 anos, e sua liberação repentina poderia mudar o clima mundial significativamente mais rápido do que dizem as atuais previsões climáticas.
Por exemplo, uma carga enorme de metano poderia adiantar de 15 a 35 anos a data em que a temperatura média global excederá o limite "seguro" de dois graus Celsius acima dos níveis pré-industriais. Este limite será alcançado até 2035 se nada for feito para reduzir as emissões dos gases-estufa, ou 2040 se as emissões forem reduzidas, diz o estudo.
"Nós calculamos que os custos de um derretimento do Ártico serão enormes, porque a região é fundamental para o funcionamento dos sistemas da Terra, como os oceanos e o clima", dizem os pesquisadores no trabalho. "Muitos desses custos serão um fardo para os países em desenvolvimento, que enfrentarão condições meteorológicas extremas, o deterioramento da saúde e produção agrícola mais fraca, à medida que o aquecimento do Ártico afetar o clima. Todos os países serão afetados, não apenas aqueles localizados no extremo Norte, e todos devem se preocupar com as mudanças que ocorrem nesta região", continuam os cientistas.
O "Independent" revelou em 2008 que milhões de toneladas de metano estão sendo emitidas a cada verão no Mar da Sibéria Oriental, onde o gelo do mar tem diminuído. Com o recuo do gelo, o mar sob ele começa a aquecer e o permafrost do leito oceânico derrete, explica o professor Peter Wadhams, especialista em gelo do Ártico na Universidade de Cambridge, que também fez parte do estudo publicado na "Nature".
- Nós estamos olhando para um grande problema, possivelmente um efeito catastrófico sobre o clima global que tem sido uma consequência desse recuo extremamente rápido do gelo marinho - disse o professor Wadhams. - Temos uma enorme área do mundo que costumava ser coberta de gelo do mar durante todo o ano, e que, agora, nos meses de verão, infelizmente se liberta do gelo. Enquanto o gelo do mar existia no verão, o oceano embaixo era mantido a uma temperatura abaixo de 0 "C ou menos. Mas, assim que o gelo for removido, o oceano será exposto à intensa radiação, e a água vai aquecer. Vimos um aumento considerável de gás metano na atmosfera, a curva de metano global começou a subir, e o lugar onde isso mais está acontecendo é no Ártico.

CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

SATÉLITES registraram um declínio dramático na extensão do gelo flutuante no Ártico. Medições feitas por submarinos sugerem que a espessura média do gelo marinho caiu pela metade.

CONDIÇÕES climáticas extremas, como a supertempestade Sandy, são previstas com cada vez mais frequência, num mundo mais quente. Os custos disso são incalculáveis.

NO ANO passado, a Nasa registrou o derretimento de 97% do gelo na superfície da Groenlândia no verão. O gelo derretido leva à maior absorção de calor e mais derretimento.

O AUMENTO do nível do mar tem acelerado. Cerca de 10 milhões por ano são afetados por inundações. Este número tende a triplicar com a crescente migração para megacidades costeiras.

A TUNDRA congelada de forma permanente está derretendo rapidamente no Ártico. Durante o verão, vastas áreas do "permafrost" siberiano se transformam em pântanos e piscinas de água.

EM UM mundo mais quente, cientistas esperam que regiões como o Sertão brasileiro fiquem ainda mais secas, tornando impossível a agricultura e provocando a migração em massa.

O Globo, 30/07/2013, Amanhã, p. 20-22

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