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Menino negro se torna um xavante

Diário de Cuiabá-Cuiabá-MT
Autor: RODRIGO VARGAS
13 de dez de 2003

Aos 14 anos, ele deixa a família para viver na aldeia; hoje, pela Funai, negocia paz com posseiros

"Chico preto", que fala xavante, tem pais, irmãos e afilhados indígenas, hoje trabalha na Funai

Maio de 1970, município de Bom Jardim, Goiás. Um menino de 14 anos resolve, à revelia da família, amigos e mesmo de si próprio, atrelar seu destino ao de um povo desconhecido nas feições, idioma, costumes e história.

Dezembro de 2003, Alto Boa Vista, Mato Grosso. Cabe ao um técnico indigenista da Funai, fluente em português e xavante, negociar a paz entre índios e milhares de posseiros da Terra Indígena Maraiwatsede, na área da antiga fazenda Suiá Missú.

O protagonista destes dois momentos é Francisco dos Santos Magalhães, o "Chico Preto", funcionário do núcleo de apoio às áreas xavantes Areões e Pimentel Barbosa, em Nova Xavantina. No intervalo entre um e outro, 33 anos de uma história que merece ser contada.

Ela começa ainda 1969, quando Francisco sequer imaginava o rumo que sua vida tomaria. Dos índios, conhecia apenas a versão dos livros de história, que os qualificavam como indóceis e violentos. "Eu tinha muito medo deles", recorda.

Calhou de seu empregador à época ter um irmão na chefia do Posto Indígena São Domingos, localizado no então município de Barra do Garças (hoje, território de Cocalinho). Foi em uma visita a Bom Jardim que Jamiro Batista Arantes conheceu Francisco.

"Ele gostou de mim e, como precisaria fazer um curso de indigenismo de quatro meses fora de Mato Grosso, pediu que eu ficasse este período na aldeia, ajudando o pessoal do posto e tomando conta dos seus filhos", diz.

Foram quatro meses "amargos", avalia o técnico, nos quais sofreu com o desconhecimento do idioma, a falta de crianças da sua idade e, principalmente, a saudade da mãe.

"O local era um ermo e os índios tinham pouco tempo de contato, uns 25 anos. Ninguém falava bem o português. Eu ficava contando os dias, doido para voltar".

Ao final de seu curso, Jamiro retornou à aldeia e, percebendo o descontentamento do garoto, decidiu levá-lo de volta à casa dos pais. O que poderia ser o fim de uma malfadada aventura, contudo, levaria Francisco a fazer uma escolha que até hoje o surpreende.

"Quando voltei à cidade, achei tudo muito estranho. A relação com os pais, irmãos, amigos, tudo havia mudado. Nada mais parecia me servir naquele lugar. Era como se eu tivesse passado a vida toda na aldeia", conta ele. "Eu entendi na hora que tinha de voltar e tentar de novo".

A principal barreira, o medo, foi vencida com o diálogo. De volta à aldeia, o garoto procurou os poucos xavantes que falavam o português e contou de sua vontade de aprender o idioma nativo. "Eu pegava um objeto e perguntava o nome. Eles repetiam duas, três vezes. Depois fui aprendendo a juntar as palavras, formar frases".

Em um ano, ele já era capaz de conversar em xavante. Nessa época, entre 1971 e 1972, acompanhou a mudança de toda a aldeia para a área Pimentel Barbosa, situada nas proximidades da Serra do Roncador.

"A área anterior, na beira do rio das Mortes, era ruim para o cultivo, pois a capivara comia tudo. Além disso, tinha muita malária", conta ele.

Em 1973, já um rapaz, Francisco foi integrado a um dos oito grupos de idade sobre os quais a sociedade xavante é organizada (ver matéria). Começou a participar dos rituais, inclusive o que marca a passagem dos meninos à vida adulta.

"Eu participei da cerimônia de furação de orelha, tive treinamento de caçada e os padrinhos vinham ensinar o respeito aos mais velhos, à cultura e às tradições. Também ensinavam como se portar diante de um grupo diferente do seu".

Para sobreviver e comprar roupas, Francisco aprendeu a fazer colares e cestas que vendia para os próprios funcionários do Posto da Funai. "Cheguei a ficar dois anos direto com os índios. Quando fui visitar a família, ficava misturando palavras xavante com o português".

Entrou para a Funai em 1978, quando então teve de deixar os pais adotivos Sereburã e Penepe e se embrenhar em missões junto a outros povos indígenas nos estados do Acre, Paraná, Santa Catarina e Bahia. Só voltaria doze anos mais tarde, na administração da Funai em Nova Xavantina.

"Tenho pais, irmãos e oito afilhados xavante. A relação é de confiança mesmo, como se eu fosse mais um da família", resume o técnico indigenista que, aos 48 anos de idade, se considera um privilegiado. "Uma coisa é ouvir falar, ler sobre o assunto, outra é conhecer. Para mim, aquele tempo foi uma lição de vida".

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