O Globo, Economia, p. 29
Autor: VIEIRA, Agostinho
06 de Fev de 2014
Melhor se acostumar
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
A piada pronta e recorrente deste início de ano tem sido garantir que o aquecimento global chegou. O aumento médio da temperatura entre 4"C e 6"C, previsto para o final do século, passou a fazer parte do dia a dia de cariocas, paulistas e até gaúchos. Os termômetros insistem em ficar rondando a casa dos 40"C e as conversas começaram a incluir a tal sensação térmica, nunca abaixo dos 50"C.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Rio, São Paulo e Porto Alegre estão entre as cidades que estabeleceram novos recordes para o calor. A média, na capital paulista, ficou em 31,9"C, a mais alta desde que as medições começaram a ser feitas, em 1943. Os gaúchos enfrentaram uma temperatura média de 33,1"C, só registrada antes em 1916. No Rio, a média ficou em inacreditáveis 36,2"C, a maior dos últimos 30 anos.
Nenhum cientista sério fará uma ligação automática entre estes recordes de temperatura e o aquecimento global. No máximo dirá que as subidas e descidas do termômetro, fora do padrão, tendem a ser mais frequentes por causa das mudanças climáticas.
Neste caso, segundo o Inmet, as causas foram um sistema de alta pressão no oceano que trouxe um vento quente do Norte para o Sul do país. Além de um bloqueio atmosférico, registrado no Uruguai, que impede as frentes frias de chegarem ao Brasil. E tudo indica que continuará assim até a metade do mês.
No entanto, apesar de não haver uma ligação direta e óbvia entre esse calorão dos infernos e o aquecimento global, a situação que vivemos nos últimos dois meses pode servir como uma espécie de treinamento. No mínimo, um alerta. Tem gente que acha que o mundo vai acabar com as mudanças climáticas. Não vai. Mas ficará bem mais desagradável. Na verdade, "desagradável" é uma palavra suave demais para os povos da África, da Ásia e mesmo do Nordeste do Brasil que enfrentarão mais secas, terão mais safras destruídas e sofrerão com mais casos de fome.
Mais desagradável deve ficar a vida de uma parte dos cariocas, mas a dos moradores da Baixada Fluminense pode beirar o insuportável, por causa da subida no nível do mar. De acordo com o Relatório de Avaliação Nacional, divulgado pelo Painel Brasileiro de mudanças climáticas (PBMC) no ano passado, o Brasil tende a ficar, em média, até 6"C mais quente em 2100. Mais ou menos a diferença de temperatura que tivemos no Rio agora. Passamos de uma média histórica de 29,4"C, em janeiro, para 36,2"C.
É claro que não vamos passar os 365 dias do ano fritando ovo no asfalto, mas os "invernos" de 20"C iriam para 25"C. Além disso, apagões como os que aconteceram esta semana, provocados pelo consumo excessivo de energia, tendem a se tornar mais frequentes. O mesmo vale para a falta de água, uma constante em áreas como a Região dos Lagos, Florianópolis e Fortaleza.
O estudo do PBMC prevê que na Amazônia, por exemplo, a temperatura aumentaria progressivamente 1,5"C até 2040, 3,5"C entre 2040 e 2070 e mais de 5"C nas últimas três décadas. Provocando uma mudança grande no regime de chuvas, que diminuiriam 25% na primeira metade do século e mais de 40% na segunda. Imagine o impacto que isso pode causar no clima do país e no funcionamento das hidrelétricas que estão sendo construídas na região?
Um efeito oposto ocorreria nos Pampas Gaúchos. Até 2040, a região ficaria entre 5% e 10% mais chuvosa e 1"C mais quente. No fim do século, a temperatura subiria 3"C e as chuvas, entre 35% e 40%. Não há dúvida de que previsões para cem anos carregam uma margem importante de incerteza, mas as estimativas são feitas com base em dados históricos, a partir do trabalho dos melhores cientistas do setor.
Muitos deles, membros também do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Aliás, na semana passada foi divulgada a versão final do último relatório da entidade. Ele classifica como "extremamente provável" que mais da metade do aumento das temperaturas médias na superfície global entre 1951 e 2010 tenha sido causado pela concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Resultante, basicamente, das atividades humanas.
Ou seja, estamos esquentando a água do banho e reclamando das queimaduras. Mas não se preocupem. Logo o calor passa e vai voltar a chover. Talvez chova muito, talvez chova demais. Uma variação úmida sobre o mesmo tema. Há muito que fazer para minimizar os efeitos das mudanças climáticas. Ou se começa logo ou é melhor se acostumar.
E-mail: economiaverde@oglobo.com.br
6"C É a previsão de aumento da temperatura média no Brasil até o fim do século, que seria causado pelo Aquecimento Global. Praticamente a mesma variação registrada no Rio ao longo do mês de janeiro.
O Globo, 06/02/2014, Economia, p. 29
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