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Meio ambiente no Brasil: um circulo vicioso

CB, Revista D, p. 30
Autor: PEREIRA NETO, João Tinôco
20 de Jun de 2004

Meio ambiente no Brasil: um circulo vicioso

João Tinôco Pereira Neto
Especial para o Correio

A questão ambiental no Brasil apresenta uma lamentável realidade, sem perspectivas de melhoras, em face da progressiva degradação ocorrente no país. Isso é fruto do descaso generalizado dos governantes, dos mitos, do protecionismo, da corrupção, da incapacidade técnica, da miséria e das injustiças sociais e, por mais incrível que possa parecer, do modismo.
Ainda dá status no Brasil a autodenominação de "ambientalista" ou dizer ser envolvido com as questões ambientais. A partir daí é iniciada uma corrida à organização, festiva, de palestras, mesas-redondas, passeios nas matas, campanhas de coletas de latinhas etc. Essas e muitas outras ações ambientais, no Brasil, realizam muito pouco ou nada em prol de um problema por demais complexo.
Grande parte da comunidade científica no país, que se diz preocupada com a questão ambiental, é formada, eminentemente, por teóricos, fazendo discursos acadêmicos, fora da realidade prática. Há de ser também considerada a errônea visão secretada de um problema que é holístico, o discurso retrógrado da intocabilidade dos recursos naturais, o comodismo diante do pernicioso modelo de desenvolvimento industrial do país, os absurdos cometidos em termos de políticas urbanas e, pior, a importação de modelos ultrapassados de gestão ambiental dos países industrializados para implantá-los em nossos vários "Brasis", ignorando suas especificidades, a exemplo da inversão de distribuição demográfica e crescente miséria.
Os relatórios do Banco Mundial assinalam que, mesmo sendo notória a redução no ritmo de crescimento da população mundial, esta chegará em 2030 com um aumento da ordem de 3,7 bilhões de pessoas. Devemos, diante desses dados, atentar para dois fatores básicos: o primeiro é que este aumento é muito maior do que o registrado na geração anterior e, provavelmente, em toda a história; o segundo é que cerca de 90% desse aumento ocorrerá nos países em desenvolvimento, onde sua quase totalidade se dará nas áreas urbanas, sem que nenhuma medida preventiva seja tomada para o caos resultante no ambiente.
O relatório de Desenvolvimento Humano de 2003, divulgado em 7 de junho do ano passado pela Organização das Nações Unidas, mostra que o resultado brasileiro ainda é considerado péssimo, atrás de países como Colômbia, Malásia, Bielorússia e apenas uma posição à frente da Bósnia-Herzegovina, um país recém trucidado pela guerra. 0 Brasil é apontado como "parâmetro de iniqüidade", ao lado da China, índia e México, todos citados como economias em crescimento, mas que deixam à margem regiões de intensa pobreza, se equiparando aos países pobres da África, com relação à cobertura em saneamento ambiental.
Não podemos deixar de considerar, a julgar pelos dados estatísticos do país, que para cada 3 mil habitantes outros 1.950, em média, moram nas áreas carentes das cidades. Entretanto, tais áreas são incorporadas ao espaço urbano e, igualmente, irão demandar água, energia, alimento, escola, atendimento médico e, também, produzirão lixo, esgoto etc. A água virá clandestinamente, de córregos poluídos ou nascentes que deveriam ser reservadas. Esgotos e lixos gerados serão lançados nos córregos, nos lixões ou descerão morro abaixo, causando erosões, enchentes, poluição, desmoronamentos, levando à proliferação de vetores e doenças às populações marginais.
São essas pessoas sofridas que alongam as filas dos postos de saúde e hospitais públicos, com doenças provocadas pela falta de saneamento ambiental, as quais podem se transformar em surtos epidêmicos, afetando todo o país. Paradoxalmente, somos a 12a economia do mundo. Os estudiosos assinalam que a nossa produção industrial está em plena expansão, podendo duplicar nos próximos 50 anos. Isso significa maior pressão no ambiente para extração de recursos naturais, energia, a fim de que sejam produzidos os bens de consumo, acarretando maior degradação.
Além das políticas equivocadas de gestão, os atuais problemas ambientais não resolvidos estão sendo adiados, e tantos outros têm crescido progressivamente. Caso a política ambiental do Brasil não possua a "visão do todo", não tenha uma estratégia holística, o homem poderá vir a ter emprego, casa, hospitais, mas o seu ambiente, a água, o ar e os alimentos estarão contaminados, resultado de um país bastante comprometido pela degradação ambiental, provocada por um processo equivocado e maquiado de gestão, ao qual assistimos.

João Tinôco Pereira Neto é professor titular da Universidade Federal de Viçosa, doutor em Engenharia Sanitária e Ambiental pela Universidade de Leeds, Inglaterra, e coordenador do Laboratório de Engenharia Sanitária e Ambiental do DEC/UFV.

CB, 20/06/2004, Revista D, p. 30

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