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Médicos operam índios na floresta

A Crítica, Cidades, p. C5
19 de Out de 2004

Médicos operam índios na floresta
Expedicionários da Saúde, de Campinas (SP), fazem cem cirurgias em tribos isoladas da região do Alto Rio Negro. Essa foi a terceira viagem do grupo

Fabio Schivartche Folha de São Paulo

Em uma mochila, eles carregam anestesia, curativos e bisturi; na outra, repelente, motosserra e laptop. Misto de médicos e aventureiros, os integrantes da ONG Expedicionários da Saúde voltaram há três semanas para sua sede, em '".Campinas. no interior de São Paulo, com a marca de cem cirurgias realizadas em índios de tribos isoladas da Amazônia. Essa foi a terceira viagem do grupo de voluntários, formado por médicos e empresários que, desde 2002, enfrentam centenas de quilômetros de rios para operar membros de comunidades indígenas em alguns dos territórios mais inóspitos do País, na fronteira com a Colômbia.
Eles trabalham na região do Alto Rio Negro, que abriga cerca de 15% dos 200 mil índios brasileiros e ocupa uma área equivalente à metade do Estado de São Paulo. A distância e o trânsito feito exclusivamente por barcos de pequeno porte - chamados de voadeiras - dificulta o acesso dessas comunidades à saúde.
0 atendimento básico é feito por entidades conveniadas com a União, que também percorrem as áreas ribeirinhas distribuindo medicamentos e tratando os casos mais simples. Nas tribos, os índios utilizam ervas em rituais shamânicos para tratar de doenças nativas. 0 problema são os casos mais graves, com necessidade de intervenção cirúrgica. Apenas dois médicos aptos a fazer operações trabalham na área, onde vivem 30 mil pessoas.
Saindo das tribos mais afastadas, a viagem pode levar cinco dias até São Gabriel da Cachoeira, a cidade mais próxima. De lá até Manaus, onde há hospitais mais preparados, são pelo menos outros três dias. E muitos casos têm de ser transferidos para São Paulo ou Brasília. Já houve pacientes nos últimos anos que faleceram durante o longo trajeto.
"Nossa idéia é manter o índio em seu habitat natural e evitar o contato desnecessário com o ambiente das cidades, que podem trazer doenças novas e aumentares case de alcoolismo", diz o ortopedista R cardo Affonso Ferreira, um dos a ordenadores dos Expedicionária da Saúde - que surgiu a partir de um grupo de amigos que fazia caminhadas ecológicas pelo País. , primeira viagem, em novembro de 2002, foi de reconhecimento da área. Na segunda, em fevereiro deste am os médicos campineiros fizeram 60 cirurgias. Na última expedição, cem a maioria de oftalmologia - principalmente de catarata.
Profissionalização
Com um anestesista na equipe, grupo também realizou intervenções mais complexas, com cirurgias ortopédicas e até a extração do apêndice de um jovem de 16 anos, que corria risco de morte. A ONG está se profissionalizando e captando recursos junto a grandes empresas de Campinas. Com mais dinheiro, pude am levar geradores de 380 kg um ultra-som adaptado a um lap-top, para fazer diagnósticos ma: precisos dos pacientes.
Busca rápida Pós-operatório é feito nas ocas
Nem quando o caso é grave e a cirurgia é feita no hospital de alguma cidade ou vila mais próxima, os pacientes querem ficar longe de sua tribo. "Na cultura indígena, os hospitais significam a casa da morte", explica o antropólogo Stelio Marras, que acompanhou os médicos. Os índios receberam os campineiros com muita gratidão, conta Marras, pois não sabem como lidar com algumas doenças de branco. As ervas usadas em rituais shamânicos têm grande eficácia para tratar doenças nativas, mas pouca quando são males da civilização moderna. "Médicos que trabalham na região dizem ter visto medicamentos eficazes até contra a malária", conta Marras.

A Crítica, 19/10/2004, Cidades, p. C5

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