OESP, Vida, p. A12
28 de Fev de 2005
Mau uso de rio provoca crise de água no RS
Ambientalistas alertavam que má gestão do Rio Gravataí ameaçaria abastecimento
Elder Ogliari
A estiagem de três meses no Rio Grande do Sul deixou o Rio Gravataí quase seco e mostrou a 800 mil moradores de quatro cidades da região de Porto Alegre que as advertências feitas por ambientalistas há anos viraram realidade. A principal delas, de que a água é um recurso natural finito, ficou evidente após os cortes de 12 horas por dia no abastecimento, redução da atividade industrial e suspensão da irrigação das lavouras de arroz. Em meio à crise, os consumidores passaram a admitir a necessidade de racionalizar o uso. Os arrozeiros prometem reduzir a área de plantio e os prefeitos dizem que o planejamento urbano será mais rigoroso.
O momento mais dramático ocorreu no início do mês, quando o rio chegou a secar por 200 metros, do percurso total de 40 quilômetros. Na época, as prefeituras de Viamão, Alvorada, Gravataí e Cachoeirinha decretaram situação de emergência e a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) racionou o abastecimento. Acionada, a Patrulha Ambiental da Brigada Militar do Estado destruiu 20 represamentos construídos por produtores de arroz e lacrou sete bombas clandestinas. "A situação confirma que estamos no limiar de uma crise de água mundial", diz o diretor do Departamento de Recursos Hídricos da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Rogério Dewes.
Apesar de ter características especiais, como um trajeto pequeno, vazão baixa (24 metros cúbicos por segundo na foz) e um terço de seu curso regulado pelo depositário de suas águas, o Lago Guaíba, o Gravataí serve de referência para os planejadores das demais bacias do País. Suas águas abastecem a agricultura, as fábricas de uma das regiões mais industrializadas do Estado e o consumo humano.
Entre as razões históricas para o problema estão o aumento da instalação de indústrias e da população, que triplicou em 30 anos e já chega a 1,3 milhão de habitantes em toda a bacia. Além disso, o Banhado Grande, região para qual convergem diversos arroios e de onde sai o Gravataí, foi drenado nos anos 1970 para aumentar a área agrícola. "O banhado funcionava como uma esponja, retendo água nas cheias e liberando nas estiagens", diz o engenheiro Luiz Antônio Timm Grassi, coordenador da Câmara Técnica de Recursos Hídricos da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental.
A ambientalista Kathia Vasconcelos Monteiro, do grupo Amigos da Terra, faz um desabafo: "Os ecologistas que falavam em não aterrar banhados eram vistos como inimigos da agricultura e do progresso. Lamento que as discussões ambientais só sejam levadas a sério em épocas de crise."
A questão fez surgir diversas promessas. O engenheiro agrônomo Ivo Lessa, da Federação da Agricultura no Rio Grande do Sul (Farsul), assegura que os plantadores de arroz vão reduzir a área de cultivo a partir do ano que vem. O presidente da Corsan, Vitor Bertini, afirma que a população, chamada a colaborar, respondeu "de uma maneira muito positiva", evitando o desperdício. O prefeito de Gravataí, Sérgio Stasinski, promete que novos loteamentos urbanos só serão abertos após um estudo amplo de impactos ambientais.
OESP, 28/02/2005, Vida, p. A12
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