O Globo, O Pais, p.15
Autor: SILVA, Marina
21 de Nov de 2004
Marina Silva, uma verde isolada no governo
Acostumada a perder disputas na Esplanada, ministra do Meio Ambiente tem apoio de ambientalistas para sair
Ela bem que tenta, briga, chora, inferniza o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os colegas da Esplanada mas nas questões mais polêmicas nas quais o desenvolvimento econômico está em jogo, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, chamada de fundamentalista por alguns companheiros, está acostumada a dar o braço a torcer. Na maioria das vezes em favor do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, ou de Dilma Roussef, das Minas e Energia. Ambientalistas próximos à ministra dizem que há motivos mais do que suficientes para ela jogar a toalha.
O governador do Acre, Jorge Viana (PT), age como bombeiro para mantê-la no governo. Mas, contra a impressão geral dos ambientalistas, Marina acha que está conseguindo implementar uma política estruturante para o setor, o que justificaria sua permanência no cargo.
Ministra virou uma espécie de selo verde
O que se diz entre os ambientalistas é que Lula fatura com o prestígio da ministra, uma espécie de selo verde e que, sem a ex-seringueira e companheira de Chico Mendes na Esplanada, seu governo já estaria no paredão das ONGs defensoras do meio ambiente.
Ela age como se não fizesse parte do governo. Vai para a porta do seu próprio ministério se solidarizar com as ONGs e derramar lágrimas como se não tivesse qualquer responsabilidade sobre as decisões ambientais do governo diz Dener Giovanini, coordenador geral da Renctas (Rede nacional de combate ao tráfico de animais silvestres).
O diretor de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado, diz que Marina é uma guerreira, mas que a euforia pela nomeação dela deu lugar a uma enorme descrença.
Marina está numa sinuca de bico porque no governo Lula a política ambiental é tratada como obstáculo e não como desafio. Conquistas dos últimos 30 anos estão sendo jogadas no lixo. Para cada embate que a ministra ganha, perde dez. A questão é até quando ela vai resistir e continuar vinculada a um governo que não respeita a agenda ambiental diz Furtado.
O secretário municipal de Urbanismo no Rio, Alfredo Sirkis, diz que nunca houve tanto ambientalista de respeito no governo, mas nunca os ambientalistas apitaram tão pouco.
Marina goza de um enorme afeto de nós, ambientalistas, mas não consegue exercer sua autoridade sobre o triunvirato econômico que determina os limites da política ambiental. Sua grande conquista foi tirar o Brasil do foco negativo da imprensa internacional em relação às questões amazônicas diz.
Embora ainda acredite em uma reviravolta, Marina perdeu a queda-de-braço no encaminhamento do projeto da Biossegurança, em que o governo acabou patrocinando a aprovação do texto do Senado que retira poderes do Ibama e de outros órgãos de sua pasta para fiscalizar a comercialização e produção de transgênicos.
Nunca ameacei entregar o cargo
Marina diz que, apesar da torcida, não vai deixar o governo espontaneamente
Apesar da aparência frágil e das derrotas, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, diz que o esforço tem valido a pena e avisa que, para desgosto dos inimigos, não jogará a toalha. Embora acredite que seja grande a torcida, sobretudo entre os ruralistas, para que sua gota dágua caia logo, Marina diz que em momento algum pensou em entregar o cargo ou em desistir de implantar uma política ambiental consistente no país.
Vale a pena continuar assim no governo?
Marina Silva: Trabalhamos com uma agenda estratégica. Quando o presidente me convidou não achou que eu faria diferente, porque a equipe que está aqui tem uma trajetória de vida com a questão ambiental. Estamos fazendo rearranjos importantes, como o da BR-163. Se não fosse por capacidade técnica e compromisso ético seria muito difícil sentarmos com índios, extrativistas, pesquisadores, ONGs e empresas e fechar um acordo. Não faço nada querendo elogios, mas acho que o trabalho vale por ele mesmo.
Muitos ambientalistas dizem que a senhora tem sido pouco ouvida pelo governo.
Marina: Reposicionar a BR-163, com a pressão que existe dos governadores, será que não é ouvir a ministra? Criar dois milhões de hectares de reserva no coração da Amazônia, na área de maior conflito, em que era inimaginável fazer a reserva, será que não é ouvir a ministra? Mesmo o polêmico projeto de biossegurança enviado ao Congresso ouviu e atendeu à ministra. Não foi fácil. Devo reconhecer que assim como tenho posições históricas e trabalho por elas, o ministro da Agricultura também as têm e é uma pessoa igualmente de boa fé, que batalha por suas posições.
Alguém do Planalto ligou para dar uma satisfação à senhora? Pois pareceu que o governo se manifestou a favor do projeto do Senado e que aquilo teria sido a gota dágua, um motivo para sua renúncia.
Marina: Tem um grupo de ruralistas que gostaria que minha gota dágua fosse bem mais explosiva. Se na primeira tentativa de reposicionar a BR-163 eu tivesse feito daquilo a gota dágua, não teria tido êxito. O projeto de biossegurança ainda está em tramitação.
A escolha do novo relator Darcísio Perondi, da bancada ruralista, com o apoio do governo, não foi uma afronta?
Marina: Não sei se teve apoio do governo. A bancada do PT foi contra a destituição do relator e o ministro Aldo Rebelo (Coordenação Política) também. Como gosto que as pessoas confiem no que digo, também confio no que as pessoas me dizem.
A senhora nunca chegou a entregar o cargo ou a ameaçar pedir demissão?
Marina: De jeito nenhum. Nunca ameacei entregar o cargo ou pedi para sair. Ministro não ameaça presidente. E quando o ministro acha que não dá mais, vai lá e entrega a carta de demissão em caráter irrevogável.
A senhora acha que ainda tem espaço para trabalhar?
Marina: Ajudei durante 22 anos a montar esse projeto de governo. E estou fazendo jus ao esforço de ter uma política ambiental integrada, de fazer com que o meio ambiente não seja apenas cosmético. Mas quando você diz que meio ambiente é também a necessidade de licenciar organismo geneticamente modificado, aí todo mundo se levanta contra você e diz que você é fundamentalista.
A senhora se incomoda com a pecha de fundamentalista?
Marina: Eu me incomodo. Parece que quem defende meio ambiente não faz ciência.
A senhora resiste a duras penas?
Marina: Fazer o novo dá um pouco mais de trabalho. As dificuldades não são exclusividade da ministra Marina Silva.
A senhora não vai desistir agora no meio do caminho?
Marina: Eu me considero como a águia que tem de quebrar o bico na pedra, arrancar as penas e as unhas para nascer uma nova unha, um novo bico. Pode ser que eu até não consiga isso, mas eu vejo que há um esforço coletivo para que isso aconteça.
Derrotas e vitória
Derrotas
MP dos transgênicos - A ministra lutou contra a edição da Medida Provisória que liberou o plantio e a comercialização da soja transgênica. 0 ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, ganhou a disputa em favor dos ruralistas.
Porta-voz da Monsanto - 0 relator escolhido para o projeto da Biossegurança na Câmara, com o apoio do governo, foi o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), inimigo dos ambientalistas e aliado da Monsanto, multinacional que controla a comercialização de sementes transgênicas.
Vitórias
Orçamento - Marina disse ter assegurado no orçamento da União do próximo ano R$ 63 milhões para o combate ao desmatamento.
Áreas protegidas - A ministra comemora o fato de ter conseguido criar a maior quantidade de áreas protegidas e unidades de conservação nos dois primeiros anos da administração de petista do que qualquer outro governo.
O Globo, 21/11/2004, p. 15
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.