OESP, Nacional, p. A4
31 de Ago de 2009
Marina põe ambiente à frente da crise e contesta discurso do PAC
Agora no PV, com sonho da Presidência, ela diz que não queria mais convencer PT do que o mundo inteiro já sabe
Roldão Arruda
A senadora e ex-ministra Marina Silva (AC) filiou-se ontem ao Partido Verde. Foi o primeiro passo para o lançamento de sua candidatura à Presidência, prevista para o início do ano que vem. Em seu discurso e na entrevista coletiva, após assinar a ficha de filiação, ela não atacou diretamente o PT - partido do qual fez parte por quase 30 anos, até anunciar a sua desfiliação, dez dias atrás - nem o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Destacou, porém, as divergências políticas que a levaram a se afastar tanto do governo quanto do petismo.
Marina disse que, enquanto esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente, teve divergências e discussões sérias com a ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil e virtual candidata petista à Presidência, quanto aos rumos e às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - a menina dos olhos do governo. Em vários momentos não conseguiram chegar a um acordo, cabendo a Lula a palavra de desempate.
Mais tarde, já afastada do governo, ela não viu com bons olhos a forma como Lula resolveu atacar os efeitos da crise econômica mundial, estimulando a indústria automobilística sem exigir contrapartidas. Citou nesse momento o presidente americano Barack Obama, que pediu retribuições.
Para Marina, o combate à crise não poderia ter sido definido sem levar em conta a questão de sustentabilidade ambiental. "Existem hoje duas crises, uma é a econômica e a outra, uma crise ambiental sem precedentes. A segunda é mais grave. Se não resolvermos a crise ambiental, qualquer saída para a crise será uma falsa saída. Chegamos à era dos limites", afirmou.
Por fim, Marina lastimou o fato de o PT ter posto em segundo plano a bandeira ecológica, do desenvolvimento sustentável. Contou que vários companheiros tentaram demovê-la da decisão de deixar o partido. "Muitas pessoas me perguntavam: 'Por que não permanece, para o debate interno?' Aí eu vi que meu trabalho não era de convencimento, mas de atuar ao lado de quem está convencido daquilo que o mundo inteiro também já está convencido", relatou.
A senadora procurou cuidadosamente evitar que a cerimônia de filiação fosse confundida com um lançamento de sua candidatura. O vice-presidente do PV, o vereador carioca e ex-guerrilheiro Alfredo Sirkis, chegou a criticar Lula, que teria antecipado o debate eleitoral em um ano, com a apresentação do nome de Dilma como virtual sucessora. "Ele precipitou a discussão. Isso foi extremamente prejudicial para o País."
Apesar desses cuidados, o encontro de ontem, num bufê localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo, tinha o cenário e a animação de campanha eleitoral. Não faltou o grito de guerra "Marina, urgente! Marina, presidente!" nem a presença de atores globais, simpatizantes do PV e de Marina. Vitor Fasano estava na primeira fila da plateia. Cristiane Torloni ficou um pouco mais atrás.
ALIANÇAS
De acordo com o presidente nacional do PV, José Luiz Penna, o partido já articula alianças partidárias para as próximas eleições. Ele chegou a calcular em cinco minutos o prazo que a ex-ministra poderá ter no horário gratuito da TV, após a conclusão dessas articulações.
O partido está desenhando, segundo o deputado Zequinha Sarney (MA), líder do PV na Câmara, o roteiro de uma série de viagens que Marina fará por todo o Brasil a partir dos próximos dias. O programa do PV será rediscutido. A proposta deverá ficar pronta no início de 2010.
Paralelamente, começam a ser discutidas as candidaturas nos Estados. Marina deixou claro ontem que gostaria que o deputado Fernando Gabeira (RJ) concorresse a governador. O presidente do partido, porém, acha que seria preferível e mais seguro lançá-lo ao Senado.
No Rio, o titular do Meio Ambiente, Carlos Minc (PT), disse que Marina "vai qualificar o debate ambiental e exigir que todos os candidatos aprofundem a temática do desenvolvimento sustentável". Fez questão, porém, de elogiar a candidata de Lula: "Dilma foi fundamental para garantir o Fundo Amazônia."
Senadora abala cenário, diz ''NYT''
A entrada de Marina Silva na corrida sucessória de 2010 como possível candidata à Presidência pelo PV foi destaque no jornal americano The New York Times deste fim de semana. Em uma reportagem intitulada "Uma criança da Amazônia que mexeu com a política de um país", o diário traça o perfil da parlamentar do Acre e diz que a sua pré-candidatura "abala" o atual cenário eleitoral brasileiro.
Publicado no sábado, o texto conta a história "de uma mulher humilde que superou a pobreza extrema e a doença para se tornar uma das maiores forças da política brasileira". Sustenta que a sua mudança de partido e a eventual candidatura representam "uma inspiração para o povo brasileiro" em sua busca por um presidente para substituir Luiz Inácio Lula da Silva.
O jornal chega a fazer uma comparação entre as origens humildes de ambos e lembra que sua vitória nas urnas representaria uma nova conquista histórica para o País. O texto aborda a sua infância sofrida, a perda da mãe, a hepatite, as doenças da floresta, a chegada à faculdade em Rio Branco e as lutas ao lado de Chico Mendes e suas conquistas como ministra do Meio Ambiente e senadora. "Um ícone do movimento ambientalista", destaca.
O New York Times aponta a candidatura de Marina como de oposição ao nome escolhido por Lula para a sucessão, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Ex-ministra traz grupo de aliados e cobra renovação
Ingressaram também no PV ex-diretor do Greenpeace e ex-deputado Luciano Zica, que deixou PT com senadora
Roldão Arruda
A filiação da senadora Marina Silva ao PV não foi um ato isolado. Ontem também ingressou no partido um grupo de ambientalistas e militantes políticos que atuavam ao seu lado no Ministério do Meio Ambiente ou apoiavam suas propostas políticas. Entre eles estava o ex-deputado Luciano Zica (SP), que deixou o PT junto com a senadora, e o ambientalista Roberto Kishinami, ex-diretor executivo do Greenpeace no Brasil.
Essa filiação em grupo não foi apenas simbólica. Ela indica a abertura para novas filiações de petistas e ambientalistas e, sobretudo, a disposição de Marina de garantir desde o início uma presença forte no PV.
Nos próximos dias, o programa do partido passará por um processo de discussão e reformulação, a pedido de Marina. A equipe encarregada de realizar esse trabalho é formada por 21 pessoas. Metade foi indicada pela direção do PV e metade pela senadora. A 21ª cadeira caberá ao presidente do partido José Luiz Penna. Entre os indicados por Marina se encontram Zica e Kishinami. Também aparecem na lista João Paulo Capobianco, que foi secretário executivo do Meio Ambiente quando ela chefiava a pasta.
A principal tarefa na revisão do programa será adequar as propostas de sustentabilidade ambiental às descobertas científicas ocorridas desde a redação do primeiro programa, quase 20 anos atrás. Mas não só. Já se sabe que, na nova proposta, que deve ser votada e aprovada no início do ano que vem, também será dada mais ênfase a questões éticas.
Ao contrário de Heloísa Helena (PSOL-AL), que se desfiliou do PT para fundar outro partido, Marina não põe a questão ética no centro dos discursos. Afinal, ela é conhecida mundialmente por sua política de defesa do meio ambiente. Mas o assunto está presente em todos os seus pronunciamentos e dos companheiros mais próximos.
ATAQUE
O ataque mais forte ao governo petista, no encontro, foi feito justamente por questões éticas - o que pode ser anúncio do tom de campanha. Ele coube ao deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), também ex-petista. "Hoje temos no País um governo moralmente frouxo", afirmou. E continuou: "Temos um Congresso apodrecido e um Supremo Tribunal Federal em princípio de decomposição, com a decisão tomada nesta semana."
Referia-se à decisão do STF de arquivar a última das denúncias criminais contra o ex-ministro e deputado Antonio Palocci (PT-SP).
Integrante do governo Lula, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, presente na mesa de honra, ao lado do deputado, evitou rebater a crítica. Disse que, embora ele e Gabeira façam parte do mesmo partido, têm opiniões diferentes sobre política.
Ferreira também pôs em segundo plano as divergências da senadora com o governo. "Ela não é de oposição", afirmou. "Disse em seu discurso que vai mudar de casa, mas não vai mudar de rua."
Ferreira defendeu ainda a ideia de reformulação do programa do PV, com críticas à atual estrutura. "Com a Marina, o PV vai passar por uma refundação programática e isso me deixa alegre", afirmou. "É preciso haver mais democracia no partido e que a base seja mais ouvida."
A chegada de Marina ao PV expõe alguns problemas internos graves, como falta de fidelidade de muitos de seus políticos às causas partidárias. Ontem, enquanto Penna reclamava das cobranças da imprensa a respeito, afirmando que são excessivas, Marina dizia que elas devem ser feitas. E sempre.
OESP, 31/08/2009, Nacional, p. A4
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