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Marina pede que assessores não deixem cargos

O Globo, O País, p. 8
15 de Mai de 2008

Marina pede que assessores não deixem cargos
Presidente do Ibama, no entanto, já anunciou demissão; ministro interino e outros colaboradores sairão do governo

Cristiane Jungblut

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva pediu a seus principais colaboradores que não saiam em debandada dos cargos para "não deixar o ministério parar". Ontem, em encontro com parlamentares do Acre, em seu apartamento de Brasília, Marina disse esperar que não haja mudanças na política ambiental com a nomeação de Carlos Minc. 0 presidente do Ibama, Bazileu Margarido, foi o único a afirmar que está demissionário, assim que Marina anunciou sua decisão. Mas o secretário-executivo do Meio Ambiente e ministro interino, João Paulo Capobianco, também sairá do governo, assim como outros assessores, entre os quais o secretário de Recursos Hídricos, Luciano Zica.
Apesar do constrangimento, os principais assessores de Marina mantiveram as agendas. Enquanto ela permaneceu em seu apartamento, Capobianco e Margarido foram ao Palácio do Planalto para encontro sobre o andamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), um dos motivos dos embates de Marina com integrantes do governo.
Os dois se reuniram com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. Numa situação desconfortável, Capobianco disse a Dilma que o ministério continua funcionando. Margarido ainda foi ao Ministério do Planejamento para encontro com Paulo Bernardo.
Ao longo do dia, a ex-ministra recebeu aliados, a começar pelo ex-governador do Acre Jorge Viana, que acabava de recusar o convite para ser ministro. Depois, foram deputados e Sibá Machado (PT-AC), que assumiu a vaga no Senado em seu lugar. Segundo parlamentares, Marina elogiou a decisão de Viana de recusar o convite de Lula.
- A ministra aposta que não tenha mudança na política ambiental, que ela seja mantida. Ela ficou feliz com a escolha de Carlos Minc, acha um menino bom. Marina é uma figura muito firme e não tinha a intenção de prejudicar o governo, ninguém. E Viana foi um grande companheiro - disse Sibá Machado.

Marina faz balanço positivo
Apesar de ter perdido várias batalhas no governo, Marina se vangloria de suas conquistas. No balanço, ela aponta a criação de quase 24 milhões de hectares de áreas de conservação federais; a definição de áreas prioritárias para conservação da biodiversidade em todos os biomas; a estruturação do Plano Nacional de Mudanças Climáticas; do novo Programa Nacional de Florestas, entre outros.
Há destaque para a aprovação da Lei de Gestão de Florestas Públicas. Apesar do desmatamento na Amazônia, Marina comemorou o fato de o ministério ter contribuído para a aprovação da Lei da Mata Atlântica e conseguido a edição do decreto que cria instrumentos fortes para o combate ao desmatamento. Lembrou a Resolução do Conselho Monetário Nacional, que vincula o crédito agropecuário à comprovação da regularidade ambiental e fundiária.
Numa carta aos servidores do Ibama, Marina disse que estava "fechando um cicio no qual enfrentamos muitas dificuldades, mas, colhemos resultados gratificantes nesses cinco anos e meio em que estamos juntos". Ela disse ainda que sua gestão foi marcada por "erros, acertos e muito aprendizado".

Saída tem grande repercussão no exterior
Jornais elogiam desempenho de Marina

Importantes jornais estrangeiros repercutiram a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente. Citaram os embates entre a ex-ministra e a bancada ruralista, assim como os dilemas para implantação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Também citaram o prejuízo para a defesa do meio ambiente, em especial da Amazônia. No britânico "The Guardian", a notícia foi a manchete da seção de meio ambiente: "Saudada como uma campeã do movimento verde, mas desprezada por poderosos fazendeiros, pediu demissão ontem, depois de perder batalhas-chave nos esforços para preservar a Amazônia".
0 "New York Times" disse que a ministra é uma "renomada defensora da Amazônia" e chamou atenção para o fato de Marina não ter condenado o presidente Lula em sua carta de demissão. 0 francês "Le Monde" lembrou que a ambientalista foi a mais jovem senadora do país, aos 36 anos. 0 "Washington Post" também noticiou o pedido de demissão.
A agência de notícia Reuters afirmou que "a renúncia de Marina Silva provavelmente reforçará a visão de que o presidente Lula está mais preocupado com desenvolvimento do que com a conservação." Os embates com o PAC e a chefe da Casa Civil, Dileta Rousseff, foram citados pelo argentino Clarín. "Marina, que era uma das pouquíssimas ministras com Lula desde o início do primeiro mandato, entrou em colisão." E citou o PAC, com empreendimentos "que requerem avaliações muito delicadas de impacto ambiental".

Renúncia surpreende equipe na Alemanha
Em Bonn para conferência, funcionários do ministério aguardam novas orientações

Graça Magalhães-Ruether
Correspondente

BERLIM. A renúncia da ministra Marina Silva causou impasse entre os participantes brasileiros da 9 á Conferência dos Estados Signatários da Convenção sobre a Diversidade Biológica, que começará segunda-feira em Bonn. Segundo fonte do Ministério do Meio Ambiente, os brasileiros que estão na Alemanha para a conferência aguardam decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a posse do sucessor, Carlos Minc, para definir os pontos da pauta.
O terna polêmico da conferência é a luta, sobretudo dos países em desenvolvimento, contra a biopirataria. As chances de acordo são pequenas, pela divergência entre os países em desenvolvimento, interessados em tirar proveito do uso dos seus recursos genéticos, e os países industrializados, onde as empresas estão interessadas em continuar usando esses recursos sem pagar por isso.
A polêmica aumentou quando o Brasil suspendeu o fornecimento de recursos genéticos das florestas por tempo indeterminado, até que seja firmado acordo que regulamente o pagamento por seu uso. Multinacionais farmacêuticas, que usam substâncias da Amazônia para a produção de medicamentos, estão pressionando seus governos para que lutem por um acordo.
Outro tema polêmico é a crítica internacional sobre o uso de áreas florestais para o cultivo de plantas para biocombustível.
0 ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Sigmar Gabriel, que no início do mês esteve com Marina Silva em Brasília, espera que se chegue a um consenso.
- Os países em desenvolvimento chamam de biopirataria, com razão, quando países industrializados usam os seus recursos genéticos para a produção de medicamentos, sem pagar um centavo - disse.

O Globo, 15/05/2008, O País, p. 8

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