VOLTAR

Marina deixa PV sem projeto político claro

O Globo, O País, p. 12
08 de Jul de 2011

Marina deixa PV sem projeto político claro
Ex-senadora critica partidos, prega nova forma de fazer política, mas reconhece não ter fórmula para isso

Sérgio Roxo

SÃO PAULO. Em um discurso com críticas ao sistema político brasileiro, a ex-senadora Marina Silva colocou fim ontem a quatro meses de disputas internas e anunciou a sua saída do PV, partido pelo qual disputou a Presidência da República no ano passado e obteve 19,6 milhões de votos. No evento marcado para o anúncio, Marina destacou que as práticas que encontrou no PV são comuns a todos os partidos brasileiros:

- A experiência no PV serviu para sentir até que ponto o sistema político brasileiro está empedernido e sem capacidade de abrir-se para sua própria renovação.

Para ressaltar o caráter democrático do evento organizado por seus seguidores, Marina só falou mais de uma hora e meia depois de chegar. Antes dela, discursaram empresários, como o seu candidato a vice, o sócio da Natura, Guilherme Leal, e religiosos, como a pastora Vanilce Milhones, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo.

- Não é o fim, é o início - afirmou Marina, ao começar sua fala sobre o processo que a levou a deixar o partido.

A ex-senadora disse que pretende liderar um movimento que discuta "uma nova forma de fazer política", mas admitiu não ter uma fórmula para isso. Citou como referência os movimentos de jovens da Espanha, que ocuparam praças para pedir participação na política, e as manifestações pela democracia no Egito.

A ex-senadora, Leal e outros políticos que estão se afastando do PV sentaram-se no meio do público e discursaram a partir dali. A ideia era que o evento marcasse diferença também no formato. Na decoração, em vez das faixas verdes, o turquesa, que simboliza a biosfera. O deputado federal Alfredo Sirkis (RJ) estava presente, mas não vai sair.

Na tentativa de explicar a raiz do movimento, Marina chegou até a criar uma nova palavra:

- Não é hora de ser pragmático, é hora de ser "sonhático" e de agir pelos nossos sonhos - afirmou.

A ex-senadora e seus aliados cobravam a realização de eleições internas na legenda, que tem José Luiz Penna (SP) na presidência há 12 anos.

Mas o principal alvo do discurso de Marina foi o fisiologismo dos partidos.

- A proposta de desenvolvimento sustentável é inseparável de uma política sustentável. Não podemos falar das conquistas de nosso país separando?as da baixa credibilidade do sistema político, dos desvios éticos tornados corriqueiros, da perplexidade da população diante da transformação dos partidos em máquinas obcecadas pelo poder em si - disse a ex-senadora.

Marina fez uma referência indireta ao escândalo do Ministério dos Transportes:

- Não podemos negar a tristeza pelo que está acontecendo na política, no sistema político e nas instituições brasileiras. É só vermos os casos que estão aí falando por si mesmos.

Depois, em entrevista, voltou a citar o caso ao afirmar que espera que a presidente Dilma Rousseff, "mesmo com as dificuldades que tem, consiga resistir a todas as armadilhas do aprisionamento, do fisiologismo que querem impor a qualquer governo que ali chegue".

Garantiu ainda que ajudará Dilma a "ter força" para vetar a reforma do Código Florestal.

Marina tentou convencer os presentes que o movimento que está sendo criado não tem fins eleitorais, apesar de Sirkis ter falado na criação de um partido político após a eleição de 2012.

- Não sou candidata a priori (a presidente em 2014), não vou ficar na cadeira cativa de candidata. Eu não sei. Se não sei, não posso dizer que sou. E se não sei, não posso dizer que não sou.

O PV divulgou uma nota assinada por seu Executiva Nacional em que afirma que a legenda vive a sua primeira grave crise, mas que sairá fortalecida do processo.

O comunicado relembra que o PV aceitou uma série de condições para ter Marina. Cita que a legenda defende a legalização do aborto e do casamento gay, e, para não contrariar a ex-senadora, aprovou a cláusula de consciência que permite a filiados manifestarem, por questões religiosas, discordâncias de itens do programa partidário.

O texto se compromete ainda a atender algumas da reivindicações feitas pelo grupo de Marina, como abertura para novas filiações e a reformulação do estatuto da legenda.

Perguntada sobre o documento do PV, Marina preferiu passar a palavra para Sirkis.

- Não há nenhuma palavra sobre a realização de uma convenção para a escolha de uma nova direção. Considero estarrecedor - disse Sirkis.

Leal diz que nunca mais disputará cargo público

SÃO PAULO. O candidato a vice na chapa de Marina Silva na eleição presidencial do ano passado, o empresário Guilherme Leal, sócio da empresa de cosméticos Natura, disse ontem que nunca mais disputará cargo público. Leal também se desfiliou do PV.
- Não estou mais na linha de frente da política. Quero ajudar a criar novas lideranças. Mas candidatura nunca mais, pode escrever - afirmou Leal, perguntado se havia chance de repetir em 2014 a chapa com Marina.
O empresário doou R$11,9 milhões, ou 49% dos R$24,1 milhões arrecadados pela campanha presidencial verde em 2010.
A participação na eleição do ano passado foi a primeira experiência política de Leal, que fundou a Natura no começo dos anos 80 e, junto com sócios, transformou a empresa numa das maiores do ramo no país.
- Os partidos não evoluíram como as empresas. Com a globalização da economia, as empresas tiveram que passar por processos de modernização, respeitar clientes e colaboradores, acionista minoritários. Parece que os partidos, os políticos não aceitaram passar por esse processo de diálogo mais transparente.
Na mesma linha de Marina, Leal não quis tratar os problemas partidários como exclusividade do PV.
- Não é privilégio brasileiro, nem do PV. O PV não quis se abrir para viver uma transição de modernização.
Ele se diz disposto a apoiar o movimento lançado ontem por Marina, mas afirma que não sabe se ingressará no novo partido que deve surgir depois da eleição de 2012.
- O tempo vai dizer. Acho que continuo agindo muito mais na sociedade civil.

Gabeira fica no partido de olho nas eleições

Ex-deputado do Rio diz que movimento de Marina terá que definir se vai virar uma legenda
SÃO PAULO. Principal liderança do PV no Rio, o ex-deputado federal Fernando Gabeira participou, por videoconferência, do evento de ontem protagonizado por Marina Silva, em São Paulo. Mas o verde, que juntamente com o deputado federal Alfredo Sirkis (RJ) ajudou a fundar o partido em 1986, não deve deixar a legenda:
- O movimento que surge hoje é muito importante porque representa uma resposta a um problema fundamental dos últimos anos, que é o de aproximar a sociedade dos grandes temas, fazer com que exista a possibilidade de participação política para pessoas que querem atuar de uma forma digna e ética - disse ele.
Gabeira, de acordo com o deputado Sirkis, não irá se desfiliar do PV, mesmo estando sem mandato, porque pode disputar as eleições para a prefeitura do Rio e precisa da legenda.
O ex-deputado afirmou que o movimento lançado ontem terá que definir no futuro se dará origem a um novo partido.
- Vamos olhar os partidos com as suas limitações ou vamos tentar criar um novo partido. Acho uma questão fundamental para nós tentarmos definir lá na frente - disse Gabeira, que no ano passado foi candidato a governador do Rio.
Gabeira considera que as legendas atuais estão "desgastadas", mas lembrou que em determinados momentos "é importante atuar nas instituições, resolver as questões no Parlamento". Ele também diz acreditar que os partidos já existentes podem fazer o caminho inverso e aderir aos preceitos do movimento que está sendo criado.
Apesar de não ter anunciado a sua saída, Gabeira encerrou o seu rápido discurso pelo Skype deixando claro a solidariedade a Marina:
- Um grande sucesso, e contem comigo.
Além de Sirkis, apenas mais um integrante da bancada federal do PV compareceu ao evento: o deputado federal Dr. Aluízio, da bancada do Rio. Ele não deve, porém, se afastar da legenda porque também pretende disputar as eleições para a prefeitura de Magé. Dos outros 13 integrantes da bancada verde, 12 vão ficar no partido. Um deles, o deputado federal Guilherme Mussi (SP), já havia anunciado antes do agravamento da crise interna, que iria se transferir para o PSD, o novo partido que está sendo criado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.
Marina disse que o movimento conta com verdes que continuarão no PV de forma crítica.
- Espero que estejamos todos juntos no futuro - disse Marina.

O Globo, 08/07/2011, O País, p. 12

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.