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Mariana teme desemprego após tragédia

OESP, Metrópole, p. A21
31 de Jan de 2016

Mariana teme desemprego após tragédia
Segundo prefeitura, taxa de desocupados cresceu 10 vezes depois de barragem romper; arrecadação foi reduzida pela metade

Gustavo Aguiar - ENVIADO ESPECIAL

MARIANA - O risco de um novo rompimento das barragens da Samarco preocupa os moradores de Mariana e das cidades vizinhas que ainda tentam superar a tragédia de 5 de novembro. O vazamento de quarta-feira confirma que a população continua em alerta. Agora, porém, há um outro medo: a interrupção das atividades de mineração ameaça empregos e a taxa dos que já não têm como trabalhar cresceu dez vezes desde o acidente.
Empreiteiras que prestavam serviços para a Samarco tiveram de demitir funcionários depois do rompimento da Barragem de Fundão. Segundo a prefeitura, hoje são mais de 3 mil pessoas, em uma população de 59 mil, que estão sem ter o que fazer, contra cerca de 300 desempregados antes do acidente. "Precisamos nos tornar menos dependentes da mineração", diz o prefeito Duarte Jr., que tomou posse há sete meses, após a cassação do antecessor.
Ele prevê um ano duro pela frente, com a arrecadação reduzida pela metade, estimada em R$ 15 milhões para 2016. "O jeito é cortar na carne, agora não tem como ajustar a conta sem ter prejuízo para o cidadão."
Canteiro de obras. Enquanto isso, as obras para recuperar as casas não param. Caminhonetes e tratores da Samarco estão por toda parte. Nas barragens, caminhões e mais caminhões entram levando pedras e saem carregados de rejeitos de minério. O acesso é proibido.
Desconfiados, funcionários da mineradora estranham a presença da reportagem e tentam mostrar que estão fazendo o trabalho prometido. "Daqui a pouco eu volto para trazer comida para o seu gado. Hoje eu tive um dia corrido, não deu para trazer ainda, mas não esqueci", avisa o empregado de dentro do carro quando vê um chacareiro conversando com a reportagem.
Segundo o Corpo de Bombeiros, em alguns pontos, só se chega de caminhonete ou trator. Apesar disso, Bento Rodrigues, distrito onde viviam 600 pessoas, já foi liberado porque a lama endureceu. Mesmo assim, quem morou lá e viu a lama assolar o vilarejo não quer mais voltar. "Eu não tenho coragem. Quem viu o que eu vi quer esquecer para sempre daquele lugar", conta Erenice Monteiro, 58 anos, que perdeu uma neta na catástrofe.
As famílias agora vivem em casas alugadas em Mariana e, segundo a Samarco, apenas duas delas optaram por ficar em hotéis da cidade. Em Barra Longa, cidade também atingida pela lama, as máquinas tiveram de quebrar os muros das casas para drenar a camada de quase 2 metros de sujeira que invadiu as casas à beira do Rio Gualaxo.
O trabalho está avançado, mas os moradores ainda não têm previsão para voltar aos imóveis. Depois de quase três meses, a vegetação já começou a crescer. A água do rio tem cor de barro.

Sem casa, sem indenização e trabalhando por dívidas
Martins não revela o nome de quem está ganhando em seu lugar

Gustavo Aguiar - ENVIADO ESPECIAL

MARIANA - Gilberto Martins, de 40 anos, homem do campo, ainda tenta entender como foi passado para trás: já vai para três meses a espera dele pela ajuda de custo garantida aos desabrigados pela lama da Samarco que vazou da barragem em Mariana. Até descobrir que o filho do patrão é quem está recebendo tudo em seu lugar.
O casebre às margens do Rio Gualaxo, onde morava com a mãe, dois irmãos e um tio, foi acachapado pelos rejeitos da mineradora. "Sobrou pouco para ver, foi barro até o teto", conta. O lamaçal chegou à noite sem ninguém esperar, e só deu tempo de levar embora a roupa do corpo e uma bicicleta.
Fugiram todos para a casa do patrão, o dono do terreno, alguns metros morro acima e a salvo do perigo. O filho do patrão reivindicou o benefício para si e não para o funcionário sem-teto que, com a família, foi incluído como dependente. O homem, no entanto, não revela o nome de quem está ganhando em seu lugar. Ainda trabalha para ele na fazenda e, mais do que nunca, precisa do emprego para saldar dívidas e recomeçar onde tudo acabou.

Perdeu tudo em Mariana. E foi morar com o ex
Para mineradora, Ermínia é dependente dele

Depois do tsunami de rejeitos de minério que destruiu Bento Rodrigues, Ermínia Monteiro, de 58 anos, insiste em manter-se alerta. Custa a fechar os olhos para não reviver aquele pesadelo e, quando acorda, já não reconhece mais a própria vida: a tudo estranha na casa alugada pela mineradora Samarco que é obrigada a dividir com o ex-marido, também desabrigado na tragédia, e com quem não vivia há tanto tempo que já nem se lembra mais.
O que Ermínia tinha, a lama engoliu - levou também sua neta mais chegada e outro neto que estava para nascer. Depois do rompimento da barragem, ela se viu sem trabalho e passou do dia para a noite a viver às custas do ex. Além de ter de morar com ele, foi cadastrada como dependente e não como titular para receber o benefício oferecido pela Samarco.
Até reconstruir as casas, a mineradora deve pagar um salário mínimo por trabalhador desabrigado e um adicional de 20% por dependente, mais o valor de uma cesta básica todo mês. A indenização de R$ 20 mil a que ela e o ex-marido têm direito pelos prejuízos com a tragédia, Ermínia também teme que só seja paga a ele. Por ser filho só dela, Mateus, de 17 anos, nem foi considerado nos cálculos da empresa.
O ex, José Emiliano, de 64 anos, nunca tolerou a presença dos 12 filhos do primeiro casamento de Ermínia. Um dia, no Bento, se mudou assim, sem dizer palavra. Não se divorciaram no papel, mas o casamento também não foi mais o mesmo. Cuidam um do outro, é verdade, não brigam, mas não pensam mais em dividir o mesmo teto.
A casa onde eles vivem agora fica em Mariana. Ermínia não quer reclamar, mas admite: está insatisfeita. Não tem teto que caiba aquela família que já havia se acostumado a viver separada. Ela já avisou que vai embora, ali ela não fica, mas sem um tostão, para onde iria? "Ele gosta de viver sozinho. Eu tenho meus filhos e, depois do que a gente passou, não quero viver espalhada deles."
Acha que nunca vai se recuperar da tragédia. "O médico diz que é depressão. Então, acabou", balbucia sem nenhuma esperança. / G.A.

OESP, 31/01/2016, Metrópole, p. A21

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