OESP, Vida, p.A30
17 de Set de 2005
Margem do Rio Solimões revela tesouro indígena
Marcos Coronato
MANACAPURU - Os arqueólogos tiveram de esperar um ano para retornar a um ponto específico da costa do Marrecão, na margem direita do Rio Solimões, mas valeu a pena. As águas estão baixando e já revelaram um sítio no qual se espalham pelo chão fragmentos de cerâmica de 500 a 2 mil anos, vários deles com restos de pintura e diferentes padronagens. "O sítio tem alta relevância. Está num tipo de terreno raro e pode nos contar mais sobre diversas culturas", diz o arqueólogo Eduardo Neves, da Universidade de São Paulo (USP).
O sítio, conhecido como Caetano, fica no município de Manacapuru, a 80 quilômetros de Manaus. Foi descoberto no ano passado por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Antes que pudessem explorar a área, porém, o rio começou a subir. No início deste mês, o sítio ficou exposto novamente. Para desespero dos pesquisadores, o rio levou a camada superficial de terra, deixando os pedaços de cerâmica a céu aberto. "Quando estivemos lá pela primeira vez, um menino disse que eles recuperaram potes intactos, mas que as crianças haviam quebrado, brincando", afirma Carlos Schaefer, da Universidade Federal de Viçosa (MG). "Em teoria, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) poderia proteger o local, mas isso nem sempre funciona", diz arqueólogo Carlos Augusto Silva, da Ufam.
A cerâmica encontrada foi produzida, provavelmente, por duas culturas: a guarita, capaz de trabalhos mais refinados, que se instalou na região há 1.500 anos, e a açutuba, que produzia cerâmica mais primitiva e chegou à Amazônia há cerca de 2.500 anos. Seus vestígios espalham-se por cerca de 90 locais já mapeados entre os Rios Solimões e Negro, numa região apelidada de "Mesopotâmia".
Mesmo que não estivesse a céu aberto, o sítio estaria ameaçado pelo movimento das águas. O que o torna mais raro é justamente a combinação da localização, na beira do rio, e do tipo de solo que o abriga, a chamada terra preta. As manchas de terra preta são pontos de fertilidade em meio aos solos pobres da floresta equatorial. Nasceram a partir do lixo orgânico e dos restos de carvão depositados sempre nos mesmos lugares por gerações e gerações de antigos habitantes da região.
OESP, 17/09/2005, p. A30
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