CB, Cidades, p. 24
06 de Set de 2004
Mãos que criam o futuro
Arte com material reciclado produzida por oito ONGs faz sucesso em shopping da cidade
Marcelo Abreu
Da equipe do Correio
Oito histórias. Oito experiências. Oito formas de reinventar a vida e recriar o futuro. Oito formas de acreditar num amanhã possível. E quando tudo isso se junta, surgem não oito, mas incontáveis provas de que, quando se quer, todas as coisas são possíveis. É assim que começa a fantástica história de oito Organizações Não-Governamentais (ONGs) do Distrito Federal.
Espalhadas pelos quatro cantos - do Plano Piloto a Samambaia -, cada uma desenvolve um tipo de trabalho específico - crianças e adolescentes em situação de risco, moradores e meninos de rua, idosos, meio ambiente...
Há cinco meses, veio a grande sacada. Por que não juntar todos esses trabalhos? Somar forças. Unir, embora com causas e propostas diferentes, os mesmos ideais? Em março deste ano, os produtos das oito ONGs encontraram um só lugar. No Mercado do Futuro - espaço cedido pela administração do Terraço Shopping - estão expostos os mais variados trabalhos feitos voluntariamente por essa gente. Tudo com material reciclado.
O resultado é impressionante. Ao passar por fora, a primeira sensação é que é mais uma loja de shopping center. Como tantas. Como várias. Não é. Lá dentro, no Mercado do Futuro, até a decoração do ambiente foi feita graças ao trabalho voluntário de duas arquitetas da Universidade de Brasília.
E as histórias de pequenas e grandes conquistas anônimas estão impregnadas em cada bolsa feita com fuxicos, nas almofadas, em cada capa de caderno, em cada colar de semente da Amazônia, nos sachês para quartos de bebê, nas botas de borracha reciclada, em cada abajur de sucata. E em cada vida que, sem perceber, também foi reciclada.
Como se não bastassem as centenas de produtos expostos, as ONGs ainda oferecem - todo sábado - oficinas com os mais variados temas. Tudo de graça. Homens, mulheres e até casais aprendem a fazer arte. De enfeite para geladeira a joguinhos de xadrez, bijuterias e tampas decoradas de vidros.
Na loja, a palavra venda é proibida. Ali, cada pessoa que adquire um produto está, na verdade, participando de projeto social. Uma causa maior. É quase impossível entrar no Mercado do Futuro e sair sem levar nada. Todo o dinheiro vai diretamente para as ONGs.
Para o educador Itanor Neves Júnior, de 27 anos, diretor da Amigos do Futuro - ONG que trabalha com conscientização ambiental e que no ano passado atendeu a 4,5 mil crianças no Zoológico -, tudo o que se faz no Mercado do Futuro é criação coletiva. Trabalho organizado e consciente. "A idéia é exatamente essa: criar um espaço de integração e interação entre sociedade civil não-organizada e a organizada." Trocando em miúdos: somar, multiplicar e repartir.
Solidariedade
Sábado, 16h. No andar de cima do Mercado do Futuro, uma moça de Santa Maria ensina mulheres a criar biscuits - objetos de decoração feitos com massa de amido de milho, cola, vaselina e vinagre. Da massa, surgem verdadeiras obras de arte. De repente, um jogo de xadrez, um alfabeto para crianças, tampas decoradas para vidros, enfeites de geladeira.
Maria Vera Lúcia, de 35 anos, mãe de três filhos, casada com um motorista, é a moça que ensina a essas mulheres. Moradora de Santa Maria, ela faz parte da ONG Fuxicando. De voz mansa, ela coloca, literalmente, a mão na massa. Delicadamente, o desarranjo inicial e sem forma do amido de milho vira arte. E as mulheres, tentando fazer o mesmo, descobrem-se artistas. "É maravilhoso passar o que sei pra elas. Quando chego em casa, tenho a sensação de que o dia foi proveitoso. De que fiz alguma coisa que vai ajudar tantas outras pessoas", revela Vera Lúcia.
Entre as aplicadas alunas da professora, encontram-se donas-de-casa, profissionais liberais, aposentadas. Gente do Cruzeiro, Sudoeste, Octogonal. Gente que vem também de muito longe disposta a aprender, durante quatro horas, alguma coisa. A advogada Elaine Castro, de 31 anos, desenvolve trabalhos voluntários com meninos de rua. Sábado, era uma das mais atentas aprendizes da professora Vera Lúcia. "Quero aprender para passar adiante. Isso é transformação", diz a advogada.
0 gosto pelo artesanato levou a estudante Gleice Matias, de 25 anos, a se inscrever na oficina. "Eu não sabia que aqui também se aplicavam cursos. Para mim, era apenas mais um loja", conta. Um dia, Gleice entrou e soube que ali havia mais do que produtos reciclados expostos. Não hesitou em fazer, voluntariamente, parte daquele grupo.
Sentido da vida
Do mesmo encantamento da estudante Gleice e sentindo a possibilidade de multiplicar idéias e conhecimento partilha a psicóloga Ana Karina Dias, de 25 anos. "Atendo crianças e adolescentes carentes. O que aprender aqui vou ensinar para eles. Isso sempre será positivo", acredita.
Cada uma daquelas mulheres estava ali por um motivo. A aposentada Edineusa Maria Souza, de 50 anos, moradora do Cruzeiro, sempre teve facilidade com trabalhos manuais. Sabedora disso, não pensou duas vezes quando descobriu que no Mercado do Futuro havia oficinas semanais sobre diferentes técnicas. "Vou aprender e ajudar quem precisa. É o que importa. 0 sentido da vida, pra mim, é esse", emociona-se.
Ouvindo a aluna falar, a professora voluntária também se emociona. Prefere o silêncio. Timidamente, confecciona mais uma peça. Ensina a quem não sabe. Da massa bruta uma delicada obra. Arte que pode mudar rumos, promover cidadania. E reciclar um monte, uma infinidade de vidas. Mesmo que fosse só uma, já teria valido a pena.
Programe-se
Informações sobre as ONGs, cursos e oficinas podem ser obtidas pelo telefone 361-4322 ou no site www.amigosdofuturo.org.br. Curso do próximo sábado: colares feitos com sementes da Amazônia.
CB, 06/09/2004, Cidades, p. 24
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.