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Mandala faz jorrar agua no sertao da Paraiba

O Globo, O Pais, p.11
14 de Nov de 2004

Mandala faz jorrar água no sertão da Paraíba
Experiência de irrigação alternativa beneficia pelo menos 200 famílias que conseguem colher até morangos
CAJAZEIRAS (PB). O sol continua escaldante e a seca, impiedosa no alto sertão paraibano. Mas a diferença está ali, patente, como que um oásis no deserto: na pequena propriedade de seu José Corrêa, em Cajazeiras, entre pés de cactus e xique-xique, viceja uma horta que até morango tem. A experiência, que embala a esperança de pelo menos mais 200 famílias de sertanejos somente na Paraíba, é resultado de um projeto que dribla a falta de água para dar o que comer à gente carente dos assentamentos da região.
O segredo é simples: um sistema de irrigação alternativo, com mangueiras de construção civil compradas a R$0,50 o metro e hastes de cotonete para regar hortas planejadas sob um conceito bem diferente do tradicional. Verduras, legumes e frutas são plantados em sulcos circulares, rodeando um tanque de água de seis metros de diâmetro em que também são criados peixes e patos. Nas bordas, antes do plantio, galinhas ajudam a revolver a terra. A esse conjunto, dá-se o nome de mandala.
A criação é de uma organização não-governamental, a Agência Mandalla, que conta com a ajuda de multinacionais para difundir o projeto. O conceito fala em desenvolvimento holístico e sistêmico. Mas, na prática, é facilmente entendido. A idéia central é integrar animais, água e plantas. Os dejetos de patos e peixes que se acumulam no tanque, por exemplo, servem de adubo para a plantação.
Sertanejo chamou parentes para ajudar na roça
A produção é toda orgânica. Parte dela serve para alimentar a família. O restante é vendido. Em Cruz do Espírito Santo, a 50 quilômetros de João Pessoa, a mandala que seu José Cardoso começou a preparar há nove meses já multiplicou por cinco a renda mensal da família. Os R$200 que ele ganhava antes plantando alface e pimentão agora passam de R$1 mil. A mulher e os filhos ajudam na lida. O negócio deu tão certo que foi preciso chamar parentes para ajudar.
— Produzo tomate, coentro, jiló, pimentão, agrião, beterraba, rabanete, milho, cebola e mais um monte de coisas — conta José, de 56 anos, com orgulho.

* O repórter Rodrigo Rangel e o fotógrafo Gustavo Miranda viajaram a convite da Bayer S.A.

Acesso a poços e açudes nem sempre é fácil
Famílias assentadas reclamam da falta de apoio das autoridades
CRUZ DO ESPÍRITO SANTO (PB). A água que cai no tanque das mandalas vem de poços ou de açudes próximos. Mas nem sempre o acesso a ela é fácil. Célia da Silva, de 33 anos, assentada há nove, até hoje não conseguiu escavar um poço na área de sete hectares que possui. Mãe de cinco filhos, ela vê a promessa da prefeitura de Cruz do Espírito Santo de ajudá-la quase que tão distante quanto sua participação no programa Bolsa Família, do governo federal, no qual se inscreveu mas até hoje nem sequer recebeu resposta.
— Vamos ver se no ano que vem a gente consegue — diz, esperançosa, enquanto segura no colo a caçula Raquel, de 6 meses, que dorme ignorando o vento forte e o sol.
Basta uma passagem rápida pelos assentamentos para perceber que, quase uma década após receberem do Incra a posse da terra, famílias inteiras ainda lutam com a falta de condições de produção.
— O Incra até hoje não fez nada por nós — reclama o assentado Paulo Alves da Silva.
Projeto já está funcionando em oito estados
O exemplo das mandalas mostra bem que não é preciso muito para solucionar o problema. Com uma área de 2.500 metros quadrados, um quarto de hectare, e R$600 já é possível começar.
— É apenas uma questão de conhecimento. Só precisamos saber aproveitar o que temos — diz Willy Pessoa, coordenador da agência Mandalla, que já desenvolve o projeto em mais oito estados e está em negociação com o governo federal para ampliar a ação.
A dificuldade dos sertanejos com o poder público vai além. No município de Aparecida, o Canal da Redenção, que deveria levar água de um dos maiores açudes do estado até às comunidades, é motivo de discórdia entre o poder público e a população.
Os moradores do assentamento Acauã, ao lado do canal, reclamam que as autoridades estaduais dificultam o acesso à água. Dizem que freqüentemente a polícia é chamada para retirar as mangueiras que mergulham no canal.
— Temos que usar a água ilegalmente — afirma a coordenadora do assentamento, Maria do Socorro Gouveia.
Alunos dispensados por falta de água na escola
O secretário estadual de Agricultura, Francisco Quintans, nega a acusação e garante que o governo só age nos casos quando constata que a água está sendo mal utilizada. O canal passou mais de três meses fechado para limpeza, o que acirrou ainda mais os ânimos. Foi reaberto na sexta-feira. Na semana passada, alunos da única escola de Aparecida foram dispensados porque o fornecimento de água estava suspenso. (Rodrigo Rangel).

O Globo, 14/11/2004, p. 11

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