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Manchineri diz que narcotráfico está avançando nas aldeias, mas condena Plano Colômbia

Folha de S. Paulo-SP
Autor: Eduardo Scolese
25 de jun de 2001

Índio critica intervenção na Amazônia

O índio Sebastião Manchineri, 31, denuncia a penetração do narcotráfico nas tribos indígenas da Amazônia, mas condena o Plano Colômbia (programa de combate ao narcotráfico financiado pelos EUA) e a insistência dos estrangeiros em transformar a floresta em patrimônio internacional.
"O plano é uma imposição, uma farsa", diz Manchineri. Segundo ele, os índios serão os maiores prejudicados pela tensão entre narcoguerrilheiros e soldados norte-americanos e colombianos. O indígena também critica o despreparo do Exército brasileiro.
Manchineri é o primeiro brasileiro a ser eleito presidente da maior organização indígena da América do Sul, a Coica (Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica), que representa quatro milhões de índios. A entidade possui, além de projetos de educação, cultura e saúde, prioridades políticas.
Fundada há 17 anos no Peru, a Coica, hoje com sede em Quito (Equador), agrupa cerca de 400 povos indígenas, espalhados pela Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Na Colômbia, Equador e Venezuela, a Coica já elegeu parlamentares. Ela se mantém por meio de doações de ONGs e divulga sua ações na internet (www.satnet.net/coica).
Manchineri foi coordenador-geral da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) de 1994 a 1996. Eleito por aclamação, no início do mês, na Colômbia, tomará posse no final de julho para um período de quatro anos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Agência Folha - Qual é a relevância de um brasileiro assumir a presidência da Coica?
Sebastião Manchineri - Vai fortalecer o movimento indígena brasileiro no cenário internacional. Poderemos agir com um peso significativo em relação à biodiversidade da floresta amazônica. Vamos lutar para afastar dos indígenas os problemas das drogas e o perigo do Plano Colômbia.
Agência Folha - Como está a relação dos índios com o narcotráfico?
Manchineri - A mão-de-obra dos índios sul-americanos tem sido usada indiscriminadamente pelos narcotraficantes. Isso acontece na maioria dos países cobertos pela Amazônia. Eles são usados em troca de alimentos e benfeitorias. Hoje os índios dependem disso.
Agência Folha - E o consumo dos entorpecentes?
Manchineri - Esse é outro ponto que terei de dar prioridade. A droga está invadindo as tribos. Será um trabalho principalmente de conscientização das lideranças indígenas.
Agência Folha - Porque o sr. considera perigoso o Plano Colômbia?
Manchineri - Além de não resolver o problema do tráfico, esse plano vai deixar milhares de índios literalmente no meio de um fogo cruzado entre guerrilheiros e soldados. Mais uma vez os indígenas serão os mais prejudicados. Eles vivem entre a cruz e a espada.
Agência Folha - Mas o sr. acredita que o Plano Colômbia vai ao menos minimizar o poder do narcotráfico?
Manchineri - O problema do tráfico de drogas não ocorre apenas na Colômbia. O problema não é dos Estados Unidos e muito menos da Colômbia. O fato é que as drogas não são produzidas pelos norte-americanos e por isso eles querem intervir em quem a produz. Se a droga fosse produzida em território americano, ninguém jamais iria tentar uma intervenção. O Plano Colômbia é uma imposição, uma farsa. Tudo para dizer que alguma coisa está sendo feita.
Agência Folha - O que o sr. acha da tese da internacionalização da floresta amazônica?
Manchineri - Os estrangeiros dizem que a Amazônia é um patrimônio da humanidade. Porém a floresta é um patrimônio nosso, dos índios, dos seringueiros e dos ribeirinhos. Eles depredaram o que tinham e agora querem se apropriar do que é nosso.
Agência Folha - O sr. teme uma intervenção internacional?
Manchineri - O Brasil já sofre intervenções há muito tempo. Infelizmente, ao longo dos anos, os nossos governantes não tiveram postura para defender a soberania do país. A floresta amazônica vem sendo internacionalizada desde a constituição de nossa dívida externa. A culpa é de uma política mal concebida. Todos aceitaram a imposição dos países que chamamos de desenvolvidos.
Agência Folha - Como tem sido, na sua opinião, a atuação do Exército Brasileiro na floresta?
Manchineri - O Brasil tem uma quantidade de soldados que poderia ser importante, mas as Forças Armadas mostram que não estão preparadas. Há um nítido despreparo. Quando os integrantes do Exército não abusam de nossas mulheres, eles reprimem os demais índios. A atuação deles deveria ser melhor definida.
Agência Folha - E quanto às explorações das terras indígenas?
Manchineri - Não somos contra a exploração em territórios indígenas, mas a verdade é que 60% de nossas terras estão hoje invadidas por madeireiros, garimpeiros, caçadores e pescadores. O fato é que depois da exploração eles deixam problemas no ambiente, doenças nas tribos, contaminação dos rios. Tiram a riqueza e deixam os problemas. A biodiversidade, inclusive, vem sendo prejudicada pela construção de estradas.
Agência Folha - O que o sr. pretende fazer nos próximos quatro anos sobre os direitos dos índios que vivem na Amazônia?
Manchineri - Temos de definir o que é bom e ruim para os índios. Ou assumimos de vez as ações governamentais e a iminente possibilidade de os índios se tornarem empresários e comerciantes, com total dependência da civilização e os riscos da discriminação, ou fazemos uma força maior para garantir ao nosso povo o direito à cultura e uma vida mais saudável.

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