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Manchas de óleo no Nordeste expõem vulnerabilidade da costa

O Globo, Opinião, p. 2
16 de out de 2019

Manchas de óleo no Nordeste expõem vulnerabilidade da costa
Resposta lenta do governo e falta de coordenação dificultam redução de danos

Faz mais de um mês que manchas de óleo começaram a aparecer em praias do Nordeste - os primeiros indícios surgiram em 2 de setembro, no litoral de Pernambuco, espalhando-se posteriormente por 72 municípios de todos os nove estados da região. Não demorou para que o problema fosse fartamente noticiado pela imprensa.

A despeito disso, o governo federal só despertou para o desastre ambiental um mês depois. Foi no dia 5 de outubro que o Diário Oficial da União publicou decisão do presidente Jair Bolsonaro determinando que Marinha, Polícia Federal, Ibama e ICMBio apurassem as responsabilidades. Intensificou-se o trabalho de limpeza - cerca de 200 toneladas de óleo já foram recolhidas -, surgiram várias hipóteses para o vazamento, mas, passados dez dias da ordem dada por Bolsonaro, não se sabe o que ocorreu, bem como suas causas, e se ainda há risco.

Trata-se de episódio inédito, pela extensão que tomou - 166 áreas afetadas ao longo de 2.200 quilômetros do litoral nordestino. Os prejuízos são incalculáveis, à medida que as manchas atingem piscinas naturais, áreas de manguezais, corais e santuários ecológicos. Sucedem-se imagens de animais cobertos de óleo agonizando nas praias. Na segunda-feira, o governo da Bahia decretou estado de emergência. O de Sergipe já havia feito o mesmo.

Há poucas certezas sobre o desastre. Uma delas é que o óleo encontrado na costa não é produzido ou comercializado no Brasil. Pesquisas feitas por diferentes órgãos apontaram que provavelmente ele é proveniente da Venezuela.

Uma das hipóteses aventadas é que o óleo teria sido descartado por um navio clandestino na área da corrente Sul Equatorial, que o teria levado às praias do Nordeste. Cogita-se também que poderia ter origem numa embarcação alemã que naufragou durante a Segunda Guerra na costa do Nordeste. Ou ainda que o derramamento poderia ter ocorrido durante operação de transferência de óleo de um navio para outro.

Certo mesmo é que a resposta do governo foi demasiadamente lenta, não só para se dar conta da gravidade do fato, como também para adotar, de forma coordenada com os estados, medidas de contenção de danos. Deveria haver protocolos para situações como essa. Se existem, teriam de ser colocados em prática, com a necessária rapidez.

Chama a atenção a vulnerabilidade da costa brasileira, e não apenas do ponto de vista ambiental. Sabe-se que estão sendo analisados mais de mil navios que passaram pelo litoral do Nordeste em agosto e setembro, mas preocupa a demora do governo para desvendar o que aconteceu. Isso põe em xeque os sistemas de vigilância e monitoramento da costa. O óleo derramado pode ser só um detalhe.

O Globo, 16/10/2019, Opinião, p. 2

https://oglobo.globo.com/opiniao/manchas-de-oleo-no-nordeste-expoem-vul…

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