OESP, Metrópole, p. C1-C3
15 de Dez de 2009
Mal ''de enchente'' causa 263 surtos/ano
Eduardo Reina
O número de doenças relacionadas à falta de saneamento básico adequado vem crescendo na Região Metropolitana de São Paulo - o que fica claro quando ocorrem enchentes. Nos bairros periféricos, são registrados surtos de hepatite A e de doenças diarreicas. A contaminação pode acontecer pelo contato com água poluída, com urina, fezes humanas ou de animais, por bactérias ou vírus. Doenças transmitidas por água são responsáveis por mais de 63% das internações pediátricas no Sistema Único de Saúde (SUS) no verão, de acordo com o infectologista Arthur Timerman, do Hospital Albert Einstein e do Instituto Trata Brasil.
Grave exemplo é a situação do Jardim Romano e adjacências, na zona leste, cujos moradores convivem há uma semana com água misturada com esgoto. "É grande o risco de contrair leptospirose, hepatite A, diarreia, febre tifoide. Aquilo tudo é um esgoto a céu aberto. Essas pessoas precisavam tomar vacina contra hepatite, antibiótico contra leptospirose. Mas parece que isso não está acontecendo", alerta Timerman.
O médico ressalta que casos de leptospirose devem começar a aparecer nesta semana, pois o período de incubação da doença é de cinco a sete dias. "Casos de hepatite A começarão a surgir entre duas e quatro semanas."
Só na cidade de São Paulo, de 1o de janeiro até 3 de dezembro, foram notificados 263 surtos de doenças transmitidas por água e alimentos, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. A região sul foi a que mais teve problemas, com 49% dos registros. A região norte obteve 21%; a centro-oeste, 13%; a sudeste, 12%; e a leste, 5%.
O biólogo e professor do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP José Luiz Negrão Mucci diz que há subnotificação para casos de doenças veiculadas por fator hídrico provocadas pela falta de saneamento. "Existem poucos registros dessas doenças porque você vai com diarreia para o médico e o diagnóstico é de verminose. É difícil relacionar doenças diarreicas com água."
No ano passado, foram registrados oito surtos e 30 casos de hepatite A na capital. Neste ano, já são 15 surtos e 59 casos confirmados. Já as doenças diarreicas registradas em todo o Estado passaram de 403 mil em 2004 para 467 mil no ano seguinte e 617 mil em 2007, segundo a Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar da Secretaria de Saúde.
No distrito de Engenheiro Marsilac, na zona sul de São Paulo, as crianças da Creche Dona Alexandrina Vitória da Silva sofrem com surtos de doenças diarreicas e hepatite A por causa da falta de redes de esgoto e de água. Mesmas doenças que infectam alunos da Escola Estadual Professora Regina Miranda Brandt de Carvalho, que fica na frente da creche. Em todo o bairro há cerca de 2 mil pessoas. Casas, comércios e prédios públicos usam fossas para conter os dejetos produzidos.
Sabesp diz que faz seu trabalho
Companhia alega que cria parcerias com prefeituras para ampliar rede
A Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo (Sabesp) alega que desenvolve várias ações com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e com prefeituras. As parcerias são feitas para implementar e regularizar a coleta e o tratamento de esgoto em regiões de fundos de vale e próximas de mananciais, e o objetivo é "preservar os recursos hídricos e melhorar de qualidade de vida da população local".
Em Engenheiro Marsilac, na zona sul de São Paulo, segundo a Sabesp, há um acordo verbal entre a autarquia, moradores e Ministério Público Estadual (MPE) sobre os problemas. Uma ação civil pública foi aberta em 2006. Estabeleceu-se prazo para que fosse elaborado um projeto de construção de fossas sépticas no local, que já está esgotado, segundo o MPE. A Sabesp informou que por se tratar de uma área de preservação ambiental é vetada a implementação de rede de água e esgoto e optou-se pelas fossas sépticas em cada unidade residencial.
Segundo o MPE, a Sabesp pediu prorrogação do prazo definido no acordo e a ampliação da data foi concedida. "O projeto (das fossas sépticas) está pronto e vai ser entregue ainda neste mês. As fossas sépticas devem ser construídas e operadas pelos moradores, conforme orientações técnicas da Cetesb. A Sabesp, portanto, não tem qualquer envolvimento e/ou responsabilidade com eventuais problemas nesse tipo de sistema particular", diz nota da Assessoria de Imprensa da companhia.
A Secretaria Estadual de Educação informou que a escola Regina Miranda Brandt de Carvalho tem dois conjuntos de fossas sépticas e sumidouro para captar o esgoto. "Os efluentes são retirados por caminhão duas vezes por semana, em média, e encaminhados para estação de tratamento da Sabesp. Somente neste ano a limpeza e o encaminhamento foram realizados 225 vezes", diz a Assessoria de Imprensa da pasta.
"A fossa da escola sempre vaza. O esgoto escorre por todo o bairro", reclama Maria Lucia Cirillo, comerciante e presidente da Associação Comunitária de Marsilac. A escola, com cerca de mil alunos, fica na parte alta do bairro. É só chover para a sujeira descer, reclamam moradores. Aliás, os dois filhos de Maria Lucia já se contaminaram. Allan, de 22 anos, já contraiu hepatite A, verminoses, micoses, diarreias e até malária. "Em casa usamos água mineral para cozinhar e beber. Mas meus filhos costumavam nadar no Córrego Ribeirão Claro, nos fundos da casa, que está contaminado", conta a mãe.
Os moradores de Marsilac abastecem suas caixas d"água com água bombeada de poço perfurado em 2005 na Rua Ana Rosa. A outra opção é a chuva. "A bica abastece dez famílias", diz a comerciante. "Quando tem cloro no posto de saúde, a gente coloca na água", afirma a dona de casa Alessandra Vieira Nobre Silva Rodrigues. Seu filho mais velho, de 5 anos, já teve diversas viroses.
Neste ano já foram notificados 15 surtos de hepatite A na cidade - 53,3% ligados a escolas e creches, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. A creche de Marsilac, diz a secretaria, tem condições satisfatórias de higiene e a água tem padrão de potabilidade, não sendo encontrada fossa aberta. Para a unidade de saúde de Marsilac, as crianças infectadas moram em local sem infraestrutura e utilizam água de poço nas suas casas. Eduardo Reina
OESP, 15/12/2009, Metrópole, p. C1-C3
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