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Mais um palanque para Dilma

O Globo, O País, p. 3
12 de Nov de 2009

Mais um palanque para Dilma
Ministra-candidata participará hoje, com Lula, de anúncio de redução do desmatamento

Catarina Alencastro e Evandro Éboli
Brasília

O governo fará hoje uma grande festa para anunciar o menor desmatamento da Amazônia desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) lançou o sistema Prodes de monitoramento por satélite, há 21 anos. Para divulgar a boa notícia estarão lado a lado o presidente Lula e a pré-candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil. Embora não seja a primeira vez que a ministra participa de um anúncio sobre dados do desmatamento, o evento de hoje reforça a estratégia do governo de aproximála da pauta ambiental do país.

A ex-ministra Marina Silva também é pré-candidata à sucessão presidencial. Em 2007, ao lado de Marina, que ainda comandava o Ministério do Meio Ambiente, Dilma participou do anúncio oficial de que a destruição da floresta tinha caído 25,3%, no período entre agosto de 2005 e julho de 2006.

A pedido do Ministério da Ciência e Tecnologia, ao qual o Inpe é vinculado, os dados do desmatamento foram apressados para que o país leve essa carta na manga a Copenhague, onde haverá reunião de cúpula para discutir ações contra o aquecimento do planeta. O que será apresentado hoje é uma estimativa dos dados de 2009. Os números consolidados só ficarão prontos no início do ano que vem.

- Na véspera de Copenhague, esse dado do desmatamento vai mostrar que estamos fazendo o dever de casa - adiantou o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.
Menos 2.900 km² desmatados no ano

Normalmente, caberia ao próprio Minc o anúncio desses dados. Ele estará presente na solenidade. Diz não ver nada estranho no fato de o evento de hoje estar cercado de autoridades que nem sempre se envolveram com o tema meio ambiente. A justificativa oficial para que a divulgação de hoje fuja da normalidade é que ela vai coincidir com o primeiro balanço do programa Arco Verde Terra Legal, que tem ações nos 43 municípios que mais desmatam.

O desmatamento esperado para o período de agosto de 2008 a julho deste ano é de menos de 9.000 quilômetros quadrados. A destruição registrada no período anterior - de agosto de 2007 a julho de 2008 - foi de 11.900 quilômetros quadrados. Dilma quer anunciar, portanto, que o governo conseguiu evitar a devastação de 2.900 quilômetros quadrados, na comparação com o período anterior.

Para cumprir a principal meta que o país deve levar à Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas, no mês que vem - a de reduzir o desmatamento da Amazônia em 80% - o país terá que chegar em 2020 desmatando 5.160 quilômetros quadrados por ano. Este número deverá ser a média de desmatamento entre os anos 2016 e 2020. No período anterior - de 2011 a 2015 -, a média de desmatamento deverá estar em torno de 7.800 quilômetros quadrados, segundo as projeções do go
Investimento maior no arco verde
Para Minc, o desenvolvimento sustentável da região amazônica é o principal desafio a ser vencido na região. Segundo ele, o Brasil só conseguirá atingir a meta de redução do desmatamento com a qual se comprometerá em Copenhague se essa questão for resolvida.

- Para conseguir essa meta (redução de 80% do desmatamento até 2020), o investimento maior terá que ser no arco verde, que é o que vai dar sustentação para que essa população se desenvolva sem destruir a Amazônia - disse.

Além de Lula, Dilma e Minc, os governadores de Pará, Mato Grosso e Rondônia deverão estar presentes na festa de hoje. Prefeitos das 43 cidades alvo do programa também são esperados. Essas cidades concentram mais da metade do desmatamento ocorrido no ano passado.

Lançado em junho deste ano, o mutirão envolve três ministérios - Desenvolvimento Agrário, Meio Ambiente e Casa Civil - e foi pensado para levar alternativas sustentáveis para áreas que só conhecem a economia da devastação. O principal eixo do programa é a regularização fundiária.

A expectativa do governo era beneficiar cerca de 300 mil posseiros que ocupam terras federais, uma área que abrange 67,4 milhões de hectares.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, três caravanas do Mutirão Arco Verde Terra Legal percorreram mais de 20 mil quilômetros e mobilizaram 300 agentes de União, estados e municípios. Estima-se que mais de 150 mil atendimentos foram feitos até agora, grande parte deles na área de registro civil, dando certidões de nascimento e carteiras de identidade para os cidadãos que ainda não tinham os documentos.

'É pura exploração política'
Para ambientalistas, governo tenta equiparar Dilma a Marina Silva

Representantes de organizações não governamentais da área ambiental classificaram como exploração política a estrutura montada pelo governo para anunciar hoje o menor desmatamento da Amazônia registrado nas últimas décadas. As presenças do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, no evento, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde funciona provisoriamente a sede da Presidência, estão sendo entendidas como uma jogada de campanha eleitoral para 2010.

No entendimento do coordenador de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Osvaldo Stella Martins, é evidente o uso político no evento. Para ele, o objetivo é dar uma "roupagem ambiental" a Dilma Rousseff e confrontá-la com a ex-ministra Marina Silva (PV-AC), possível candidata à Presidência, que tem como principal bandeira o meio ambiente.

- É claro que se trata de pura exploração política.

O governo está investindo para dar um ar ambiental à Dilma num cenário político que tem, do outro lado, alguém com histórico nessa área, no caso a Marina Silva - disse Osvaldo Martins.

Para o ex-deputado federal pelo PSDB e ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo Fábio Feldmann, é bom comemorar qualquer queda do desmatamento, mas ele considera que a taxa continua muito alta. Se Dilma vai aparecer hoje anunciando números positivos, deve divulgar também quando o resultado for negativo, afirma.

- Do mesmo jeito que ela aparece quando cai o desmatamento, tem que ver se vai ser ela a apresentar o dado quando o desmatamento crescer - acrescentou Feldmann.

Um dos coordenadores do Greenpeace, Paulo Adário lembrou que não é a primeira vez que Lula anunciará dados do desmatamento, o que ocorreu também em 2006, ano em que o petista foi reeleito. Para Adário, o presidente agora está num processo de "politização" da questão ambiental.

- Essa politização não é ruim. Dá importância e ênfase à questão do desmatamento. Seja o Lula, a Dilma ou o Papa, é bom para a causa. Lula, agora, vai colocar a sua estrela (Dilma) nesse jogo - afirmou o ambientalista.

Osvaldo Martins associou a imagem de Dilma à do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): - A Dilma é a mãe do PAC. E o PAC é o grande inimigo da Floresta Amazônica. Vai ser balela eleitoral - disse ele.

Mesmo com a redução que será anunciada hoje, Paulo Adário avalia que a taxa de desmatamento no Brasil ainda é alta, mas elogiou a atuação das entidades não governamentais.

- Estamos ainda longe de um bom número. A boa notícia é que a sociedade está aprendendo a manter o governo sob pressão. E o governo está reagindo.

Os embates da 'mãe' do PAC

A ministra Dilma Rousseff travou longos embates no governo com a então ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, por causa de questões ambientais. O principal deles foi em torno da construção das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira. Depois de atrasar muito, o Ibama deu a concessão para a realização da obra, mas fazendo várias exigências aos futuros empreendedores, como a preservação de espécies de peixes, além do controle de sedimentos e dos níveis de mercúrio na água. Dilma era a principal crítica do atraso e acabou ganhando a queda de braço com Marina, que deixou o ministério em 2008. A "mãe" do PAC pressionava o Meio Ambiente também para a liberação de obras do programa, como a construção de rodovias.

Após deixar o governo, Marina lamentou que tenha ficado conhecida como a "ministra dos bagres", pela defesa que fez dos peixes do Rio Madeira.

A ex-petista, que agora é pré-candidata do PV à Presidência e promete tentar colocar o meio ambiente no centro do debate, em crítica supostamente endereçada a Dilma, disse que é um falso dilema as questões envolvendo o meio ambiente e o desenvolvimento.

"Eu trato como falso dilema porque se continuarmos com essa visão de opor desenvolvimento à conservação não chegaremos a lugar algum já que não haverá lugar para chegar". Após o anúncio da pré-candidatura de Marina, Dilma tem feito discursos defendendo o meio ambiente e demonstrando preocupação com o tema.

O Globo, 12/11/2009, O País, p. 3

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