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Mais risco sem o verde

O Globo, Razão Social, p. 10-11
18 de Mai de 2010

Mais risco sem o verde
Pesquisa aponta que a expansão sobre a cobertura vegetal tornou o Rio de Janeiro mais vulnerável às alterações do clima

Martha Neiva Moreira
martha.moreira@oglobo.com.br

O modelo de expansão urbana no Rio de Janeiro é apontado como um fator responsável pela vulnerabilidade da cidade às mudanças climáticas. Pesquisadores do Núcleo de Estudo da População (Nepo), da Unicamp, e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) cruzaram dados demográficos e de topografia da prefeitura com imagens de satélite para analisar como a mancha urbana se expandiu no estado entre 2001 e 2009. A conclusão é que o processo se deu de forma desordenada, tanto nas regiões centrais como na região metropolitana, e sem respeitar os ecossistemas naturais, ou seja, as áreas verdes. Consequência direta: a impermeabilização do solo e as enchentes.

Andrea F. Young, do Nepo, explica que no período analisado houve vários processos de ocupação de encostas e áreas de baixadas - próximas a manguezais e restingas - que não consideraram a dinâmica natural desses locais, como regiões do entorno da Baia de Guanabara, por exemplo, onde hoje vivem 7,3 milhões de pessoas:
- A cidade cresce sobre os ecossistemas sem respeitar o seu funcionamento e a sua importância para o equilíbrio do ciclo hidrológico da cidade - disse a pesquisadora, que apresentou os dados preliminares da pesquisa durante o Ciclo de Encontros sobre Sustentabilidade e Gestão Responsável promovido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o desenvolvimento Sustentável (Cebds) no início deste mês, no Rio.

Este padrão de crescimento, associado aos fatores climáticos que mais afetarão a cidade nos próximos anos - aumento de temperatura, nível do mar e frequência de chuvas - pode resultar em enchentes e riscos de deslizamentos cada vez mais frequentes.

Além disso, segundo o estudo chamado "Vulnerabilidade de megacidades brasileiras às mudanças climáticas", se adaptações não forem feitas, há também riscos para o abastecimento de água - a tubulação fica sobrecarregada, com risco de romper em dias com chuvas mais intensas - e para o sistema viário, por conta das inundações das vias.

Entre as áreas apontadas como de maior risco estão justamente aquelas próximas a cursos d´ água, que sem a cobertura verde ficam mais suscetíveis à inundação. Além das áreas próximas à Baía de Guanabara, o estudo aponta a região da Baía de Sepetiba, onde a ocupação se intensificou por conta da construção do porto. As vias próximas à Lagoa Rodrigo de Freitas também são apontadas como de risco.

- A preservação da vegetação de mangue que ainda há por ali é imprescindível, pois contribui para a circulação da água na região - disse Young.
A pesquisa aponta riscos de enchentes nas áreas da baixada de Jacarepaguá, onde houve uma ocupação intensa e a cobertura verde foi substituída pelo cimento das casas - um exemplo é a a comunidade de Rio das Pedras, onde em 1984 moravam apenas 20 famílias e hoje já tem 40 mil habitantes.
Regiões da Baixada Fluminense e áreas de encosta também são apontadas no estudo como de risco, principalmente de deslizamentos em função da degradação da vegetação.
A importância da cobertura vegetal das cidades, segundo Andrea Young, não pode ser desprezada, pois o verde torna o solo permeável à água. Quando se substitui por cimento não há possibilidade de a água ser absorvida, daí o risco de enchentes e deslizamentos.

- Não se pode desprezar ainda os riscos à saúde da população, que fica suscetível a doenças como leptospirose - disse
O evento no Cebds se propôs a discutir soluções para a cidade e reuniu empresários, ambientalistas e representantes do poder público. Na mesa de debates pela manhã, o economista Sergio Besserman, que atualmente está na coordenação da comissão de sustentabilidade da Prefeitura do Rio de Janeiro, lembrou que hoje há duas populações submetidas a uma taxa alta de risco por conta das mudanças climáticas: os pobres e os empresários.

- Empresas irão nascer e morrer aos borbotões porque viveremos uma transição econômica muito severa.

Precisamos que todos cobrem políticas de adaptação, tanto no plano municipal como no estadual e federal disse Besserman.
Embora as adaptações para enfrentar as consequências das mudanças climáticas sejam urgentes e necessárias, a atuação dos governos locais no Brasil ainda deixa a desejar na opinião de Laura Valente de Macedo, diretora Regional para a América Latina e Caribe do Iclei (Governos Locais pela Sustentabilidade), outra das palestrantes do encontro:
- A situação de degradação nas cidades é grande e acho que os governos não têm condições de fazer frente a tudo que deve ser feito sozinho - falou a diretora.
Essa constatação ficou patente entre os palestrantes, que deixaram claro que, se os desafios são grandes, as oportunidades de negócios para as empresas também são.

- Existe uma corrida entre os países para liderar a economia de baixo carbono. Os países líderes deste processo já perceberam que o mundo será diferente - comentou Bjorn Stigson, presidente do WBCSD (Programa Internacional sobre Adaptação e Negócios), na palestra "Além de Copenhagen a corrida verde", que tratou das oportunidades que as empresas terão para construir a infraestrutura e desenvolver soluções tecnológicas para esta transformação.

Na parte da tarde, o encontro se transformou na primeira Jornada de Construção Sustentável, discutindo as oportunidades do setor para a Copa e as Olimpíadas. Por conta dos dois eventos, a cidade vai se tornar um canteiro de obras. Por um lado é bom, para aumentar ofertas de emprego. Por outro, há impactos no meio ambiente, já que ,ais construções significam menos áreas verdes e mais degradação. Além disso, as construções precisam de cimento, e fazer cimento é muito poluente. Representando o Cebds e a Holcim, empresa do setor de cimentos, Carlos Eduardo de Almeida apontou algumas alternativas. Entre elas, tornar uma exigência o fato de os edifícios serem ecoeficientes.

Para Maria Salette Weber, representante do Ministério das Cidades que também esteve no seminário, a questão da sustentabilidade, que historicamente não era preocupação do ministério, passou a ser. Por isso todos os investimentos feitos para estes dois eventos em especial, segundo ela, estão focando a perenidade.

- O conceito de sustentabilidade passou a ser incorporado nas ações do Ministério. Temos no país 85% da população vivendo hoje na área urbana.

Por isso os projetos devem focar a perenidade. Os investimentos que faremos por exemplo na área de transporte e mobilidade, visando aos dois eventos, farão parte de uma política permanente do Ministério - informou.

Os representantes das secretarias municipal e estadual de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Altamirando Morais e Marcia Valle Real, respectivamente, destacaram em suas falas o esforço dos governos em tornar a cidade mais verde. A prefeitura já tem planejado o plantio de quatro milhões de mudas e o estado se comprometeu, até 2016, a plantar 27 milhões, ou uma área que equivale a 600 maracanãs.
Cebds www.cebds.org.br

O Globo, 18/05/2010, Razão Social, p. 10-11

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