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Mais poluição no Paraíba do Sul

O Globo, Rio, p. 16
28 de Nov de 2010

Mais poluição no Paraíba do Sul
Vazamento de 2 milhões de resíduos da CSN ameaça abastecimento de água no Rio

Flávia Milhorance, Paulo Roberto
Araújo e Dicler de Mello e Souza

Um vazamento de dois milhões de litros de resíduos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) atingiu ontem o Rio Paraíba do Sul, de onde é captada a água para a Estação de Tratamento de Água do Guandu, que abastece toda cidade do Rio e a Baixada Fluminense. O despejo de minério de ferro e carvão ocorreu por volta das 8h40m de ontem e durou cerca de três horas, até que fosse contido pela empresa.
Por causa do acidente, a Cedae informou que pode ter que desligar o a estação do Guandu, o que provocaria reflexos no fornecimento de água.
O vazamento aconteceu por causa de uma fissura no tanque de decantação da Estação de Tratamento de Efluentes do Alto Forno 2 da companhia, localizada em Volta Redonda, no Sul Fluminense.
Mas a CSN ainda está investigando o motivo da rachadura.
A secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, informou que o governador Sérgio Cabral autorizou que o órgão promova uma intervenção na companhia.
- Isto significa que haverá técnicos nossos 24 horas por dia monitorando todas as ações da companhia - explica Marilene Ramos, garantindo que a medida começou a ser implementada ainda na tarde de ontem.
De acordo com a secretária do Ambiente, a CSN será multada. O valor deve chegar a R$ 50 milhões, maior sanção ambiental prevista em lei.
- A empresa deve responder pelos recorrentes crimes ambientais que vem praticando nos últimos dois anos. Neste período a secretaria já registrou pelo menos três acidentes de grande porte contra o meio ambiente - afirma Marilene.
CSN terá de investir R$ 216 milhões
Além da multa e da intervenção, a empresa ainda terá que investir R$ 216 milhões em pelo menos 90 ações como forma de garantir a renovação da licença de operação. A norma foi definida após a assinatura, no último mês de outubro, pela CSN, de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).
- Obrigamos a empresa assinar o TAC, depois de uma auditoria realizada no ano passado por causa outro um vazamento de material oleoso no Paraíba do Sul - afirma a secretária.
A Cedae interrompeu ontem às 23h a transposição da água do Rio Paraíba do Sul, que é realizada pela barragem e usina elevatória Santa Cecília, administrada pela Light. A elevatória é responsável pela transferência de água à Estação de Tratamento do Guandu, que também corre o risco de ser desligada para evitar a contaminação da água por resíduos.
- Durante o desligamento vamos monitorar a dispersão da mancha. Caso ela não se dilua, haverá a necessidade de interromper o fornecimento do Guandu.
Por isso, a falta d'água ainda não é uma realidade, mas uma possibilidade - afirma o presidente da Cedae, Wagner Victer, que também critica a sequência de despejos feitos pela companhia. - O grande absurdo é que não é a primeira vez que a CSN faz isso.
De acordo com o presidente da Cedae, os reservatórios naturais de Vigário e da Ponte Coberta, que fazem parte do Sistema Guandu, têm a capacidade de suprir o abastecimentos de água do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense por aproximadamente dez horas.
- Como choveu muito nos últimos dias, temos uma capacidade de armazenamento ampla, e este fato também vai colaborar para a dispersão da mancha. Mas ainda assim pedimos que a população economize água - afirma Wagner Victer.
O presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Luiz Firmino, sobrevoou, na tarde de ontem, a região afetada. Ele informou que uma mancha acinzentada se espalhou, ultrapassando um quilômetro de extensão. A atividade das estações de tratamento de Pinheiral e de Vargem Alegre, ambos distritos de Volta Redonda, foi interrompida. O mesmo ocorreu na estação de Barra do Piraí, no município de mesmo nome do Sul Fluminense.
- Os distritos de Volta Redonda terão o abastecimento de água prejudicado - informa Luiz Firmino, explicando que técnicos do Inea farão análise dos resíduos. - A princípio, constatamos que se trata de material com toxidez pequena. Os resíduos são sólidos e formaram uma cortina pesada, que vai afundar durante o trajeto no Rio Paraíba do Sul. O laudo definitivo, no entanto, será divulgado nos próximos dias.
CSN comunicou vazamento ao Inea
O superintendente regional do Inea do Sul Fluminense, Miguel Arcanjo, dá uma dimensão do tamanho do vazamento:
- O tanque que rompeu é quase do tamanho de uma quadra de futebol de salão, com aproximadamente três metros de altura - diz ele, informando a providência tomada pela CSN. - A empresa conseguiu conter o vazamento por volta das 11h40m e convocou a equipe de engenharia para concretar o local.
Por meio da assessoria de imprensa, a Companhia Siderúrgica Nacional disse que tão logo o vazamento foi constatado, houve um comunicado aos técnicos do Inea, que chegaram com rapidez ao local.
Apesar dos recorrentes incidentes provocados pela companhia, a Secretaria Estadual do Ambiente ainda não cogita cassar a licença da empresa, que emprega cerca de 15 mil funcionários.

Empresa já foi multada antes

Em agosto do ano passado, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) também foi responsabilizada por outro vazamento de produto químico, que causou poluição no Rio Paraíba do Sul, na altura de Volta Redonda. Uma equipe de técnicos do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), órgão da Secretaria estadual do Ambiente, esteve, à época, no município, por causa de vazamento de óleo carboquímico. Moradores de vários bairros da cidade, ao verem a mancha esbranquiçada nas águas e sentirem o cheiro forte, entraram em contato com o Inea regional.
As autoridades do Inea chegaram a suspender temporariamente, na época, as atividades da CSN, enquanto não ela conseguisse conter o vazamento.
De acordo com a empresa, o derramamento havia sido provocado por uma rachadura na válvula de um tanque, com capacidade para 40 mil litros de óleo.
Foram feitas coletas no interior da Usina Presidente Vargas, em Volta Redonda, na estação de tratamento de água de Vargem Alegre e na Elevatória de Santa Cecília, em Barra do Piraí.
Diante do quadro de poluição, o Conselho do Inea decidiu multar a CSN em R$ 5 milhões. Isso porque, na semana anterior, a empresa já tinha sido responsável pela vazamento de outra quantidade de óleo com a presença de substâncias cancerígenas. O Inea também decidiu aplicar multas diárias de R$ 50 mil enquanto o problema não fosse solucionado.
Em outubro passado, a CSN assinou, com o governo do Estado do Rio de Janeiro, um termo de ajustamento de conduta (TAC), no qual se comprometia a investir R$ 216 milhões para modernizar suas instalações e evitar novos acidentes ambientais em Volta Redonda. O acordo seria assinado em setembro, mas o Ministério Público teve de fazer algumas adequações técnicas.
Pelo TAC acordado, a CSN terá de investir R$ 16 milhões em compensações ambientais e R$ 200 milhões em 90 ações na área da usina, condição para obter a renovação das licenças ambientais, que estão vencidas há dois anos, segundo a Secretaria de Meio Ambiente. O cronograma de execução deverá ser concluído em três anos. Uma das exigências é que a CSN instale, em no máximo três meses, um sistema de monitoramento de emissão de gases, que ficará disponível na internet. Isso permitirá ao Inea acompanhar em tempo real os poluentes despejados no ar. Outra ação é a instalação de sistema de monitoramento semelhante para efluentes líquidos, pelo qual será possível monitorar em tempo real a qualidade da água.

O Globo, 28/11/2010, Rio, p. 16

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