JB, Pais, p.A5
23 de Mar de 2004
Mais de 100 milhões sem rede de esgoto
Atlas de Saneamento do IBGE mostra que mesmo bairros elegantes das grandes cidades vivem situação precária
Israel Tabak
É recorrente dizer que no Brasil os políticos preferem as obras grandiosas e aparentes, em lugar de outras, prioritárias. Isso nunca esteve tão bem expresso como nos números revelados pelo Atlas de Saneamento, lançado ontem pelo IBGE. Chega a 102 milhões de pessoas, cerca de 60% da população, a parcela de brasileiros que não têm acesso a redes de esgotos.
E essa carência não se estende apenas aos bairros pobres e periferias das capitais e à maior parte do interior do país. Em bairros chiques do Rio, como o Recreio dos Bandeirantes ou o Joá, onde se erguem mansões luxuosas, a rede de esgotos simplesmente não existe, ou serve a uma ínfima minoria da população.
De 1989 a 2000, não houve mudança significativa. Dos 4.425 municípios existentes em 1989, 47% tinham algum tipo de rede de coleta. Onze anos depois, a percentagem subiu apenas um pouco: foi para 53%.
Os números do esgoto mostram situações extremas. Na Região Norte, a quase totalidade (97,2%) dos moradores não é atendida. Dos Estados, Tocantins é que tem o pior serviço: quase ninguém, ou melhor, 98.7% dos habitantes não são ligados à rede. Das regiões, o Sudeste é que tem a melhor abrangência: 73.6% da população contam com rede coletora.
A Região Sul, uma das mais desenvolvidas do país, apresenta um índice ruim (só 26% da população atendidos), apesar de as principais cidades apresentarem uma rede geral. A explicação dos técnicos é que há um grande número de pequenos municípios nos Estados da Região, onde o uso de fossas sépticas é muito difundido.
A situação do abastecimento de água é bem melhor: a grande maioria dos brasileiros (76,1%) está ligada às redes de distribuição. Mas chamam a atenção, também, os números do desperdício, sobretudo numa época em que o recurso começa a escassear: os vazamentos e ligações clandestinas fazem com que sejam perdidos 40% da água distribuída.
Apesar dos números totais do abastecimento de água mostrarem progresso, há uma uma outra percentagem preocupante: aumentou muito o volume de água encanada sem tratamento nenhum. Em 1989, esse item representava 3,9% do total. Em 2000, já correspondia a 7,2%. Um panorama comum em cidades do interior do Nordeste, por exemplo.
O diretor de Geociências do IBGE, Guido Gelli, afirma que as desigualdades e os paradoxos do saneamento são reflexo, em parte, das disparidades sociais sociais do país.
Assim como a rede de água, a coleta de lixo tem apresentado melhoras nos últimos anos e é feita regularmente na maioria dos municípios. Além disso, a coleta urbana também significa uma crescente fonte de geração de empregos. Em 2000, 317 mil pessoas trabalhavam em serviços das prefeituras ou terceirizados.
Uma das principais novidades do Atlas de Saneamento do IBGE é a abordagem de temas de saneamento a partir das grandes bacias hidrográficas.
A perspectiva de diminuição constante da água aproveitável dessas bacias é um dado que preocupa, a partir das informações do atlas. Uma das principais fontes poluidores da bacia do Paraíba do Sul, ao lado dos despejos industriais é, justamente, a descarga de esgotos sem tratamento.
O esgoto sanitário polui igualmente outras bacias, mas a poluição das águas está relacionada às atividades econômicas predominantes em cada região. É o caso, por exemplo, da bacia amazônica, onde a mineração é uma das maiores fontes de poluição.
JB, 23/03/2004, p A5
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