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Mais da metade da madeira extraída da Amazônia é desperdiçada

OESP, Vida, p. A28
04 de Fev de 2006

Mais da metade da madeira extraída da Amazônia é desperdiçada
Corte e processamento inadequados transformam árvores em resíduos que nunca chegam ao mercado

Herton Escobar

Em mais um exemplo de descaso com a Amazônia, estudos mostram que mais da metade da madeira retirada ilegalmente da região não é aproveitada pela indústria. A exemplo do que ocorre no tráfico de animais silvestres, em que a maioria dos bichos morre antes de chegar ao consumidor, a maior parte das árvores derrubadas na floresta não "sobrevive" até ao mercado.
Segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o índice de aproveitamento da indústria é de 42%. O que significa que 58% da madeira cortada é desperdiçada - transformada em serragem ou em pedaços que são pequenos demais para o mercado. Em 2004, segundo o Imazon, 24,5 milhões de metros cúbicos de madeira entraram nas serrarias da Amazônia Legal, mas apenas 10,4 milhões de metros cúbicos chegaram ao comércio.
"A diferença é o que virou pó ou carvão", diz o pesquisador Adalberto Veríssimo. "E tem uma parte que vira entulho mesmo, porque ninguém quer." O problema, segundo ele, deve-se à falta de planejamento e de treinamento dos laminadores (aqueles que cortam a madeira), associada ao uso de equipamentos ultrapassados e infra-estrutura deficiente. Sem instalações adequadas, a madeira é muitas vezes largada a céu aberto, exposta ao sol, à chuva e aos insetos.
"O resultado é que de cada dez árvores derrubadas na Amazônia, só quatro chegam ao mercado", diz Paulo Adário, coordenador da campanha do Greenpeace na Amazônia. "É uma indústria que só sobrevive porque é ilegal, porque o sujeito não plantou a floresta nem investiu nada nela para tirar a madeira."
Fora das serrarias, o desperdício na mata também é grande. Seja por falta de treinamento ou por pura pressa (já que o pagamento é feito por árvore derrubada), muitos "motosserristas" cortam as árvores de maneira errada, deixando tocos muito grandes no solo ou causando rachaduras no tronco, que inviabilizam o aproveitamento da madeira.
Além disso, há árvores que são simplesmente esquecidas ou perdidas no meio da floresta. "Quem derruba não é o mesmo que arrasta, e as equipes não trabalham simultaneamente", explica Veríssimo. Conseqüentemente, entre a saída de um e entrada de outro, algumas toras nunca são encontradas.
A redução do desperdício, segundo os cientistas, é essencial para reduzir a demanda por matéria prima e, conseqüentemente, a pressão sobre a floresta. Em 1998, o aproveitamento do setor era de 38%. A elevação desse índice para 42% significa que 950 mil árvores deixaram de ser derrubadas em 2004. "Se o rendimento subisse para 45%, poderíamos poupar outras 400 mil árvores por ano", diz Veríssimo.
Efeito colateral
Pode-se considerar também as outras 27 árvores com mais de 10 centímetros de diâmetro que são danificadas no processo de derrubada das árvores maiores. O dado refere-se ao corte seletivo predatório, em que os madeireiros retiram apenas as árvores de maior valor comercial - e não ao desmatamento propriamente dito, em que a floresta é devastada e queimada para abertura de campos e pastagens.
"Em média, para cada 1 m3 derrubado, você danifica outros 2 m3", afirma Veríssimo. Por essa conta, para abastecer as serrarias com 24,5 milhões de m3 de madeira em 2004 foram danificados outros 49 milhões de m3 na floresta.Em uma exploração madeireira com plano de manejo, comparativamente, a relação é de menos de 1 m3 danificado para cada 1 m3 derrubado.
Ainda assim, é irreal imaginar que o aproveitamento possa ser total. "Quando você transforma algo cilíndrico em uma tábua, é inevitável que haja um certo desperdício", afirma Veríssimo. Um índice aceitável, segundo ele, seria de 50%.
Há também uma perda natural de volume com as cascas das árvores, jogadas fora. Nesse sentido, seria importante fazer o aproveitamento dos resíduos.
A maior parte da madeira que sobra nas serrarias é simplesmente queimada sem finalidade, segundo o engenheiro florestal Marcelo Marquesine, do Greenpeace. "Tanto que o Ibama teve de fazer uma lei exigindo que as serrarias tenham incineradores", diz ele, que já foi coordenador geral de Fiscalização do órgão. Dependendo da região, os resíduos são vendidos para a indústria de siderurgia.
Assim como o bagaço de cana, entretanto, há quem aproveite as sobras de madeira. É o caso de uma empresa certificada em Itaquatiara (AM), que queima os resíduos como biomassa e fornece 60% da energia elétrica da cidade, de 80 mil habitantes.

Ibama arrecadou 11,5% das multas emitidas na região
Herton Escobar
Nos últimos cinco anos de fiscalização na Amazônia, apenas 11,5% das multas aplicadas pelo Ibama foram pagas. Entre janeiro de 2001 e dezembro de 2005, foram registrados 43.318 autos de infração, totalizando R$ 308,6 milhões, dos quais só R$ 35,4 milhões foram pagos. Os dados foram levantados pelo Ibama depois que um estudo do Imazon foi publicado pelo Estado na semana passada.
Pelos cálculos do Imazon, entre 2001 e 2004, a média anual de arrecadação de multas na Amazônia Legal foi de apenas 2,1%. Considerada a soma dos quatro anos, a arrecadação foi de 5,1%, ou R$ 27,6 milhões, de um total de R$ 1,4 bilhão em multas. Paulo Barreto, um dos pesquisadores do Imazon que coordenou o estudo, disse que os dados vieram do Ibama. "Não sei como poderiam ser diferentes."
O diretor de Administração e Finanças do Ibama, Rubens Ferreira Alves, também não soube explicar a diferença, mas reconheceu que o nível de arrecadação (mesmo de 11,5%) é muito baixo. Para ele, o maior problema é a morosidade do processo de cobrança. Além da burocracia, os infratores entram com recursos administrativos e judiciais que arrastam a cobrança por anos. "Isso tem um custo operacional que, em muitos casos, supera o valor da multa."
Pior: enquanto estiver recorrendo, o infrator não deixa de receber novas Autorizações de Transporte de Produto Florestal (ATPFs), documento freqüentemente fraudado e usado para acobertar a movimentação de madeira ilegal na Amazônia. E mesmo que ele seja condenado, segundo Barreto, o Ibama não tem força legal para negar a concessão de novas ATPFs.

OESP, 04/02/2006, Vida, p. A28

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