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Mais calor, mais fome

O Globo, Ciência, p. 32
09 de Jan de 2009

Mais calor, mais fome
Mapa do aquecimento global prevê perda de safras sem precedentes nos trópicos

O rápido aumento das temperaturas no mundo deverá ter um efeito devastador sobre os cultivos agrícolas nas zonas tropicais e subtropicais até o fim deste século. Como alertou um estudo publicado na "Science", se não houver uma adaptação ao novo clima, metade da população mundial sofrerá com a escassez de alimentos em 2100.
Produtos primários, como o milho e o trigo, por exemplo, poderão sofrer reduções de 20% a 40%.
As populações dessas regiões estão entre as mais pobres do mundo e as que apresentam um crescimento demográfico significativo. Calcula-se que 3 bilhões de pessoas vivam nestas zonas, que engloba o Brasil.
- As pressões do aumento das temperaturas sobre a produção mundial de alimentos serão enormes - afirmou David Battisti, professor de ciências atmosféricas da Universidade de Washington. - E não estamos levando em conta o abastecimento de água.
Segundo o cientista, deve-se começar a investir o mais rapidamente possível em adaptação porque serão necessárias várias décadas para o desenvolvimento de cultivos adaptados a temperaturas tão elevadas.
- Estamos sofrendo agora o pior que já se viu historicamente e estamos dizendo que o futuro será ainda pior se não houver algum tipo de adaptação - frisou.
Temperatura recorde no trópico
Battisti e Rosamond Naylor, diretor do Programa de Segurança Alimentar da Universidade de Stanford, na Califórnia, chegaram a esse prognóstico baseados em 23 modelos climáticos. Os cientistas partiram da premissa de que existem mais de 90% de chance de que, em 2100, as temperaturas nos trópicos e subtrópicos sejam as mais altas já registradas no planeta.
Eles também se basearam em períodos históricos de maior escassez de alimento causada pelo aumento das temperaturas. Entre os períodos estudados figuram episódios na França, em 2003, e na Ucrânia, em 1972. Neste último país, uma onda de calor sem precedentes arrasou as colheitas de trigo e causou uma alteração do mercado mundial desse cereal que perdurou por dois anos.
- Quando olhamos para esses exemplos históricos vemos que sempre houve formas de resolver o problema. Sempre havia um lugar onde encontrar o alimento - disse Naylor. - No futuro, entretanto, não haverá nenhum lugar.
Até porque, sustentam, os problemas climáticos não se limitarão às zonas tropicais e subtropicais, e, como exemplo, os cientistas citam as temperaturas recorde registradas na Europa em 2003, que causaram a morte de 52 mil pessoas. As temperaturas que prevaleceram naquele verão (3,6 graus Celsius acima da média) serão normais na região em 2100.

O Globo, 09/01/2009, Ciência, p. 32

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