OESP, Vida, p. A22
19 de Fev de 2006
Madeireiros sob controle e floresta no Canadá é salva
Acordo com índios e governo define extração seletiva na 'Amazônia do Norte'
Na região canadense de Hartley Bay, terra de fiordes, geleiras e cedros gigantes, um mito é relatado pelo povo Gitga'at para explicar a presença de ursos negros com um raro gene recessivo que os deixa brancos como a neve. O deus Corvo desceu à Terra no fim de um período glacial e decidiu que 1 em cada 10 ursos negros nascidos a partir daquele momento seria branqueado e se tornaria um "urso espírito". O objetivo era lembrar as gerações futuras que o mundo deve ser mantido puro.
No início do mês, um grupo formado por funcionários do governo da Província da Colúmbia Britânica, representantes de nações nativas da região costeira, madeireiras e ambientalistas anunciou um acordo que cumprirá essa missão no lar do urso espírito, uma área que é a maior floresta pluvial temperada costeira intacta do mundo.
Uma região com cerca de 2 milhões de hectares da Floresta Pluvial do Grande Urso, também chamada de Amazônia do Norte, será fechada para os madeireiros. O acordo surge depois de mais de uma década de negociações, campanhas internacionais de boicote de madeira do Grande Urso e manifestações na floresta organizadas por indígenas e ambientalistas, que se acorrentavam a equipamentos de extração de madeira.
O processo já inspirou esforços similares para salvar a floresta do norte canadense e sugestões de que o acordo poderia ser um modelo para a preservação da Amazônia e de outras matas ameaçadas. Cientistas dizem que o acordo deverá preservar não só as poucas centenas de ursos espíritos e outros ursos negros, mas também uma das mais altas concentrações de ursos cinzentos da América do Norte, assim como subespécies únicas de açores, lobos costeiros, veados e cabras.
"É uma revolução", diz Merran Smith, diretora do Programa Costeiro de Ética Florestal da Colúmbia Britânica, um grupo ambientalista. "Trata-se de abordar a atividade tendo a preservação em primeiro plano."
Sob o acordo, os madeireiros terão direito de trabalhar em 4 milhões de hectares da floresta, o que alguns ambientalistas criticam. Mas eles serão obrigados a uma extração seletiva: longe de divisores de águas críticos, abrigos de ursos e locais de desova de peixes. "Uma nova era começa na Colúmbia Britânica", disse Gordon Campbell, primeiro-ministro da Província.
Tradição
Num sinal do novo poder indígena conquistado em recentes casos judiciais, muitas áreas que serão preservadas ou exploradas seletivamente foram escolhidas com base na tradição oral de tribos. Entre elas, áreas com significado cultural, como antigos cemitérios, ou com ervas medicinais e grandes cedros.
Se o governo concordar, mais de US$ 100 milhões serão levantados para lançar alojamentos de ecoturismo, culturas de mariscos e outras atividades econômicas para os 25 mil habitantes da região. "Agora podemos controlar nosso destino", diz Ross Wilson, presidente do conselho da tribo Heiltsuk. "Sem esse acordo, teríamos de recorrer aos tribunais e pôr nossas crianças e anciãs vestidas com mantas no caminho das serras", acrescenta, referindo-se aos velhos protestos.
Entre os defensores do acordo estão algumas das maiores empresas de madeira e papel do Canadá, como Western Forest Products, Interfor e Canfor. "É uma mudança cultural", afirma Shawn Kenmuir, gerente da Triumph Timber, que já abandonou velhas práticas de corte raso e começou a consultar a nação Gitga'at antes de extrair. A floresta representa um quarto do que sobrou das florestas pluviais temperadas costeiras no mundo.
Como chega a chover mais de 4.500 milímetros num ano, a Floresta do Grande Urso nunca sofreu um grande incêndio. Isso permitiu o crescimento de algumas das árvores mais altas e antigas do planeta, incluindo cedros de mais de mil anos.
Acredita-se que 20% dos salmões selvagens do mundo nadem pelos fiordes da floresta, incluindo o prateado e o sockeye, cujas áreas de desova foram ameaçadas pela erosão resultante da extração de madeira. Na maior parte intacta, a floresta abriga morcegos, falcões, aves marinhas e sapos. E ganha, agora, novos ares.
OESP, 19/02/2006, Vida, p. A22
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