JT, Especial, p.A8
23 de Jan de 2005
Mad Maria de verdade
A Ferrovia Madeira-Mamoré, cenário da minissérie Mad Maria, que a Globo leva ao ar na terça-feira, foi construída no começo do século passado, em plena selva amazônica, no então nascente Território de Rondônia. A malária e outras doenças, as cobras e as flechas dos índios causaram mais de mil mortes entre os trabalhadores, vindos de todos os cantos do mundo. Foram três tentativas de construção. Nas duas primeiras houve tantas baixas que as empresas desistiram. Na terceira, a ferrovia foi feita. É esta que a Globo retrata em "Mad Maria"
Valdir Sanches
A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré tinha 364 quilômetros e uma lenda. "Um morto por dormente." Não era à toa que a chamavam de Ferrovia da Morte. Por três vezes, milhares de homens tentaram construí-la, entre 1872 e 1912. Conseguiram na terceira tentativa, ao preço de 600 vidas.
Quem matava tanta gente? A selva. A malária, o tifo, o beribéri (outra grave doença), as cobras e, nos primeiros tempos, as flechas dos índios Caripuna. A ferrovia foi construída a partir de um lugar à beira do Rio Madeira, que se chamaria Porto Velho e seria (como é) a capital de Rondônia. Os trilhos serviriam para contornar um problema sério.
A Bolívia não tinha como tirar da selva sua produção de borracha. Não havia caminhos e rios para sua costa, no Pacífico. A única saída era o Atlântico. As embarcações poderiam subir o Rio Mamoré, que chegava à fronteira. Depois o Madeira, no Brasil. Por ele chegar ao Amazonas e descê-lo para o Atlântico. Perfeito - mas impraticável.
A partir de Guajará-Mirim, ainda na fronteira, o Mamoré apresenta uma série de cachoeiras. O Madeira, outras tantas. No total, são vinte cachoeiras que impedem a navegação. Pensou-se, então, no trem. Antes da primeira cachoeira, as pélas, bolotas da borracha extraída da seringueira, seriam passadas para os vagões. Percorreriam 364 km às margens do trecho problemático, e voltariam para os barcos.
A Bolívia assinou um tratado com o Brasil e, em 1872, chegaram engenheiros e trabalhadores de uma empresa inglesa. Foram tantas baixas, que em dez meses os sobreviventes bateram em retirada. Passados seis anos, 1878, veio uma empresa de engenharia americana. Um ano e centenas de mortes depois, se foi.
Em 1882, a Bolívia perdeu seu litoral, em guerra com o Chile. A Madeira-Mamoré resumia-se a seis quilômetros de trilhos abandonados. Os bolivianos dependiam mais do que nunca da ferrovia. Assinaram o Tratado de Petrópolis, em 1903, pelo qual encerravam litígios com o território do Acre, e o passavam ao Brasil. O governo brasileiro, por sua vez, comprometia-se a construir a ferrovia.
Surge o megaempresário americano Percival Farquhar (e começa a minissérie da Globo). Percival (vivido por Tony Ramos) começou a ganhar dinheiro com o serviço de bondes de Nova York. Acabou no comando de ferrovias brasileiras e latino-americanas, empresas de navegação, madeireiras, e de quebra consolidou a existência do Guarujá, no litoral de São Paulo.
A Madeira-Mamoré era um desafio à sua altura. Contratou uma firma americana, que chegou em Rondônia em 1907. Seus engenheiros acharam, entre os materiais abandonados, uma locomotiva Baldwin usada como galinheiro. Começaram a obra, que duraria cinco anos. Nesse tempo, contratariam 21.783 homens, aventureiros vindos de todos os cantos do mundo. Entre eles havia chineses, russos, indianos e até índios americanos.
Os novos construtores sabiam quem era o inimigo. Construíram um hospital. Havia 11 médicos, que atendiam também nos acampamentos, ao longo do traçado da linha. Mas nem eles escapavam das doenças. Três morreram e quatro caíram doentes, vítimas da beribéri, doença então misteriosa, que causava desnutrição.
O médico chefe escreve, em 1908, que 95% da população de Porto Velho (basicamente trabalhadores) tinha sido tratada de malária. O sanitarista Oswaldo Cruz chega ao lugar (pouco antes de Rondon, com os fios do telégrafo) e fala de "aluviões de mosquitos", que alastram "a endêmica malária". O quinino, contra a doença, era distribuído nos acampamentos.
O homem afinal vendeu a selva. O último dormente foi assentado em 30 de abril de 1912. Mas a luta estava perdida. O preço da borracha da Amazônia havia despencado no mercado mundial. Não pagava nem o frete da Madeira-Mamoré. Em 1929, os trens pararam de correr. Nos anos recentes, houve um pequeno trecho turístico. Mas também acabou.
JT, 23/01/2005, p. A8
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