OESP, Nacional, p. A22
16 de Dez de 2007
Lula pede ajuda ao Vaticano contra greve de fome de bispo
Itamaraty negocia nota em que Santa Sé defina ato de d. Luiz como pessoal
Jamil Chade
O governo brasileiro está pressionando o Vaticano para que intervenha no caso da greve de fome do bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, contra as obras de transposição do Rio São Francisco. A expectativa do Planalto é de que a Santa Sé ordene uma mudança de atitude do frei franciscano. A greve de fome entra hoje no seu 19o dia.
Ontem, a pedido direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a embaixadora do Brasil na Santa Sé, Vera Machado, reuniu-se em Roma com d. Cláudio Hummes, prefeito da Congregação do Clero, para tratar do assunto. Na segunda-feira, uma nova reunião ocorrerá no Vaticano com a cúpula do clero para tentar solucionar a crise.
A idéia inicial do presidente Lula era pedir que o Vaticano simplesmente ordenasse o fim da greve de fome de d. Luiz Flávio. Mas essa é uma posição que a Santa Sé dificilmente tomará.
COMUNICADO
Por isso, o Ministério das Relações Exteriores preferiu negociar a divulgação de um comunicado público em que fique claro o distanciamento do Vaticano em relação à atitude do religioso na Bahia. O que o Itamaraty trabalha agora é com a possibilidade de divulgação de uma nota que esclareça que a greve de fome é uma iniciativa pessoal de d. Luiz Flávio Cappio e não é sancionada pela Igreja.
Para mostrar que o governo está lidando com o assunto em suas mais altas esferas, Lula pediu que a embaixadora Vera Machado interrompesse suas férias no Brasil e retornasse imediatamente a Roma para tentar resolver o assunto. Vera esteve com d. Cláudio Hummes justamente para explicar a posição do governo de não ceder à pressão de d. Luiz e continuar com as obras de transposição do rio.
D. Cláudio é o brasileiro com o cargo mais alto no Vaticano. Como é amigo do presidente Lula, ele é visto pelo Ministério das Relações Exteriores como alguém que poderia ouvir as preocupações brasileiras com maior sensibilidade. Na segunda-feira, a reunião será com o cardeal italiano Giovanni Battista Re, que é uma espécie de ministro do Vaticano para a América Latina e responsável por responder ao Papa Bento XVI pelos bispos.
Para ambos, o recado está sendo o mesmo: o governo não vai interromper as obras e está considerando a greve de fome de d. Luiz Flávio como uma questão de Estado. Lula já disse isso à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em reunião na quarta-feira.
No Vaticano, a crise começa a preocupar a cúpula da Santa Sé. Fontes em Roma revelaram ao Estado que a nota divulgada pela CNBB em resposta a Lula, apoiando a greve de fome de d. Luiz, "não foi bem recebida" pelas autoridades da Igreja.
O governo não sabe ainda como o Vaticano divulgará sua mensagem nem quando. Mas insiste em que o caso seja solucionado o mais rápido possível.
Vigília por religioso reúne só 20
Grupo colhe assinaturas na Bahia contra obra no Rio São Francisco
Alvaro Figueiredo e Ana Lívia Lopes
Religiosos e defensores do fim das obras de transposição das águas do Rio São Francisco fizeram ontem em Salvador uma vigília em apoio ao bispo de Barra, d. Luiz Flávio Cappio, que completou 18 dias em greve de fome, em protesto contra a transposição. Os participantes da vigília, pouco mais de 20 pessoas, se reuniram na Praça da Piedade, no centro da capital baiana, e permaneceram sob o sol causticante durante toda a manhã, recolhendo assinaturas de apoio ao embargo do megaprojeto.
Apesar do corre-corre das compras de Natal, muitos curiosos e interessados pararam para ouvir os manifestantes e apoiar a iniciativa. O movimento, capitaneado pelo Fórum Permanente de Defesa do Rio São Francisco na Bahia, pretende atrair mais movimentos sociais para atividades de apoio à reivindicação do bispo de Barra.
NOTA
Oficialmente, a Igreja Católica já pediu a d. Luiz, por intermédio do arcebispo de Salvador, d. Geraldo Majella Agnelo, que encerrasse o protesto. Mas na quarta-feira a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou uma nota convocando "as comunidades cristãs e pessoas de boa vontade a se unirem em jejum e oração a d. Luiz Cappio, por sua vida, sua saúde e em solidariedade à causa por ele defendida".
O pedido já teve apoio do Movimento dos Sem-Terra (MST), que pretende mobilizar seus militantes para que participem do Dia Nacional de Vigília e Jejum Solidário, anunciado pela CNBB para amanhã.
A nota da entidade foi uma resposta ao presidente Lula, que em encontro com os bispos na semana passada disse que não paralisaria a transposição por conta do protesto e que cabia à Igreja buscar uma solução para o fim do jejum.
Na quinta-feira, uma liminar do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região mandou parar as obras. A ordem foi obedecida no dia seguinte, mas d. Luiz resolveu manter a greve de fome. Na sexta-feira, a Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com uma reclamação no Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar a liminar.
D. Luiz, de 61 anos, insiste em que só voltará a se alimentar quando o governo desistir definitivamente do projeto de transposição do rio. De acordo com o movimento Articulação Popular pelo São Francisco, que acompanha o jejum do frei franciscano em Sobradinho, 554 quilômetros a noroeste de Salvador, sua única fonte de alimentação tem sido a ingestão diária de 3 litros de soro caseiro.
A assessora do movimento Clarice Maia disse que d. Luiz é acompanhado diariamente por uma enfermeira, que monitora seu estado físico. Ele já perdeu mais de três quilos.
OESP, 16/12/2007, Nacional, p. A22
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