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Lula e o clima

FSP, Opinião, p. A2
26 de set de 2007

Lula e o clima

Espera-se que o Brasil mude sua posição e aceite metas de redução de emissões no acordo que deverá suceder Kyoto

Foi conforme o esperado o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 62ª Assembléia Geral das Nações Unidas. Numa conferência cuja tônica é a mudança climática, Lula destacou os problemas ambientais. "Não nos iludamos: se o modelo de desenvolvimento global não for repensado, crescem os riscos de uma catástrofe ambiental e humana sem precedentes", disse Lula diante de uma audiência composta por dezenas de chefes de Estado e de governo.
Como vem se tornando um hábito seu, aproveitou a ocasião para vender ao mundo a idéia de biocombustíveis. Rejeitou a tese de que um aumento da produção de etanol possa provocar insegurança alimentar.
Como vem se tornando um outro hábito seu, congratulou-se por avanços no combate à miséria. Lançando teoria não amparada pela lógica, afirmou que a melhor arma contra a degradação do planeta é a eqüidade social -podemos imaginar vários bons argumentos em favor de mais igualdade entre as pessoas e as nações, mas o combate ao efeito estufa não é um deles.
No quesito promessas para o futuro, fez apenas três. Anunciou, para o próximo ano, a realização de uma conferência internacional sobre biocombustíveis; ofereceu o Rio de Janeiro para sediar, em 2012, uma reunião de cúpula de atualização da Eco-92; e pressagiou para muito em breve seu Plano Nacional de Enfrentamento às Mudanças Climáticas, o PEMC, também conhecido como PAC do Clima, que agora ganha marketing em escala mundial.
Desta vez Lula não deixou de abordar o ponto relevante, que é o acordo internacional para controle das emissões de gases-estufa que deverá suceder o Protocolo de Kyoto, cuja primeira etapa se extingue em 2012. "Necessitamos de metas mais ambiciosas a partir de 2012. E devemos agir com vigor para que se universalize a adesão ao Protocolo. Também os países em desenvolvimento devem participar do combate à mudança do clima", declarou o mandatário.
No melhor estilo Lula, entretanto, o presidente deixou de dizer que, nas negociações para o pós-Kyoto, o Brasil vem se recusando a comprometer-se com metas de redução e mostra-se alérgico aos que sugerem "zerar" o desmatamento -que, com as queimadas, responde por 75% das emissões nacionais. Espera-se que a vaga menção presidencial à "participação" dos países em desenvolvimento marque inflexão da posição brasileira.
Há muitas incertezas nos modelos climáticos que orientam as negociações, mas é certo que, se países em desenvolvimento como China, Índia e Brasil não aceitarem e cumprirem metas de redução -ainda que de acordo com o princípio da responsabilidade comum, mas diferenciada-, vai ser impossível limitar a 2C o aumento médio da temperatura em relação ao período pré-industrial. E muitos cientistas estimam que um aquecimento além desses 2C provocaria perturbações irreversíveis no clima mundial. Essa não é apenas mais uma bravata de Lula.

FSP, 26/09/2007, Opinião, p. A2

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