CB, Política, p. 2
29 de Nov de 2003
Lula ataca, de novo
Presidente responde, irritado, a protestos de ambientalistas. E aproveita a oportunidade para criticar governo FHC
Lílian Tahan
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não leva desaforo para casa. Ontem, durante a cerimônia de abertura da I Conferência Nacional do Meio Ambiente, no Centro Comunitário da Universidade de Brasília (UnB), Lula ficou nervoso com provocações da platéia e interrompeu a leitura do discurso para responder às faixas de protesto que questionavama atuação do governo no Projeto de Lei de Biossegurança. Também aproveitou o desabafo para criticar o presidente Fernando Henrique Cardoso. ..Eu perdi três eleições, ganhei a quarta. Sei de cada compromisso que eu tenho com este país, sei dos compromissos que tinha o nosso companheiro Chico Mendes. E neste governo, nem direita e nem esquerda fará acontecer nada sem que haja um debate democrático, em que a vontade da maioria prevaleça.., disse o presidente. Os manifestantes eram minoria na platéia de quase duas mil pessoas apenas meia dúzia de ambientalistas.
Mesmo assim, Lula se irritou com as palavras de ordem. ..O projeto de biossegurança está sendo destruído, e o governo não vai fazer nada?.., mostrava uma das faixas. E o discurso que vinha bucólico . com trechos como ..... assim como a raiz faz chegar a seiva secular no tronco gigante, o Brasil precisa traçar a rede que vai garantir seu futuro sustentável no século 21.. . mudou de tom. Com a voz bem alterada e o rosto vermelho, Lula se defendeu dizendo que se tivesse medo de grito, nem teria nascido. ..Eu nasci na política, na adversidade.
Aprendi a fazer política na confrontação e vou exercer o governo desse jeito. Esse meu governo é composto por um conjunto de companheiros que sabem o que a sociedade brasileira reivindica.., ressaltou, exaltado.
A platéia gostou tanto que aplaudiu. Mas não foi suficiente para Lula se conformar. Ele então partiu para ataques ao governo anterior. Citou o exemplo do ex-deputado do PSDB Fábio Feldman (SP), que há 11 anos apresentou no Congresso Nacional o projeto da Mata Atlântica. ..O partido ao qual ele pertence governou esse país por oito anos com maioria absoluta no Congresso e o projeto não foi votado. Nós não temos mais do que 200 deputados e vamos votá-lo.., desafiou Lula. O presidente lembrou a data dia 3 de dezembro . acertada com os líderes governistas para enviar o projeto à votação na Câmara dos Deputados. E comparou mais uma vez: ..Este governo vai fazer o que o governo de alguns não conseguiu fazer durante tantos anos... Depois fez uma previsão para o futuro do primeiro escalão do governo após o término do mandato. ..Quando terminar o mandato deste governo nenhum ministro vai morar em Paris, nenhum ministro vai morar em Nova Iorque, nenhum ministro vai trabalhar
para um banco, nenhum ministro vai prestar serviço para grandes multinacionais. Eu, particularmente, quero voltar para a minha São Bernardo do Campo e poder levantar de manhã, olhar na cara dos metalúrgicos que me fizeram ser político e dizer: nós não fizemos tudo, mas fizemos mais do que muita gente já fez na história republicana deste país... Foi uma provocação ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que atualmente mora em um flat em Washington, onde participa de cursos e dá palestras.
Lula gastou toda a energia para criticar seu antecessor. Na hora de falar sobre o trabalho da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o discurso foi objetivo e com elogios tímidos. Nos últimos dias, o presidente tem usado as solenidades para defender seus ministros e sinalizar quais deles permanecem no governo depois da reforma ministerial.
Até agora, usou discursos bem incisivos para falar do ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, do Turismo, Walfrido Mares Guia, da Pesca, José Fritsch e da Previdência, Ricardo Berzoini. As citações à ministra do Meio Ambiente não tiveram tanto entusiasmo. Quem tratou de fazer a festa para ela foram os participantes do fórum que aplaudiram Marina de pé depois que ela teve de interromper o discurso, sem voz por conta de uma forte gripe.
Sem elogios para Marina
O presidente Lula evitou os elogios à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, mas não economizou nas cobranças. Ontem, na abertura da Conferência Nacional do Meio Ambiente, ele determinou que a ministra promova mais debates antes de tomar decisões. ..A companheira Marina e a sua equipe vão ter de sentar-se com os outros ministros, com o governador, com os trabalhadores, com os empresários. Vamos encontrar a solução adequada para que a gente faça, pelo menos uma vez na vida, as coisas corretas e bem-feitas neste País.., discursou. Lula se referia à discussão sobre a ampliação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, localizado entre Minas Gerais e Bahia. O assunto era consenso no Ministério, que preparou uma minuta de decreto que seria divulgada hoje, durante a conferência. Mas Lula se recusou a assinar o documento...O governo
não vai cometer o erro de a partir do seu gabinete em Brasília, fazer um decreto. Vamos fazer a transversalidade da discussão...
CB, 29/11/2003, Política, p. 2
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