OESP, Aliás, p. J7
Autor: SILVA, José Maria Cardoso da; VIEIRA, Ima Célia Guimarães
17 de Fev de 2008
Lula afirmou que a Amazônia não deve ser um santuário. Você concorda?
Ele quer preservação com desenvolvimento
Em meio às denúncias de aumento do índice de desmatamento, o presidente Lula afirmou que a Amazônia não deve ser considerada um "santuário da humanidade", ou seja, um local em que a atividade humana é proibida com o objetivo de preservar as espécies ali existentes. Para Lula, é preciso criar um modelo de preservação que não impeça os habitantes da região de ter acesso a bens de consumo e ao mercado de trabalho.
Resultado da enquete:
Sim 30%
Não 70%
"Não, mas ela precisa de santuários localizados em áreas estratégicas"
José Maria Cardoso da Silva
Vice-Pres. (América do Sul) da Conservação Internacional
A Amazônia não é um santuário, mas ela precisa de vários santuários localizados em áreas estratégicas para manter a biodiversidade e os serviços ambientais que somente essa região pode oferecer ao Brasil e ao mundo. Dos 2,1 milhões de km² da Amazônia que continuam sem pressão humana, somente 420 mil km² estão protegidos como unidades de conservação de proteção integral, o tipo de reserva que mais se aproxima da definição de santuário, pois nela, a presença humana é a mínima possível. A Amazônia não pode mais ser um santuário, pois cerca de 16 milhões de pessoas já utilizam 47% da região em vários tipos de atividades econômicas, que variam desde o extrativismo de algumas poucas essências florestais até a pecuária extensiva. Do 1,9 milhão de km² já utilizados, cerca de 780 mil km² são paisagens biologicamente empobrecidas, como cidades, pastagens, campos de agricultura e áreas abandonadas. Na corrida na Amazônia entre santuários e paisagens empobrecidas, os santuários continuam perdendo feio.
"O que restou da Amazônia após 50 anos de ocupação deve ser conservado"
Ima Célia Guimarães Vieira
Diretora do Museu Paraense Emilio Goeldi
O que restou da Amazônia após 50 anos de ocupação desordenada deve ser considerado um santuário, no sentido figurado da palavra - o que há de mais sublime -, e precisa ser conservado e usado com inteligência e responsabilidade. O processo de desmatamento é complexo e o sistema de monitoramento produzido pela ciência nacional permite que a sociedade brasileira acompanhe a evolução do desmatamento o ano inteiro e possa intervir para coibir os abusos e as práticas ilegais. Não há porque desmatar mais florestas numa região com cerca de 75 milhões de ha de áreas já alteradas, espaço suficiente para garantir a produção de bens às milhões de pessoas que vivem na Amazônia e mesmo no Brasil inteiro. A manutenção da Floresta Amazônica e dos serviços ambientais por ela prestados é de interesse coletivo, trata-se de um desafio e abre incríveis oportunidades para o País. Precisamos garantir o aumento da produtividade de áreas já alteradas e incorporadas às diversas atividades econômicas, além de recuperar áreas abandonadas e que estão em processo de degradação.
OESP, 17/02/2008, Aliás, p. J7
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