OESP, Notas e Informacões, p. A3
07 de Dez de 2003
A lucratividade da conservação ambiental
Uma importante tese de doutorado - "Determinantes da Recuperação da Mata Atlântica no Estado de São Paulo" - apresentada segunda-feira na Faculdade de Economia e Administração da USP, cujo conteúdo foi antecipado em ampla reportagem de Roldão Arruda domingo passado neste jornal, traz, pela primeira vez entre nós, dados empíricos que mostram que o Brasil chega com atraso à constatação que muitos países já fizeram, de que a preservação da natureza pode ser mais lucrativa do que sua exploração predatória.
Eixo fundamental de todas as políticas ambientais bem-sucedidas no mundo, esse axioma tem sido tratado como anátema no Brasil, graças à ação de correntes ambientalistas retrógradas, mais preocupadas com abolir o capitalismo do que com salvar árvores, que costumam reagir às verdades científicas com autos-de-fé.
O autor da tese, o professor de pós-graduação na Faculdade Getúlio Vargas e diretor de Extensão das Faculdades Senac, Eduardo Mazzaferro Ehlers, constatou, analisando fotos de satélites, que, embora a devastação da Mata Atlântica tivesse prosseguido no Estado de São Paulo durante toda a década de 90, houve áreas do Estado em que o processo foi estancado e outras onde ele foi revertido e houve recuperação de áreas anteriormente degradadas.
"Constatei que, em 204 municípios, quase um terço do total no Estado, houve um salto positivo e a tendência histórica de degradação foi revertida."
Procurando as causas dessa reversão, Ehlers localizou três pólos, em especial, onde o fenômeno era mais nítido e, após exaustiva pesquisa, definiu três fatores que contribuíram para isso: a melhoria da legislação ambiental - aliás, enriquecida esta semana com a aprovação pela Câmara dos Deputados do projeto do ex-deputado Fábio Feldman, de proteção da Mata Atlântica - acompanhada de aumento de fiscalização (a atividade agrícola diminuiu em áreas de proteção permanente como topos de morros e margens de rios), a retração da agricultura (diminuição da área plantada) nas regiões estudadas e - a grande novidade constatada por sua pesquisa - o aumento exponencial da exploração de atividades ligadas ao bom estado de conservação do meio ambiente, como o "turismo de aventura".
Três das áreas onde era mais nítido o processo de recuperação ambiental medido pelo satélite - Campos do Jordão, Águas de Lindóia e, especialmente, Brotas, que se destaca das demais pelo volume e pela qualidade do ganho ambiental obtido - são hoje centros de práticas esportivas que atraem quantidades cada vez maiores de turistas. Nos três municípios, a densidade de micro e pequenas empresas é bem superior à média do Estado e, quando se analisa a composição dessas empresas cruzando-se dados populacionais com números do Sebrae, percebe-se que 20% delas estão voltadas para o aproveitamento do patrimônio natural. São agências de ecoturismo, pousadas, esquemas de guiagem para a prática de rafting no Jacaré Pepira, afluente do Tietê, e assim por diante.
Enfim, desde que se estabeleceu um interesse econômico dependente da conservação do meio ambiente e uma boa parcela da população local passou a ter emprego condicionado a ela, o que era visto como um "obstáculo ao desenvolvimento" - a conservação ambiental - passou a ser uma condição para ele. Os políticos locais não ficaram insensíveis à mudança: 13 leis foram passadas nos legislativos locais, todas tentando garantir o bom estado de conservação do "suporte" de toda essa atividade.
O projeto de despoluição do Jacaré Pepira se destaca nesse conjunto. Nada de novo debaixo do sol. É cada vez maior o número de países que conhecem o resultado de se colocar a ganância a serviço da conservação ambiental e se beneficiam em escala nacional da cadeia de eventos que começa a ocorrer nesses três municípios paulistas. Em todos esses países, o turismo ecológico é um elemento acessório da cadeia do turismo ambiental, uma indústria em franca explosão em todo o planeta, da qual a caça e a pesca esportivas são os "produtos" mais consumidos.
Como dizíamos no início deste editorial, essa explosão se deve à simples constatação de que preservar a natureza é negócio muito mais rentável do que explorá-la de forma predatória. Assim que nos rendermos a essa obviedade de que outros países já se beneficiam há muito tempo, a tragédia ambiental brasileira, que hoje parece tão desanimadoramente distante de soluções, começará a se tornar mero registro histórico.
OESP, 07/12/2003, Notas e Informacões, p. A3
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