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Longe do "aço verde" e perto da Amazônia

Brasil Econômico - http://www.brasileconomico.com.br
Autor: Luciano Martins Costa
12 de Jan de 2012

Quem sobrevoa a região de Paragominas, no Pará, pode observar a sucessão de focos de fumaça, que em determinadas épocas do ano chegam a exigir que os pilotos façam desvios pelo trajeto.

Estimulados pela demanda das siderúrgicas instaladas no norte do país, produtores rurais mudam de atividade, construindo fornos para a produção do carvão vegetal, correndo risco de perder o crédito agrícola e sofrer pesadas multas. A matéria-prima, claro, são as árvores da floresta amazônica.

Esse processo se repete e evolui à medida que cresce a presença do Brasil no mercado global de commodities minerais. Cada novo balanço otimista do setor representa milhões de árvores perdidas ao longo do ano.

Assim, o que o país supostamente ganha em uma ponta do negócio já perdeu na primeira etapa do processamento do minério logo após a extração.

Como parte do ciclo da insustentabilidade, pode-se observar o surgimento de doenças pulmonares e outros males sociais, como a evasão escolar de adolescentes, recrutados para ajudar a família no trabalho das carvoarias.

Algumas iniciativas, como o programa Município Verde, lançado em setembro de 2011, tentam conter esse processo, mas a maioria se destina a estimular negócios que substituem a atividade madeireira predadora, com técnicas de manejo sustentável e a contenção da pecuária.

Esses projetos, iniciados em 2008, têm produzido resultados, e Paragominas saiu da lista dos municípios que mais desmatam na Amazônia. Mas a extensão de seu território, quase equivalente ao de Sergipe,dificulta a extinção do desmatamento.

Como ocorre nos projetos bem sucedidos, a busca de sustentabilidade na produção de aço, intimamente relacionada às carvoarias do Pará, depende de planos de negócio que comprovem o valor da floresta em pé.

Para o produtor, tem pouca validade o discurso ambientalista se ele não for convencido, na prática, do valor monetário dos serviços florestais. E programas como esse dependem essencialmente de quem compra o carvão.

Infelizmente, essa ainda não é a realidade predominante. No site que a Siderúrgica Norte Brasil S.A. (Sinobrás) mantém na web, por exemplo, as exigências para as carvoarias se resumem ao cumprimento das leis trabalhistas, uso de equipamento de proteção individual, criação de áreas de vivência e de um setor de fiscalização.

Nenhuma referência à origem da matéria-prima para o carvão nem à adequação da atividade à legislação ambiental. A Sinobrás tem seus fornecedores em Paragominas, Rondon do Pará e Ulianópolis, onde é grande o esforço por mudanças nas práticas de negócios.

Os projetos de inserção da indústria de aço em iniciativas a favor do ambiente se concentram nas usinas, com processos mais limpos e medidas como o reaproveitamento de escória, reciclagem e economia de água.

No entanto, é preciso começar na origem. A extrema dependência que as grandes siderúrgicas têm dos pequenos fornecedores de carvão é um empecilho, embora se deva registrar que a situação melhorou muito nos últimos dez anos.

Para merecer o selo de "aço verde", o produto precisa nascer limpo dos crimes que ainda se cometem contra a floresta amazônica.

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