OESP, Vida, p. A19
Autor: CORREA, Marcos Sá
16 de Abr de 2010
Lobato chega à campanha
Marcos Sá Correa
Desta vez, a candidata Marina Silva acertou em cheio. Sob pena de acabar antes da largada, uma campanha presidencial não pode engolir em silêncio as mudanças do Código Florestal que, para não dizer mais nada, estão entregues ao deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). O relator nunca tratou de meio ambiente. E já avisou que considera o código "impraticável".
Políticos em fim de mandato não deveriam, em princípio, meter a mão no futuro do País como se aquilo já fosse deles. Mas o presidente faz questão de legar a hidrelétrica de Belo Monte ao sucessor, seja ou não sua candidata Dilma Rousseff, a única partidária dessa aventura na selva. E ainda baixou um decreto, o 7.154, autorizando estudos para aproveitamento energético das unidades de conservação. Ele está levando o apagar das luzes ao pé da letra.
Com essas e outras, os brasileiros vão marcando, sem saber, encontros com o passado na próxima década. Seu único consolo é que pelo menos as aparências, nesse caso, não mentem. O deputado Aldo Rabelo e a candidata Dilma Rousseff têm cara de antigamente. Se não estivessem tão bem arranjados na vida pública, dariam candidatos fortes ao elenco de qualquer novela de época sobre o drama histórico do desenvolvimentismo brasileiro.
Na dúvida, releia Monteiro Lobato, o escritor que, olhando o Brasil de cima, enxergou cá embaixo um "deserto de homens e ideias". Está na hora, porque Lobato acaba de voltar à terra a tempo de animar a campanha.
Disparates engraçados. Ele reencarnou no livro Conferências, Artigos e Crônicas, a reedição de uma antologia póstuma, publicada originalmente há mais de meio século. O tempo lhe fez bem. Tirou-lhe a contundência. E, por anacrônico, tornou engraçados até os piores disparates. "Os assuntos são infinitos, mas, quando a gente chega na hora de agarrar um, não é fácil", ele confessou em sua última entrevista, dois dias antes de morrer.
Ele dava mesmo opinião sobre qualquer assunto. Via no petróleo o elixir da civilização. Achava que mais cedo ou mais tarde o mundo chegaria ao Comunismo Universal. E, em 1941, saiu do cinema "estarrecido", depois de assistir à estreia de Fantasia, o desenho animado musical de Walt Disney, como "uma nova Criação Cósmica assinada pela mais alta expressão do gênio humano".
Dizia coisas que hoje nem o presidente Lula seria capaz de dizer. Por exemplo: "O que está faltando ao mundo para o restabelecimento da paz é apenas isto: bombas atômicas para todos, de igual força." O presidente Mahmoud Ahmadinejad não imagina o que o Irã perdeu conhecendo o Brasil depois de Monteiro Lobato.
Mas, num ponto, o livro mostra um Monteiro Lobato novinho em folha. É quando espinafra o Brasil como um país empobrecido pelo vício do desenvolvimento predatório, baseado na "caça à fertilidade nativa da terra virgem".
Cada surto de progresso durava aqui só o tempo de consumir uma fonte de recursos naturais. E seguia em frente, largando para trás pobreza e sucata.
Isso é, sem tirar nem pôr, o que saiu recentemente na revista Science sobre os ciclos de crescimento econômico sustentados pelo desflorestamento na Amazônia. Portanto, em matéria ambiental, Monteiro Lobato continua dentro do prazo de validade. Ou o Brasil continua na década de 1940.
OESP, 16/04/2010, Vida, p. A19
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100416/not_imp539072,0.php
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