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Línguas indígenas sob ameaça de extinção

A Crítica, Brasil, p. A11
01 de Mar de 2004

Línguas indígenas sob ameaça de extinção

RIO (AG) - Dona Maria Chipaia já passou há algum tempo dos 70 anos, mas não sabe sua idade exata. Mulher simples, moradora de Altamira, no Pará, ela é a guardiã de um tesouro de valor inestimável que, quando ela morrer, desaparecerá também. Dona Maria é a última falante de xipaya, uma das 42 línguas indígenas brasileiras ameaçadas de extinção em breve. 0 fenômeno não é restrito ao Brasil. Há anos os lingüistas soam o alarme e recentemente a Associação Americana para o Progresso da Ciência repetiu o aviso: se nada for feito, até metade das 6.800 línguas do planeta poderá desaparecer ao longo deste século.
Isso significa uma língua morta a cada dez dias. Os mais alarmistas estimam que o quadro poderá ser pior, com 90% dos idiomas sumindo até 2100 diante do avanço de línguas dominantes, como o inglês, o russo, o hindi, o espanhol e o português: Com isso, a Humanidade perderá parte significativa de sua memória, adquirida na longa caminhada desde o início da civilização há dez mil anos.
"A língua é o aspecto mais marcante de qualquer cultura. Ela faz parte da identidade do povo e é o instrumento por meio do qual ele passa seu conhecimento tradicional de geração a geração", disse ao GLOBO, de Belém, a lingüista Ana Vilacy Galucio, do Museu Emílio Goeldi. Nesse sentido, uma das grandes conseqüências da perda de uma língua é a perda da identidade, com implicação direta na percepção da vida cultural, espiritual e intelectual.
Para a Unésco, uma língua precisa de cem mil falantes para ser considerada segura, garantindo sua passagem às gerações seguintes. 0 lingüista americano Michael Krauss, uma autoridade no assunto, estima que apenas 600 idiomas estão fora de perigo. Na Ásia, por exemplo, que abriga 32o/o das línguas, metade delas tem menos de dez mil falantes. A situação é agravada pelo fato de que mais de 50% da diversidade lingüística concentrar-se em oito países - Nova Guiné, Indonésia, Nigéria, índia, Brasil, México, Camarões e Austrália - quase todos pobres e com outras prioridades que não a preservação de seus idiomas indígenas ameaçados.
"É preciso criar condições favoráveis nas próprias comunidades para que as línguas indígenas sejam motivo de orgulho.
Muitas vezes a sociedade dominante não está sensibilizada para a convivência intercultural e vê os idiomas indígenas como um elemento folclórico - criticou Fausto Guadarrama, da Associação de Escritores em Línguas Indígenas do México.
Criada em 1993, a associação ajuda a preservar as línguas nativas do México produzindo material literário. Seus 70 associados escrevem em 24 das 62 línguas indígenas mexicanas - 34 delas em perigo de extinção.
Mas nem tudo são más notícias. A crescente consciência da importância da riqueza lingüística da Terra levou a iniciativas bem sucedidas para ressuscitar idiomas já no CTI de Babel. É o caso do havaiano, que na década de 80 estava reduzido a menos de 400 falantes - quase todos com mais de 50 anos -e hoje, graças aos esforços de grupos como o Aha Punana Leo, conta com quase dez mil.

RESISTÊNCIA
Povos lutam para manter patrimônio
Seguindo uma experiência realizada na Nova Zelândia para fazer renascer o maori, o grupo criou 12 pré-escolas com imersão total para assegurar que as crianças aprenderiam o havaiano como língua materna. "O que tentamos fazer é permitir-nos ser havaianos contemporâneos, saber quem somos e ser capazes de transitar nos dois mundos: o de nossa identidade americana e o de nossa identidade havaiana ",disse do Havaí, Hauoli Motta, do Aha Punana Leo.
No Brasil, calcula-se que tenham sobrevivido hoje 180 das estimadas 1.200 línguas indígenas que havia em 1500. Pelo menos três delas teriam apenas um falante. 0 panorama começou a mudar com a Constituição de 1988, que instituiu o ensino nos idiomas indígenas, e há vários projetos de preservação em andamento.
SÃO GABRIEL
Numa iniciativa pioneira, o " município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, declarou línguas oficiais, além do português, o baniwa, o tukano e o nheengatu. Ida Funai auxilia em produção de material didático, formação de professores indígenas e promoção de intercâmbio entre estes e especialistas das tribos, como artesãos e contadores de histórias. `A situação melhorou, mas ainda está havendo perdas. Falta dinheiro para pesquisarmos melhor nossas línguas. Ai vêm pesquisadores do exterior com financiamento, coletam dados e levam para analisar lá fora", adverte o professor Aryon Rodrigues, diretor do Laboratório de Línguas Indígenas da UnB.

A Crítica, 01/03/2004, Brasil, p. A11

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