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Liderança do Alto Xingu, cacique Aritana morre aos 71 anos vítima de Covid-19

FSP, Saúde, p. B2
06 de ago de 2020

Liderança do Alto Xingu, cacique Aritana morre aos 71 anos vítima de Covid-19

Aritana trabalhou com os irmãos Villas-Bôas na criação do Parque Nacional do Xingu; ele morreu em hospital de Goiânia

O cacique Aritana Yawalapiti, 71, uma das maiores lideranças indígenas da região do Alto Xingu, em Mato Grosso, morreu na madrugada desta quarta-feira (5) por complicações da Covid-19. Ele ficou internado por 15 dias em um hospital particular de Goiânia.

O índio deu nome a uma novela na extinta TV Tupi, em 1978. Escrita por Ivani Ribeiro, tinha como protagonistas os atores Carlos Alberto Riccelli, que interpretava Aritana, e Bruna Lombardi.

Liderança do Xingu desde a década de 1980, quando iniciou a luta pela defesa dos direitos dos povos indígenas, Aritana é o quarto indígena da aldeia Yawalapiti a morrer vítima de Covid-19.

Em todo o estado de Mato Grosso, ao menos 91 indígenas morreram em decorrência do novo coronavírus até o dia 3 de agosto -nove deles no Xingu, de acordo com dados da Coiab (Coordenação dos Povos Indígenas da Amazônia Brasileira).

Entre os Yawalapiti, quatro óbitos por Covid-19 foram registrados, entre eles um irmão e uma sobrinha de Aritana. A filha do cacique, Kaiti Kna Yawalapiti, não esconde a preocupação com o avanço da pandemia no seu povo e o fracasso das ações de enfrentamento ao vírus do governo federal.

"É um descaso o que o governo está fazendo com a gente. É muito triste. Meu povo está morrendo. Falta medicação, falta tudo", desabafou ela, em um vídeo postado em seu perfil numa rede social.

Aritana buscou o primeiro atendimento médico ainda em meados de julho, na própria aldeia, após sentir os primeiros sintomas da doença.

Mas, assim que o quadro respiratório dele piorou, foi transferido no dia 18 de julho para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital de Canarana (a cerca de 600 km de Cuiabá), onde o diagnóstico de Covid-19 foi confirmado dois dias depois.

Da cidade mato-grossense, o cacique foi levado ao hospital particular São Francisco, em Goiânia (a 700 km de Canarana), onde passou as duas últimas semanas internado. A morte dele aconteceu durante a madrugada desta quarta (5), segundo informações da Associação Yawalapiti Awapá (AYA).

O corpo do cacique deverá ser velado na própria aldeia nos próximos dias, para que sejam cumpridos os rituais da cultura indígena. Para isso, o corpo deve ser transportado de carro até o município de Canarana, de onde será levado, em um avião, de volta à aldeia.

Cacique desde os 19 anos, Aritana é filho de Paru Yawalapiti, líder indígena que atuou ao lado de Orlando Villas-Bôas na defesa da criação do Parque Indígena do Xingu na década de 1960.

Há cinco anos, ele perdeu o irmão, Pirakuman Yawalapiti, vítima de um AVC. Ele deve ser substituído pelo filho, Tapi Yawalapiti, que acompanhou Aritana e o cacique Raoni Metkure na viagem que fizeram à Europa no ano passado em busca de apoio para a proteção da Amazônia, quando visitaram o presidente da França, Emmanuel Macron, e o papa Francisco.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a Coordenação dos Povos Indígenas da Amazônia (Coiab) e a Federação dos Povos Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt) lamentaram a morte do cacique.

Coordenadora do Movimento Mulheres do Xingu na Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) e sobrinha de Aritana, Watatakalu Yawalapiti lembrou, em nota divulgada pela Coiab, que o avanço da Covid-19 sobre os territórios indígenas do Xingu era uma das preocupações do cacique.

Segundo ela, Aritana defendia a construção de um hospital de campanha no Alto Xingu e idealizou a campanha de arrecadação de recursos. "Lutou até o último momento contra a religião do homem branco que estava entrando na nossa aldeia. É uma perda irreparável. É um buraco que se abre debaixo de seus pés. Espero que nosso povo encontre forças nesse momento, porque não vai ser nada fácil", disse Watatakalu.

Ela lembrou a importância que os mais velhos têm para os povos indígenas, e quanto a perda desses anciãos afeta as comunidades. "A perda do meu tio Aritana é a perda de 98% da nossa língua. Significa para a gente muitos desmontes. Se a gente não ficar firme, se os jovens que aprenderam o que ele nos ensinou não ficarem firmes, a perda do meu tio Aritana significa a perda do Xingu inteiro".

COVID-19 NO XINGU
A região do Xingu vem enfrentando o aumento no número de casos de Covid-19 nos últimos meses.

Já são 139 casos confirmados e pelo menos nove óbitos, segundo boletim do Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena divulgado nesta quarta (5).

Não só o Xingu, mas outras porções da Amazônia com territórios indígenas têm sido muito afetadas pela pandemia do novo coronavírus.

Segundo a Coiab, foram registrados 16.161 casos e 549 óbitos por Covid-19 em 121 povos indígenas espalhados pelos nove estados amazônicos até o dia 3 de agosto (dado mais atual).

O Amazonas, com 182; o Mato Grosso, com 9; e o Pará, com 85 registros, são os estados com os maiores números de óbitos de indígenas por Covid-19 na região.

No mês passado, a Apib e seis partidos políticos ingressaram com ação no STF (Supremo Tribunal Federal) pedindo medidas legais imediatas de proteção, alegando risco real de genocídio da população indígena devido à pandemia.

Nesta quarta, o STF retomou o julgamento da ação e referendou a decisão do ministro Luís Roberto Barroso, o relator do caso, de obrigar o governo Jair Bolsonaro a adotar barreiras sanitárias em aldeias isoladas. Nos locais onde os índios mantêm contato com invasores, o governo deverá elaborar um plano de retirada de ocupantes ilegais das áreas protegidas.

FSP, 06/08/2020, Saúde, p. B2

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/08/lideranca-do-alt…

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