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Líder indígena morre de Covid-19 após denunciar falta de proteção das aldeias

O Globo - https://oglobo.globo.com/sociedade
19 de out de 2020

Líder indígena morre de Covid-19 após denunciar falta de proteção das aldeias
Tuxaua Geral dos Sateré-Mawé, Amado Menezes Filho, de 64 anos, era hipertenso e ficou internado por 23 dias

Bruno Alfano

RIO - Amado Menezes Filho, de 64 anos, era uma das vozes mais importantes na luta pela proteção contra o novo coronavírus do povo Sateré-Mawé, um conjunto de 50 aldeias no estado do Amazonas que reúne mais de 9 mil pessoas. Na última quinta-feira, ele morreu justamente de Covid-19.

Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o Brasil tem 36.847 indígenas contaminados e 852 mortos pela Covid-19. Por não terem memória imunológica para resistir às mais simples gripes, os povos originários correm risco de serem dizimados caso o coronavírus se espalhe por suas aldeias.

- Amado era um sábio, um nag, como chamamos na nossa língua, que conhecia a medicina tradicional. Quando alguém ficava doente, ele era chamado para curar. Tinha fala tranquila, mas um discurso muito firme - diz Tito Menezes, de 30 anos, sobrinho do líder indígena.

Cada uma das aldeias do povo Sateré-Mawé conta com um Tuxaua, ou líder local. Juntos, eles escolhem um Tuxaua Geral, para defender o interesse de toda a população. Nos últimos cinco anos, a posição era ocupada por Amado.

A última batalha de Amado foi contra o enfraquecimento, em 31 de maio, de uma barreira sanitária instalada no Rio Maraú, que dá acesso à terra Andirá Maraú, na divisa do Amazonas com o Pará e onde vivem os Sateré-Mawé. As barreiras protegem grupos isolados, desde que obedeçam protocolos de conduta específicos voltados para prevenir riscos de contaminação e disseminação de doenças, como a Covid-19.

A barreira do Maraú foi montada pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), do Ministério da Saúde, pela prefeitura de Barreirinha, cidade na qual está localizada a terra Andirá Marau, e pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

A Dsei, em ofício, no entanto, alegou ter decidido sair da operação no fim de maio, entre outros motivos, porque precisava dos funcionários para preencher vagas abertas nas Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena. As posicões vagaram justamente por conta de profissionais que foram infectados pelo Covid-19.

A unidade também alegou ter percebido "uso político com a promoção pessoal de pessoas interessadas em concorrer às próximas eleições municipais" e que os profissionais sentiram "desânimo" por desempenhar um "papel que não é deles, colocando a vida em perigo, se indispondo com muitos indígenas e suas lideranças".

Com a saída da Dsei, a Funai e a prefeitura seguiram com a barreira, mas com a metade do pessoal e dos barcos.

Tito afirma que isso diminuiu a efetividade da barreira, que foi definitivamente suspensa em 15 de agosto, retornando, com voluntários e a ajuda da prefeitura, em 26 setembro. Com isso, o número de casos de Covid-19 saltou de 30 para 164.

No dia 2 de junho, Amado Menezes e outras lideranças protocolaram uma nota de repúdio contra a retirada da equipe do Dsei Parintins da barreira sanitária. Nela, eles reforçam que o órgão é o "principal para o exercício de controle social da saúde indígena" e que a decisão causou revolta e indignação. Procurada, a Funai não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Três meses depois, o Tuxaua Geral, que sofria de hipertensão, começou a sentir falta de ar. Em 23 de setembro, foi internado no Hospital Regional Jofre Cohen, em Parintins, no Amazonas. Por determinação da Justiça, deveria ser transferido para uma UTI em Manaus. Porém, a transferência atrasou, o quadro clínico se agravou, e Amado morreu entubado na noite de quinta-feira.

- Ele era um ancião que contava as historias do passado para fortalezer a língua, a cultura e até o direito do povo Sateré-Mawé. Estamos em luto - conta Tito.

Barreiras em disputa
O plano de instalação de barreiras sanitárias nas aldeias apresentado pelo governo federal no final de julho deixou de fora 70% das terras indígenas. Nele, apenas 163 das 537 terras indígenas (excluindo as que possuem povos isolados) foram beneficiadas pelas medidas determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) com o objetivo de conter o avanço da Covid-19 entre esses povos.

Após a análise do documento, especialistas convidados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) que compõem o Grupo de Trabalho classificaram o plano como "extremamente deficitário e inconsistente", com terras indígenas duplicadas e outras sem a presença de nenhum agente do governo.

Em documento entregue pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) ao STF, foram consideradas como barreiras sanitárias "placas de advertência" e até mesmo fitas.

Outra crítica é a de que o plano de cronograma do governo previa para dezembro, nove meses após a pandemia chegar à região, a conclusão da instalação das barreiras na região. O STF determinou que elas deveriam estar prontas ainda este mês.

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