O Globo, Opinião, p. 6
01 de Jun de 2006
Lição dos furacões
Quando meteorologistas dos Estados Unidos alertaram, em março de 2004, que fotos de satélite indicavam a formação de um furacão no Atlântico Sul, a idéia parecia tão absurda que especialistas brasileiros chegaram a reagir com ironia. O Brasil, onde nunca se tinha registrado um furacão, parecia imune a esse tipo de fenômeno. Mas em poucos dias, quando o Catarina chegou às costas brasileiras, viu-se que os americanos tinham razão. E também que ninguém mais estaria a salvo dessa nova e assustadora característica do clima que é a absoluta imprevisibilidade.
O Catarina, assim como o furacão que em outubro do ano passado chegou à Península Ibérica, serviu para demonstrar que não se devem esperar apenas tempestades maiores e mais freqüentes, calor mais forte e nevascas mais intensas, períodos mais longos de seca e inundações mais destruidoras - embora tudo isso possa ser previsto - mas ocorrências sem precedentes. Que não podem ser evitadas e para as quais, por definição, dificilmente estaremos adequadamente preparados.
É sintomático que na Flórida, no Mississipi e em outros estados dos EUA habitualmente vítimas de furacões e a temporada de 2006 começa hoje - os governos tenham adotado a extraordinária política de alertar a população para que tome suas precauções por conta própria. É quase como dizer "cada um por si": uma alarmante confissão de impotência.
Cientistas da Universidade de São Paulo constataram, como informa o caderno Clima que circula hoje no GLOBO, que há mais de 50 anos se verifica, em São Paulo e em Campinas, a tendência de aumento de temperatura que, como é praticamente consenso entre os cientistas, está na origem das mudanças planetárias que tanta devastação já fizeram e ainda ameaçam fazer.
Ainda há quem conteste a origem humana do aquecimento global; mas essa discussão já perdeu a importância. Seja qual for a causa, o efeito estufa, que faz a temperatura subir, é indubitável, e evitar seu agravamento só é possível lançando menos gases na atmosfera. E um dever que temos com as gerações futuras. Para o presente, cabe tomar todos os cuidados e nunca supor que "isso não pode acontecer aqui".
O Globo, 01/06/2006, Opinião, p. 6
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