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Ler Ailton Krenak para adiar o fim do mundo

Folha de S.Paulo - https://www1.folha.uol.com.br
Autor: Djamila Ribeiro
31 de jan de 2020

O poderoso livro me brindou com incontáveis reflexões durante uma viagem.

"Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência de vida. Isso gera uma intolerância muito grande em relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo, que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer
isso, estaremos adiando o fim."

O poderoso livro de Ailton Krenak "Ideias para Adiar o Fim do Mundo" (ed. Companhia das Letras) me brindou com incontáveis reflexões durante uma viagem transatlântica que realizei nesta semana e na qual pude me integrar à obra, dividida em palestras e textos do autor nos últimos anos. O livro me levou a uma viagem mental, refrescante pela identificação de ler quem também enxerga o desastre da herança colonial vigente.

Quando me propus a sistematizar os estudos de feministas decoloniais sobre lugar de fala, me deparei com a reflexão de que todos estamos localizados socialmente, sendo alguns lugares o do poder e do privilégio, enquanto outros lugares carregam a marca da exploração e do apagamento -uma discussão estrutural que implica o desafio do regime de autorização discursiva do grupo social no poder, que definiu quem era a humanidade e quem eram os selvagens, os objetos; o que seria de Deus e o que seria do Diabo; o que seria saber científico e o que seria folclore.

Em face desse sistema, quando as produções bárbaras superam esse grande dique dos sistemas de opressão e desaguam para serem fonte de outras formas de vida, rompem o silêncio das vozes sufocadas, contam histórias e nos estimulam a sonhar.

É uma obra que apresenta reflexões sobre sustentabilidade, natureza e capitalismo, sob perspectiva filosófica anticolonial, oferecendo uma oportunidade de expandir a mente, transformar ações e questionar o modelo econômico imposto pelo grupo social no poder.

Uma reflexão que chamou a minha atenção, entre tantas, se deu no momento em que o autor fala do rio Doce, que o povo krenak chama de "Watu", isto é, "nosso avô".

O rio está há mais de quatro anos contaminado por uma matéria tóxica, obra de crime de autoria da mesma empresa que anos depois cobriu Brumadinho de lama. São eventos que mudaram completamente a vida da população local, que pouco ou nada recebe de suporte e apoio, sobretudo se comparados ao que recebem os acionistas em Nova York e outras metrópoles do mundo, que continuam a lucrar com o extrativismo desenfreado.

"O nome krenak é constituído por dois termos: um é a primeira partícula, "kre", que significa cabeça; a outra, "nak", significa terra. Krenak é a herança que recebemos dos nossos antepassados, das nossas memórias de origem, que nos identifica como cabeça da terra, como uma humanidade que não consegue se conceber sem essa conexão, sem essa profunda comunhão com a terra. Não a terra como um sítio, mas como esse lugar que todos compartilhamos, e do qual nós, os krenak, nos sentimos cada vez mais desraigados -desse lugar que para nós sempre foi sagrado, mas que percebemos que nossos vizinhos têm quase vergonha de admitir que pode ser visto assim. Quando nós falamos que o nosso rio é sagrado, as pessoas dizem: 'Isso é algum folclore deles'; quando dizemos que a montanha está mostrando que vai chover e que esse dia vai ser um dia próspero, um dia bom, eles dizem: 'Não, uma montanha não fala nada'."

"Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente gradação são chamados de índios, indígenas, ou povos indígenas, mas a todos."

Em tempos que a violência contra os povos indígenas aumenta, com assassinatos de guardiães da floresta e recusas em demarcações de terras, em que o lamentável presidente afirma que indígenas ainda não são seres humanos como seus semelhantes, em que a ordem econômica continua a explorar até a completa destruição do planeta, ler Ailton Krenak é uma maneira de adiar o fim do mundo. Saibamos escutá-lo.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/djamila-ribeiro/2020/01/ler-ailto…

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