OESP, Metrópole, p. A15
01 de Nov de 2016
Lama ajuda a reconstruir cidade em MG
Ao todo, 150 mil m3 foram usados pela mineradora Samarco para erguer um centro de exposição e um campo de futebol em Barra Longa
Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes
Ao menos 150 mil m³ de lama foram retirados do centro da pequena Barra Longa, cidade de 6 mil habitantes distante cerca de meia hora de Mariana, Minas Gerais. E a poeira fina, bege, vista tão logo se chega à cidade, denuncia que o trabalho de reconstrução está perto do fim. Mas cerca de 30 mil m³ de lama ficarão para sempre por lá: o material está sendo usado como base para um parque de exposições e um campo de futebol.
A cidade é a única que teve a região central atingida pelos rejeitos. A partir da Praça Manoel Lino Mol, construída para margear o Rio do Carmo, a lama se espalhou e atingiu 130 imóveis.
A Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP Billinton, responsável pela barragem que se rompeu em Mariana e deixou 18 mortos e uma pessoa desaparecida, faz de Barra Longa a vitrine de suas ações para recuperação dos danos causados pelo desastre. As obras de restauração foram filmadas continuamente e são exibidas no site da companhia. A praça foi reinaugurada semana passada.
"Fizemos a praça da forma como ela era", diz Claudio Siqueira, engenheiro da Samarco encarregado de coordenar as obras. "Mas com algumas melhorias. Colocamos piso tátil nela toda, para ficar mais acessível." Quem vive ali, no entanto, tem dificuldades para elogiar o serviço. "Eles reformaram minha loja, trocaram o piso, pintaram. Mas até agora estou esperando minha vitrines. Eu que tive de comprar outras. E, mesmo assim, olha como eu exponho as coisas: no chão", diz o comerciante Denilson Ferreira Carneiro, de 48 anos, que tem sua loja a poucos metros de distância da praça.
É em Barra Longa que o Rio Gualaxo do Norte, tingido de marrom pelos rejeitos de mina da Barragem de Fundão, da Samarco, encontra e contamina o Rio do Carmo, que forma o Doce. "Ninguém nunca mais pescou aqui. Nem viu peixe. Da ponte, antes, dava para ver os peixes nadando, indo atrás de peixes menores. Não tem mais nada disso", conta Carneiro, que guarda no celular as fotos de pescarias.
Restaurações. Logo após o desastre, chamou a atenção o fato de que a lama que vinha sendo retirada da região da praça estava sendo depositada bem ao lado do rio, sob risco de voltar para a água, como o Estado revelou, em novembro do ano passado. Na época, a prefeitura informou que era o único local disponível. O terreno abrigava o parque de exposições da cidade, usado para festas rurais.
Agora, essa lama vem sendo compactada e misturada com areia, para que o novo parque seja construído em cima. E o local terá ainda um campo de futebol, cujas bases também serão de lama. "Fizemos todo um trabalho de reforço e não há como esse material voltar para o rio", diz o engenheiro Siqueira, da Samarco. Ele destaca ainda outros serviços, como a restauração e reforma das casas. "Para a conclusão do serviço, faltam ainda 11 casas", afirma.
"Vão fazer um campo de futebol? Disso eu não estou sabendo, não", afirma o comerciante Marco Antonio Ferreira Xavier, de 75 anos. Dono de um bar na Praça Manoel Lino Mol, ele passou o ano com seu comércio fechado, vivendo os primeiros meses de favor na casa de uma irmã. Voltou para casa - que fica em cima do bar - há algumas semanas.
Quem está em casa há mais tempo também reclama dos serviços. A aposentada Margarida Pereira, de 66 anos, afirma que acordou com a mineradora que a reforma de seu imóvel, também ao lado da praça, terminaria com a abertura de uma porta de seu quarto para o banheiro, para facilitar o acesso do marido, idoso. "Era preciso reforçar três vigas. Eles mandaram eu contratar um engenheiro, e eu trouxe um lá de Ponte Nova (cidade a uma hora de distância), mas eles não fizeram e eu estou esperando até hoje", reclama.
O prefeito de Barra Longa, Fernando José Carneiro Magalhães (PMDB), afirma que a cidade passou por problemas com a dengue e por aumento de doenças respiratórias nos dois primeiros meses após o desastre. "Foi por uns dois meses. Inauguramos uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e a Samarco nos ajudou com outras obras, como uma escola de educação infantil, e vão fazer um aterro sanitário", diz, ao ser questionado sobre a reclamação de moradores que têm de conviver prolongadamente com a poeira. "Foi pouca coisa", diz. A expectativa da prefeitura é por mais serviços da empresa: "Ainda vão construir uma ponte". "Eles (Samarco) ainda devem ficar aqui uns três, quatro anos."
Em meio ao pó, família reabre a loja vazia em Barra Longa (MG)
Comerciante diz que seu prejuízo chega a R$ 100 mil desde que lama passou pela cidade
Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes,
Do armarinho, ficaram tecidos cobertos por uma capa plástica, troféus, brinquedos e outros itens populares. A loja abre por "teimosia", na esperança de que algum cliente passe pela porta de ferro e procure algo para comprar no salão de luzes apagadas. Há um ano, o comerciante Geraldo Magela Carneiro, de 51 anos, espera o dia em que voltará a trabalhar normalmente. "Já tomei prejuízo de R$ 100 mil", conta.
A família dele é toda de comerciantes: sua irmã tem uma doceria e seu irmão, uma sapataria. Todas nos melhores pontos da cidade, entre a igreja de Barra Longa e a Praça Manoel Lino Mol, centro da destruição da cidade. Todos tiveram prejuízo com a lama. E nenhum recebeu indenização pelo estoque perdido nem pelo tempo parado.
Os comércios já reabriram. Os prédios atingidos pela lama estão reformados. "Eles refizeram o prédio, pintaram. Mas, no meu caso, estou assim, com a loja sem mobília", conta Carneiro. Dono também de uma loja de móveis na cidade, ele praticamente abandonou o armarinho. Uma outra irmã, funcionária pública que trabalha em uma escola de Barra Longa, abre o comércio pela manhã, vai trabalhar e deixa os demais parentes, cujas lojas ficam uma de frente para a outra, cuidando do lugar, para ver se alguém entra. "Não entram", lamenta Carneiro.
O grande problema é a mobília. Não há estantes nem vitrines. "A Samarco chegou a mandar umas estantes para cá. Mas faltavam peças, não dava para montar o que chegou. Vieram com defeito. E eram de uma qualidade muito inferior àquela que eu tinha. Não vou montar o que tem. Quero receber aquilo que eu perdi", bate o pé o comerciante. "Mandaram dois balcões e duas vitrines, mas nem tive como montar", reclama.
A mobília doada pela empresa fica amontoada com itens à venda do comércio. O espaço também serve agora provisoriamente para guardar estoque dos vizinhos.
Quando a lama chegou ali, há um ano, atingiu tecidos, que foram perdidos. Agora, o material que sobrou acumula uma fina camada de pó, mesmo sob a proteção da lona plástica. "Como uma pessoa vai entrar aqui e comprar isso? Não tem nem como mostrar", argumenta.
A mineradora Samarco disse, por meio de nota, que "há um esforço da empresa para a reposição dos móveis nas mesmas características e qualidade daqueles que existiam antes".
"No entanto", segue a nota, "alguns produtos saíram de linha, o que impossibilita a aquisição do mesmo material no mercado". A mineradora afirma ainda que, "no caso em que os móveis entregues não atenderam às expectativas do morador, foi feita a troca dos mesmos". A nota conclui sem dar prazo para a solução do caso de Carneiro, que segue com a loja parada.
OESP, 01/11/2016, Metrópole, p. A15
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