Diário de Mato Grosso do Sul-Campo Grande-MS
Autor: Paulo César Gomes (*)
19 de Abr de 2005
Nos últimos meses, vivenciamos estarrecidos os acontecimentos acerca das mortes das crianças indígenas desnutridas, tão propalada e explorada por todos os órgãos de comunicação, quer impressa e/ou virtual. É inconcebível que isso esteja acontecendo ao nosso redor. Na última semana mais uma criança indígena acabou morrendo. A Carta Magna (Art. 6o/CF) garante a todos, "saúde, educação, proteção à maternidade e à infância...", e não precisamos ir tão longe para vermos que nem todos têm essa garantia, que é dada constitucionalmente.
O problema não é só dos índios, como muitos mencionam, e tampouco dos responsáveis pelas questões indígenas. É de todos nós que vivemos lutando por igualdades. Mas como lutar por isso, se há discriminação em todos os setores? Torna-se complexo lutarmos por tais melhorias. E mais ainda em se tratando de assuntos indígenas. Porque o índio é tutelado, e o Governo Federal é seu tutor legal.
Nesta semana comemora-se o "Dia do Índio". Notadamente, os indígenas não têm o que comemorar. Comemorar o que, se os direitos básicos como mencionei acima, não lhes é assegurado? Muito se propalou ajudas para os indígenas de Dourados e de Mato Grosso do Sul. Mas de nada adiantará se medidas urgentes e concretas forem feitas para resolver a problemática hoje verificada na comunidade indígena.
Quando se fala em índio, logo se associa ao assistencialismo. E obviamente a pessoa beneficiada se acomoda. Está recebendo algo. Não precisa mais trabalhar para adquirir seu sustento, porque há quem lhe dá tudo. Então para que se sacrificar? Precisamos combater muitas coisas erradas que acontecem em nosso meio. As medidas adotadas, por todos aqueles que se preocuparam com a questão é honrosa, pois vemos que existem pessoas que se preocupa com o próximo. Atitude louvável.
Mas não podemos deixar de mencionar que a reserva indígena local, apesar de ter grandes escolas, não existe para a comunidade indígena cursos profissionalizantes, como muitos pregoaram em campanhas eleitorais. A reserva indígena de Dourados, como já mencionei em outros artigos publicados por este jornal, é muito maior, em termo populacional, de cidades do nosso Estado, com uma população superior a dez mil habitantes. Mas infelizmente, ela é abandonada por nossos representantes.
Não temos que comemorar absolutamente nada neste dia 19 de abril, data que o branco colocou para se comemorar o "Dia do Índio". Como comemorar se, nesse ano de 2005, muitos estudantes indígenas que estavam estudando em diversas escolas na cidade de Dourados simplesmente tiveram que parar de estudar devido ao fim da gratuidade do passe estudantil? Éramos mais de 100 estudantes, que todas as noites deslocávamos de nossas residências para estudar na cidade. É de lamentar tais atitudes, de pessoas que nós colocamos lá para nos defender e nos representar e termos que "engolir seco", sem nada dizer. E ainda dizem que educação é prioridade. Pode até ser prioridade, mas com os filhos deles.
Ao "povão" que os elegeram, se sobrar tempo, estudarão algo para lembrar deles. Não podemos deixar de mencionar, que a reserva local sequer tem um espaço adequado para o lazer. Propalou-se em fazer um campo com toda a infra-estrutura necessária, com vestiários, arborizado, no único campo da reserva Jaguapirú, e até o momento, nada...
Não podemos ser hipócritas e dizer que estamos felizes por ter um dia dedicado ao índio. Pois para nós, nosso dia é comemorado diariamente. Comemoramos quando temos o que dar de comer aos nossos filhos, comemoramos quando temos nossos direitos respeitados, comemoramos quando vemos nossos representantes se lembrando, não de assistencialismo aos índios, mas de medidas concretas que elevem a auto estima de todos, com projetos (que saiam do papel) e beneficiem a comunidade indígena, enfim, nós não comemoramos a data que o "purutuya2" impôs a lembrar do índio que já vivia por estas terras. Como sempre disse que, o que queremos, é ver os nossos direitos respeitados. Pois somente assim teremos nossa dignidade protegida, pois para nós "kua koeti kaxenané kopenoti".
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