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Juréia, paraíso protegido apenas no papel

OESP, Vida, p. A29
28 de mai de 2006

Juréia, paraíso protegido apenas no papel
Estação Ecológica no litoral sofre com construções irregulares, palmiteiros e turismo desorganizado

Herton Escobar

Mesmo nos redutos mais protegidos, a mata atlântica continua pressionada pela expansão urbana, a especulação imobiliária e a falta de estrutura das unidades de conservação. No litoral sul de São Paulo, as bordas da Estação Ecológica Juréia-Itatins, de 80 mil hectares, sofrem com a invasão de palmiteiros, o turismo desorganizado e os tradicionais impasses fundiários.

No limite com Peruíbe, há casas e barracas de comida por toda a parte. Sem um mapa detalhado, é quase impossível saber onde começa a área da estação - que, pela lei, deveria ser aberta apenas a cientistas e projetos de educação ambiental. Só a Cachoeira do Paraíso, perto da entrada, chega a receber 5 mil turistas por dia nos feriados de verão.

Além do impacto ambiental, há casos freqüentes de pessoas afogadas ou que se machucam nas pedras.

Criada em 1987, a estação até hoje não tem plano de manejo, o documento básico de uma unidade de conservação. Segundo o diretor Joaquim do Marco Neto, o atraso deve-se a discussões sobre os limites e usos da estação.

Uma solução elaborada junto às comunidades locais e que está sendo estudada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente seria a criação de um mosaico de unidades de uso sustentável no entorno da estação, incluindo a conversão da área da Cachoeira do Paraíso para parque estadual (categoria que permite visitação turística).

"Não temos a mínima condição de parar essa visitação; é inconcebível", justifica Marco Neto. "O impacto será muito menor se tivermos condições de gerenciar o uso da área." O mosaico seria completado por reservas de desenvolvimento sustentável no entorno da estação, em áreas que são ocupadas por comunidades tradicionais (caiçaras) ou que já eram exploradas antes da criação da estação, como as plantações de banana na região de Miracatu.

O grosso da estação permaneceria completamente preservado e fechado, inclusive para o turismo. "Alguns lugares precisam ficar trancados mesmo, como bancos genéticos da biodiversidade", diz a coordenadora do Programa Lagamar da SOS Mata Atlântica, Alysson Costa, que desenvolve projetos de ecoturismo na região. "Há muitas belezas que podem ser visitadas sem entrar na Juréia."

BAGUNÇA FUNDIÁRIA

Pela lei, a princípio, não poderia haver ninguém morando dentro de uma Estação Ecológica. Centenas de famílias caiçaras, porém, continuam a viver na Juréia, ainda que proibidas de plantar e caçar. Segundo o cadastro mais recente (de 1990), 360 famílias residiam dentro da unidade.

Algumas foram embora, mas muitas permaneceram, como seu Chico e dona Maria do Prado, ambos nascidos na Juréia. "Vou para a cidade fazer o quê?" pergunta ela. "Quando passo lá fico doente."

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc) permite que comunidades nativas permaneçam no local de origem, dentro de certas regras. "Se as expulsássemos daqui, elas acabariam na periferia das cidades ou no entorno da estação, causando um impacto até maior do que o atual", raciocina Marco Neto.

OESP, 28/05/2006, Vida, p. A29

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